O Brasil tem produzido mais energia renovável do que precisa. A geração vem principalmente de parques solares e eólicos do Nordeste, e, embora pareça positivo, esse excesso virou um problema para o sistema elétrico. Para evitar falhas e riscos de sobrecarga, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem ordenado cortes diários de produção.

Desde 2022, a quantidade de cortes vem aumentando. Em 2024, as usinas solares e eólicas já acumularam cerca de 400 mil horas sem poder gerar energia, o que equivale a 50 anos de produção interrompida. Três quartos desse total atingiram o Nordeste, especialmente o Ceará, um dos maiores polos de energia eólica do país.
Por que sobra energia no Brasil?
Para entender o problema, é preciso olhar para dois pontos principais: o rápido crescimento da geração renovável e a falta de planejamento para escoar toda essa energia.
Nos últimos anos, o Brasil incentivou muito a instalação de parques solares e eólicos. O resultado foi uma explosão na capacidade de geração, principalmente em regiões com grande potencial natural, como o semiárido nordestino, onde o sol é forte e os ventos são constantes. Isso aumentou a produção de energia limpa em ritmo acelerado.
O problema é que a expansão da infraestrutura de transmissão, que são as linhas que levam o que é produzido até os centros consumidores, como Sudeste e Sul, não acompanhou esse crescimento. É como se o país tivesse construído muitas “fábricas de energia” sem ter estradas suficientes para distribuir o produto. Assim, em várias horas do dia, principalmente quando o consumo nacional está mais baixo, a produção simplesmente não tem para onde ir.
Outro fator que pesa é a necessidade de equilíbrio constante no sistema elétrico. Diferente de uma caixa-d’água, que armazena o que sobra, a energia elétrica não pode ser guardada em grande escala de forma simples. O que é gerado precisa ser consumido imediatamente. Quando há excesso, o ONS precisa mandar desligar parte da produção para evitar que a rede fique instável.
O que acontece quando sobra energia?
O processo de desligamento das usinas é chamado de curtailment. Em dias de muito vento ou sol, usinas que poderiam produzir em alta capacidade são obrigadas a reduzir ou até parar. Isso significa desperdício de energia limpa e prejuízo para as empresas do setor.
Desde 2022, as perdas já somam bilhões. Só os cortes na geração eólica representaram R$ 1,7 bilhão a menos em faturamento, enquanto a energia solar deixou de arrecadar cerca de R$ 673 milhões. O setor calcula que, em três anos, os prejuízos chegam a R$ 5 bilhões.
O impacto no bolso e na economia
Para a população, o paradoxo é cruel: mesmo com sobra de energia, a conta de luz não fica mais barata. Isso porque os custos do desperdício e das disputas judiciais tendem a ser repassados às tarifas. Além disso, a insegurança jurídica e o risco de perder receita reduzem o interesse de investidores em novos projetos. Menos investimentos significam menos empregos, menos inovação e atraso no objetivo de o Brasil se tornar líder mundial em energia limpa.
O setor elétrico também alerta que a infraestrutura atual é precária. Sem modernização das linhas de transmissão e sem um planejamento mais robusto, o problema tende a se repetir e até aumentar conforme novas usinas entram em operação.
Um desafio mundial, mas com risco maior no Brasil
O excesso de energia renovável não é exclusivo do país. Estados Unidos, Alemanha e Austrália também enfrentam situações parecidas, porque o crescimento da energia solar e eólica tem sido muito rápido em várias partes do mundo. Mas, nesses países, já existem políticas e investimentos mais sólidos para reduzir os impactos, como o desenvolvimento de grandes baterias e redes inteligentes.