Após atingir o menor patamar histórico em 2023, o trabalho infantil voltou a crescer no Brasil em 2024. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 1,65 milhão de crianças e adolescentes, entre 5 e 17 anos, estavam em situação de trabalho infantil, o que representa 4,3% da população nessa faixa etária. O número indica alta de 2,1% em relação ao ano anterior.
O levantamento faz parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), que monitora indicadores sociais e econômicos no país. De acordo com o IBGE, mesmo com a alta, os níveis seguem abaixo do registrado entre 2016 e 2022, quando o trabalho infantil representava mais de 5% da população jovem.
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Perfil das crianças em situação de trabalho
Os dados indicam desigualdade de gênero e raça entre os jovens que trabalham. Meninos representam 66% do total, com rendimento médio mensal de R$ 924, enquanto meninas são 34% e recebem R$ 693, uma diferença de mais de R$ 230.
O recorte racial também evidencia desigualdade. Crianças e adolescentes pretos ou pardos correspondem a 66% dos trabalhadores infantis, com renda média de R$ 789, contra R$ 943 recebidos por crianças brancas, que representam 32,8% do total.
Em termos regionais, o Nordeste concentra o maior número de casos, com 547 mil crianças e adolescentes, seguido pelo Sudeste, com 475 mil. O Norte registrou 248 mil, o Sul 226 mil e o Centro-Oeste 153 mil.
Piores formas de trabalho em queda
Apesar do aumento geral, as chamadas piores formas de trabalho infantil, que incluem atividades perigosas, insalubres e noturnas, apresentaram queda em 2024. Segundo o IBGE, 560 mil crianças e adolescentes estavam nessas condições, uma redução de 5,1% em relação a 2023.
Essas atividades estão descritas no decreto 6.481, que regulamenta a Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (TIP) no Brasil. Entre 2016 e 2024, o recuo acumulado foi de 39,1%, o que indica que a exposição a riscos graves diminuiu, ainda que o número de crianças em situação de trabalho tenha subido.
Impacto econômico e social
O trabalho infantil também revela efeitos econômicos relevantes. Segundo estudo do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI), a exploração precoce reduz a produtividade futura e amplia desigualdades sociais, já que compromete a formação escolar.
Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontam que, globalmente, cada dólar investido na eliminação do trabalho infantil pode gerar retorno de até sete dólares na economia em longo prazo, em razão da maior qualificação profissional e aumento de renda das futuras gerações. Considerando o câmbio de setembro de 2025, em que 1 dólar equivale à cerca de R$ 5,46, o ganho estimado é de até R$ 38,22 por dólar aplicado.
No Brasil, crianças e adolescentes que trabalham têm rendimento médio inferior a R$ 800, o que limita o poder de consumo das famílias. Além disso, a interrupção escolar aumenta a probabilidade de inserção em empregos informais e de baixa remuneração na vida adulta, perpetuando ciclos de pobreza.
Relação com programas sociais
A pesquisa mostra ainda que 717 mil crianças em situação de trabalho infantil viviam em domicílios beneficiários do Bolsa Família em 2024. A renda per capita dessas famílias foi de R$ 604, inferior ao salário mínimo vigente no período, que era de R$ 1.412.
Embora o índice de trabalho infantil entre beneficiários seja ligeiramente acima da média nacional, a redução ao longo da série histórica foi mais acentuada, com queda da diferença em relação à média geral. Além disso, esse grupo apresentou maior frequência escolar, de 91,2%, enquanto a média geral foi de 90,3%.
Afazeres domésticos e sobrecarga
O IBGE também apurou que 54,1% das crianças e adolescentes realizavam tarefas domésticas ou cuidavam de pessoas em 2024. Entre as meninas, a participação era maior, chegando a 58%.
Entre os que já exerciam alguma atividade econômica, 74% também acumulavam responsabilidades domésticas, evidenciando uma sobrecarga que impacta diretamente o tempo de estudo e lazer.


