A recente declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre aplicar uma tarifa de 100% a todos os filmes produzidos fora do país acendeu um sinal de alerta na indústria do entretenimento global.
A proposta, ainda sem muitos detalhes, levanta questões complexas sobre o futuro do mercado cinematográfico, os preços para o consumidor e os investimentos no setor. No Brasil, o impacto pode ser direto tanto no bolso do público quanto na produção nacional.

O plano faz parte de uma nova rodada de medidas protecionistas anunciadas por Trump, com o objetivo de fortalecer a indústria norte-americana. No entanto, especialistas avaliam que a medida pode ter efeito contrário, gerando instabilidade, retaliações comerciais e encarecimento das produções.
Impacto direto nos preços dos ingressos
Se a tarifa de 100% for realmente aplicada, o custo de exibição de filmes estrangeiros nos Estados Unidos dobrará. Isso tende a gerar um efeito cascata, aumentando também os preços de licenciamento em outros países — inclusive no Brasil. Segundo analistas de mercado, o repasse pode encarecer ingressos de cinema em cerca de 15% a 30%.
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Hoje, o ingresso médio de cinema no Brasil gira em torno de R$ 30. Com os novos custos de distribuição, esse valor poderia facilmente ultrapassar os R$ 40 nas grandes redes. Em um cenário mais extremo, onde os estúdios optem por repassar integralmente os custos, o público pode ter que pagar até R$ 60 por uma sessão de cinema estrangeiro.
Além disso, plataformas de streaming como Netflix e Prime Video, que contam com catálogos recheados de produções internacionais, também seriam afetadas. O reajuste nas mensalidades seria praticamente inevitável. Um plano básico que hoje custa R$ 20 poderia chegar a R$ 26 ou mais.
Indústria brasileira pode ganhar espaço — ou sofrer com a instabilidade das taxações de Trump
Embora o movimento de Trump pretenda impulsionar a produção local nos EUA, ele pode gerar uma abertura inesperada para o cinema brasileiro. Com produções norte-americanas mais caras e escassas, distribuidoras podem buscar conteúdo alternativo.
“Existe uma oportunidade para o fortalecimento do cinema nacional e latino-americano. Mas, ao mesmo tempo, o mercado sofre com a incerteza e com a possibilidade de retração de investimentos”, explica o economista cultural Rafael Menezes. Segundo ele, o setor audiovisual no Brasil movimenta mais de R$ 25 bilhões por ano e emprega diretamente mais de 300 mil pessoas.
No entanto, o aumento dos custos pode levar a um encolhimento do mercado de exibição. Com menos público nas salas, a renda das produtoras também cairia, o que comprometeria a sustentabilidade de novos projetos.
Streaming, Hollywood e a reação global
A Netflix é uma das empresas que mais depende de produções internacionais. Com estúdios espalhados por Europa, América Latina e Ásia, a companhia veria seus custos aumentarem drasticamente. Após o anúncio de Trump, as ações da empresa caíram 2% no pregão da manhã da segunda-feira, 5 de maio.
Outras gigantes como Disney, Warner Bros. e Universal também registraram quedas em suas ações, embora mais suaves, entre 0,7% e 1,7%. Já operadoras de cinema, como Cinemark e IMAX, perderam mais de 5% de valor de mercado.
O medo agora é de que outros países adotem medidas retaliatórias contra os Estados Unidos. A China já sinalizou que pode restringir a importação de conteúdo americano, e a Europa também deve reagir. Isso ameaça uma indústria global interligada, onde muitos filmes são coproduzidos em diversos países.
Exemplo disso são os filmes de franquias como Missão: Impossível e 007, que contam com locações e equipes de várias partes do mundo. “Como serão classificadas essas produções? Totalmente taxadas ou parcialmente isentas? Não há clareza nenhuma”, critica Paolo Pescatore, analista da PP Foresight.
O risco de desorganizar uma indústria global
Para especialistas, a principal ameaça não é apenas o custo imediato das tarifas, mas sim a instabilidade que elas podem gerar. Produtoras e distribuidoras poderiam adotar estratégias para contornar os impostos, como abrir subsidiárias estrangeiras ou mudar a base jurídica dos contratos. Isso criaria um ambiente caótico e imprevisível.
“Criar instabilidade nos negócios afeta diretamente o planejamento de médio e longo prazo. Ninguém sabe como será o cenário em três ou cinco anos”, afirma Matthew Stillman, CEO da produtora Stillking Films, da República Tcheca.
Setores ligados à produção, como locadoras de equipamentos, técnicos e freelancers, já demonstram preocupação. No Reino Unido, o sindicato Bectu pediu intervenção do governo para proteger os trabalhadores da indústria cinematográfica local. Na Austrália e na Nova Zelândia, também há mobilização política para defender as produções nacionais.
O que esperar agora?
Ainda não há um cronograma definido para a aplicação da tarifa. Também não está claro se ela valerá apenas para estreias nos cinemas ou também para plataformas de streaming. Tampouco se baseará nos custos de produção, na receita de bilheteria ou em outro critério.
Enquanto o setor espera mais definições, cresce o temor de que a iniciativa de Trump afete negativamente uma das indústrias criativas mais lucrativas do mundo. Para o Brasil, o alerta está dado: um movimento internacional pode impactar o entretenimento local, tanto nos preços quanto nas oportunidades de negócios.
*Entrevista concedida a CNN