Por mais que o acesso à educação tenha registrado melhorias nos últimos anos, o Brasil ainda enfrenta grandes desafios para garantir ensino de qualidade em todas as faixas etárias. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Educação, divulgados em junho de 2025 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o país segue distante de cumprir metas fundamentais estabelecidas pelo Plano Nacional de Educação (PNE), criado em 2014 com validade de dez anos.
A palavra de ordem é desigualdade: se por um lado o grupo de crianças entre 6 e 14 anos já está com 99,5% de frequência escolar — percentual que representa uma universalização do acesso —, outras faixas etárias seguem abaixo dos objetivos. A meta para crianças de 4 a 5 anos, por exemplo, é de 100% de acesso à pré-escola. Em 2024, o índice ficou em 93,4%.

Entre adolescentes de 15 a 17 anos, o cenário é similar: 93,4% estavam frequentando a escola, um avanço em relação a anos anteriores, mas ainda aquém da meta de universalização para essa faixa. A taxa de frequência líquida — que considera a compatibilidade entre a idade do aluno e o ciclo educacional em que está matriculado — também revela déficits importantes.
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Frequência adequada segue abaixo do esperado, aumentando ainda mais a desigualdade educacional
A meta do PNE para crianças de 6 a 14 anos é de 95% de frequência líquida no ensino fundamental. Embora tenha sido superada em 2016, quando chegou a 96,7%, o número vem em queda desde então, atingindo 94,5% em 2024. Isso significa que parte das crianças está em séries que não correspondem à sua idade, reflexo, segundo o IBGE, da interrupção das aulas presenciais durante a pandemia de covid-19.
Para adolescentes de 15 a 17 anos, a meta de frequência líquida no ensino médio é de 85%, mas o índice alcançou apenas 76,7% em 2024. Mesmo sendo o maior valor da série histórica iniciada em 2016, ainda está 8,3 pontos percentuais abaixo do objetivo traçado.
A situação é ainda mais preocupante quando se observa a faixa etária de 18 a 24 anos: apenas 27,1% estavam matriculados no ensino superior em 2024. Se somados os 4,2% que já concluíram a graduação, chega-se a 31,3%, ainda inferior à meta de 33%.
Creches: meta distante e fatores culturais influenciam
Uma das metas mais desafiadoras do PNE é a de matricular 50% das crianças de até 3 anos em creches ou escolas até o final de 2024. De acordo com o IBGE, esse índice ficou em apenas 39,8% no último levantamento.
O mais surpreendente, no entanto, é que a falta de vagas não é o principal obstáculo. Segundo a Pnad, 63,6% das famílias de crianças até 1 ano que não estavam matriculadas afirmaram que a decisão foi por opção própria, não por falta de oferta. Esse comportamento se repete para a faixa de 2 e 3 anos, com 53,3% dos pais preferindo manter os filhos fora da educação infantil.
“Os números indicam que esse desafio está muito mais relacionado a questões culturais e estruturais do que apenas à oferta de creches”, afirma o pesquisador do IBGE William Kratochwill.
Analfabetismo cai, mas ainda persiste entre idosos
Outro dado relevante diz respeito à taxa de analfabetismo entre brasileiros com 15 anos ou mais. A meta do PNE era reduzir esse índice para no máximo 6,5%, objetivo já alcançado em 2017. Em 2024, a taxa foi de 5,3%, uma leve melhora em relação aos 5,4% registrados em 2023.
Apesar da boa notícia, ainda existem 9,1 milhões de pessoas analfabetas no país, de acordo com o IBGE. Entre os brasileiros com mais de 60 anos, a taxa de analfabetismo chega a 14,9%, embora tenha caído consideravelmente desde 2016, quando era de 20,5%.
Impacto financeiro e social da evasão escolar
A evasão escolar e a defasagem idade-série têm implicações diretas na economia do país. Jovens que abandonam os estudos têm menor qualificação e, consequentemente, menor potencial de renda ao longo da vida. De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o trabalhador com ensino médio completo ganha, em média, R$ 2.331 por mês, enquanto quem tem apenas o ensino fundamental incompleto recebe cerca de R$ 1.500, uma diferença de mais de R$ 800, que se acumula com os anos.
A curto prazo, isso também se traduz em menos arrecadação de impostos, menor produtividade e aumento da desigualdade social.
Mesmo com avanços importantes, o Brasil ainda caminha a passos lentos para atingir as metas do PNE, cuja vigência se encerra neste ano de 2025. O desafio não é apenas aumentar o número de crianças e jovens nas escolas, mas garantir que estejam na etapa de ensino adequada à sua idade, em instituições com qualidade, infraestrutura e permanência escolar assegurada.
O futuro do país depende diretamente da educação oferecida hoje. Investir em políticas públicas eficazes e no engajamento da sociedade é fundamental para reverter os déficits educacionais e preparar as próximas gerações para um mercado de trabalho cada vez mais exigente.


