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Excedente de energia elétrica preocupa sistema e pode impactar conta de luz

O Brasil tem produzido mais energia renovável do que precisa. A geração vem principalmente de parques solares e eólicos do Nordeste, e, embora pareça positivo, esse excesso virou um problema para o sistema elétrico. Para evitar falhas e riscos de sobrecarga, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem ordenado cortes diários de produção.

Excedente de energia, entenda do que se trata
Em um único dia, em setembro, foram desligados cerca de 11 gigawatts — a mesma potência da hidrelétrica de Itaipu, uma das maiores do mundo | Foto: Reprodução/ Canva

Desde 2022, a quantidade de cortes vem aumentando. Em 2024, as usinas solares e eólicas já acumularam cerca de 400 mil horas sem poder gerar energia, o que equivale a 50 anos de produção interrompida. Três quartos desse total atingiram o Nordeste, especialmente o Ceará, um dos maiores polos de energia eólica do país.

Por que sobra energia no Brasil?

Para entender o problema, é preciso olhar para dois pontos principais: o rápido crescimento da geração renovável e a falta de planejamento para escoar toda essa energia.

Nos últimos anos, o Brasil incentivou muito a instalação de parques solares e eólicos. O resultado foi uma explosão na capacidade de geração, principalmente em regiões com grande potencial natural, como o semiárido nordestino, onde o sol é forte e os ventos são constantes. Isso aumentou a produção de energia limpa em ritmo acelerado.

O problema é que a expansão da infraestrutura de transmissão, que são as linhas que levam o que é produzido até os centros consumidores, como Sudeste e Sul, não acompanhou esse crescimento. É como se o país tivesse construído muitas “fábricas de energia” sem ter estradas suficientes para distribuir o produto. Assim, em várias horas do dia, principalmente quando o consumo nacional está mais baixo, a produção simplesmente não tem para onde ir.

Outro fator que pesa é a necessidade de equilíbrio constante no sistema elétrico. Diferente de uma caixa-d’água, que armazena o que sobra, a energia elétrica não pode ser guardada em grande escala de forma simples. O que é gerado precisa ser consumido imediatamente. Quando há excesso, o ONS precisa mandar desligar parte da produção para evitar que a rede fique instável.

O que acontece quando sobra energia?

O processo de desligamento das usinas é chamado de curtailment. Em dias de muito vento ou sol, usinas que poderiam produzir em alta capacidade são obrigadas a reduzir ou até parar. Isso significa desperdício de energia limpa e prejuízo para as empresas do setor.

Desde 2022, as perdas já somam bilhões. Só os cortes na geração eólica representaram R$ 1,7 bilhão a menos em faturamento, enquanto a energia solar deixou de arrecadar cerca de R$ 673 milhões. O setor calcula que, em três anos, os prejuízos chegam a R$ 5 bilhões.

O impacto no bolso e na economia

Para a população, o paradoxo é cruel: mesmo com sobra de energia, a conta de luz não fica mais barata. Isso porque os custos do desperdício e das disputas judiciais tendem a ser repassados às tarifas. Além disso, a insegurança jurídica e o risco de perder receita reduzem o interesse de investidores em novos projetos. Menos investimentos significam menos empregos, menos inovação e atraso no objetivo de o Brasil se tornar líder mundial em energia limpa.

O setor elétrico também alerta que a infraestrutura atual é precária. Sem modernização das linhas de transmissão e sem um planejamento mais robusto, o problema tende a se repetir e até aumentar conforme novas usinas entram em operação.

Um desafio mundial, mas com risco maior no Brasil

O excesso de energia renovável não é exclusivo do país. Estados Unidos, Alemanha e Austrália também enfrentam situações parecidas, porque o crescimento da energia solar e eólica tem sido muito rápido em várias partes do mundo. Mas, nesses países, já existem políticas e investimentos mais sólidos para reduzir os impactos, como o desenvolvimento de grandes baterias e redes inteligentes.

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