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Como era a Bolsa de Valores quando o Brasil se perguntava “quem matou Odete Roitman?”

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No ano de 1988 a inflação dominava o cotidiano do brasileiro, corroendo salários e mudando preços em questão de horas. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou aquele ano com alta de 980,21%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Enquanto o poder de compra se deteriorava rapidamente, a televisão vivia um de seus momentos mais marcantes: a novela Vale Tudo, de Gilberto Braga, perguntava ao país inteiro “quem matou Odete Roitman?”, e transformava o dilema moral da elite brasileira em um espelho das desigualdades sociais e econômicas da época.

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Na vida real, a incerteza não estava apenas nos roteiros das novelas. A economia do país passava por uma transição complexa, tentando conter a escalada inflacionária e recuperar a confiança dos investidores após anos de planos econômicos frustrados.

Nesse contexto, o mercado de capitais tentava sobreviver, com a Bolsa de Valores ainda distante da relevância que teria nas décadas seguintes.

No tempo das novelas que paravam o Brasil, o mercado financeiro lutava para sobreviver à inflação e descobria o poder dos pregões (período de funcionamento da bolsa de valores em que ocorre a negociação de ativos financeiros) | Foto: Reprodução/Manoella Mello/Globo
No tempo das novelas que paravam o Brasil, o mercado financeiro lutava para sobreviver à inflação e descobria o poder dos pregões (período de funcionamento da bolsa de valores em que ocorre a negociação de ativos financeiros) | Foto: Reprodução/Manoella Mello/Globo

Antes da B3, havia duas bolsas

Em 1988, o Brasil contava com duas principais praças de negociação: a Bovespa, em São Paulo, e a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro (BVRJ). A unificação em uma única bolsa nacional só viria anos depois, em 2000, culminando na formação da atual B3 (Brasil, Bolsa, Balcão).

Naquele período, o Ibovespa, criado em 1968, era um índice ainda jovem e volátil. O cenário de inflação próxima de 1.000% ao ano dificultava qualquer tipo de planejamento. Investir em ações era considerado algo restrito a poucos: o país contava com cerca de 80 mil investidores individuais, de acordo com dados históricos da própria B3 — um número sessenta vezes menor que os mais de 5 milhões de pessoas físicas que operam hoje na Bolsa.

Os papéis mais negociados eram de empresas estatais e grandes bancos: Petrobras, Vale do Rio Doce, Bradesco, Itaú, Unibanco e Banco do Brasil. O Banespa (Banco do Estado de São Paulo), então controlado pelo governo paulista, também tinha forte presença. Em contrapartida, instituições privadas que pareciam sólidas, como Banco Nacional e Bamerindus, ainda eram símbolos de estabilidade, até enfrentarem crises nos anos seguintes, durante o processo de estabilização econômica.

Investir sem internet e com inflação diária

O investimento em ações em 1988 era um exercício de paciência e confiança. As negociações aconteciam presencialmente, com operadores de pregão gritando ofertas e lances em meio ao ruído das salas de negociação. As cotações só eram conhecidas no dia seguinte, publicadas em jornais impressos ou comunicadas pelos corretores por telefone.

Não havia aplicativos, plataformas digitais nem home brokers. O volume financeiro negociado era limitado e sujeito às oscilações diárias de preços impulsionadas pela hiperinflação. Os investidores precisavam lidar com uma economia onde o valor real do dinheiro desaparecia rapidamente: um produto que custava 1.000 cruzados em janeiro podia ultrapassar 10.000 cruzados no fim do ano. Para efeito de comparação, 1.000 cruzados em 1988 equivalem hoje a aproximadamente R$ 13,70, considerando os reajustes acumulados pela inflação até 2025, segundo cálculo baseado na série histórica do IPCA.

O ambiente financeiro era dominado por incertezas. Em meio à instabilidade, os bancos buscavam se proteger com aplicações de curtíssimo prazo, os chamados overnight, que rendiam diariamente para compensar a perda do valor da moeda. Para a maioria da população, investir em ações era distante: a prioridade era evitar a perda do poder de compra e garantir o consumo básico.

O escândalo que abalou a Bolsa

Enquanto o público especulava quem havia matado Odete Roitman, o mercado financeiro brasileiro caminhava para um mistério real. Em 1989, um ano após o fim da novela, o investidor Naji Nahas foi acusado de manipular preços de ações e operar alavancado na Bolsa do Rio, o que levou à quebra da BVRJ. O episódio ficou conhecido como “o crash da Bolsa carioca” e marcou o início de uma reformulação profunda na regulação do mercado.

A partir dali, São Paulo consolidou-se como o principal centro financeiro do país. A Bolsa passou por modernização tecnológica, fusões e novas normas de governança, que moldaram a estrutura atual da B3.

Da era do telefone ao pregão digital

Trinta e sete anos depois, a pergunta “quem matou Odete Roitman?” volta à televisão com a nova versão de Vale Tudo, exibida na TV Globo, e o Brasil reencontra um cenário econômico diferente. A hiperinflação foi controlada com o Plano Real (foi um programa de estabilização econômica que pôs fim à hiperinflação no Brasil), em 1994, e a Bolsa se digitalizou.

Hoje, a B3 movimenta cerca de R$ 25 bilhões por dia, segundo dados de setembro de 2025. O Ibovespa, que fechava 1988 em torno de 1.000 pontos, opera atualmente acima dos 130 mil pontos, reflexo de um país mais integrado à economia global, mas ainda sujeito às oscilações políticas e fiscais.

As negociações, antes limitadas às corretoras, estão agora nos smartphones. Pequenos investidores acessam fundos imobiliários, BDRs (certificados negociados na bolsa brasileira que representam ativos financeiros emitidos por empresas estrangeiras) e ETFs (exchange-traded fund, ou fundo de índice, é um fundo de investimento negociado na bolsa como se fosse uma ação) com poucos cliques, enquanto o país ainda busca ampliar a educação financeira e reduzir as desigualdades no acesso ao mercado.

Sobre o autor Rafaella Ranulfo

Jornalista especializada em assessoria e gestão da comunicação. Pós-graduanda em psicologia positiva, felicidade e bem-estar. Além de suas contribuções online, é autora de dois livros e criadora de conteúdo

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