A criação de conteúdo digital deixou de ser apenas uma atividade de lazer e se tornou uma fonte de renda para milhares de brasileiros. Dados da pesquisa Inside Creator Economy 2023, da YOUPIX, mostram que a economia dos criadores movimentou cerca de R$ 16,4 bilhões no Brasil em 2022.

Ainda assim, a instabilidade desse setor faz com que muitos criadores optem por conciliar a criação de conteúdo com um emprego formal no regime CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).
A rotina dupla entre CLT e criação
Vídeos com a rotina de profissionais CLT têm se tornado virais nas redes sociais. Um dos formatos mais populares é o “arrume-se comigo para o trabalho”, que mostra de forma leve e criativa o dia a dia de pessoas comuns. Esse tipo de conteúdo tem chamado atenção do público e de empresas que enxergam nele uma oportunidade de aproximação com potenciais consumidores.
Segundo relatório do DataReportal de 2024, o Brasil é o segundo maior mercado do TikTok no mundo, com mais de 99 milhões de usuários ativos. Essa presença massiva ajuda a explicar o alcance rápido que criadores conseguem ao publicar conteúdos simples do cotidiano.
O olhar dos criadores
Para o criador de conteúdo e consultor da Pix, Jeff Paixão, a tendência de manter um trabalho formal ao mesmo tempo em que se produz conteúdo é reflexo da busca por segurança financeira.
“Hoje muitas pessoas precisam ter essa rotina dupla de CLT ou PJ dentro de empresas e, em paralelo, a criação de conteúdo. Isso acontece porque a criação é instável. Um mês pode ter contratos, no outro não. Ficar esperando por publicidade é inviável e o trabalho formal garante uma renda fixa para pagar as contas”, afirmou.
As empresas e o conteúdo feito por funcionários
A exposição do ambiente de trabalho no TikTok e em outras plataformas já trouxe casos de sucesso, mas também situações delicadas. Algumas empresas veem nesses vídeos uma forma de humanizar a marca, enquanto outras impõem restrições ao compartilhamento de imagens internas.

“A marca precisa construir um hub de influência, onde colaboradores interessados possam se candidatar a mostrar a cultura organizacional. Isso garante segurança e estratégia. Todos ganham: a empresa fortalece sua imagem e os colaboradores se desenvolvem como criadores”, disse.
O impacto financeiro
A relação entre CLT e criação de conteúdo não se limita à visibilidade. Também envolve a forma como os criadores encaram suas produções como um negócio.
“É muito importante que o criador de conteúdo pense na criação como uma carreira. Se marcas estão contratando pessoas para isso, existe um potencial financeiro real. Mesmo sendo CLT, o criador pode atuar como PJ (pessoa jurídica) no digital e precisa olhar para sua produção como um empreendimento”, destacou Jeff.
Esse ponto é relevante porque, segundo a pesquisa Creators e Negócios 2024 da YOUPIX, 68% dos criadores brasileiros ainda não têm CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica). A informalidade pode limitar as oportunidades de contratos com empresas maiores, que exigem emissão de nota fiscal.
Marcas de olho na tendência
Empresas já percebem o potencial de ter seus funcionários como porta-vozes digitais. Essa estratégia aproxima consumidores e reforça a imagem de transparência. No entanto, exige políticas claras para evitar vazamentos de informações sensíveis ou exposição negativa.
O movimento também pode ampliar o alcance de marcas em mercados regionais, já que criadores locais têm conseguido atrair grande engajamento. A profissionalização desses criadores pode representar uma nova frente de negócios para companhias que buscam comunicação direta com seus públicos.