O 20 de novembro ficou marcado na #COP30, em Belém, por um incêndio que evacuou pavilhões e suspendeu as negociações, mas não deixou feridos. O evento já vinha sendo criticado por questões estruturais. Além disso, a crise diplomática envolvendo o premiê alemão Friedrich Merz ganhou força após a deputada alemã Lisa Badum se pronunciar sobre o tema.

O dia também foi movimentado com as novas discussões sobre financiamento para ação climática e a forte presença da sociedade civil, que voltou a cobrar que o dinheiro chegue às comunidades que mais protegem a floresta.
Também ganhou força o debate sobre quem vai pagar pela transição climática, tema central da conferência deste ano. O Banco Mundial reforçou que governos sozinhos não darão conta do financiamento, enquanto organizações da sociedade civil pediram que os recursos cheguem às comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas. Em meio aos debates, a cidade recebeu moradores no feriado da Consciência Negra e também se tornou palco para protestos, instalações artísticas e novas iniciativas climáticas apresentadas por governos e empresas.
Incêndio paralisa negociações e gera correria na COP30
Um incêndio registrado por volta das 14h na chamada Zona Azul, espaço da COP onde ficam as salas de negociação entre os 190 países participantes, tomou os jornais no dia. A evacuação foi imediata, alarmes tocaram e equipes de segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) ordenaram que todos deixassem o local. Ao todo, 21 pessoas receberam atendimento médico. Dessas, 9 permaneciam em observação no fim da tarde. Todos os casos foram de inalação de fumaça ou crises de ansiedade. Não houve queimaduras.
O Ministério da Saúde, por meio do Centro Integrado de Operações Conjuntas da Saúde (Ciocs), informou que as pessoas foram encaminhadas a unidades de saúde de Belém.
O Corpo de Bombeiros controlou o fogo em cerca de seis minutos, segundo a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva. À noite, ela afirmou que a área estava segura e com alvará renovado para voltar a funcionar a partir das 11h do dia seguinte.
Com o incidente, a ONU e a presidência brasileira da COP suspenderam todas as reuniões até esta sexta-feira, 21 de novembro, data prevista para o encerramento do evento. Mesmo assim, diplomatas temem atraso maior na finalização do chamado “Pacote de Belém”, o texto final da conferência.
Jornais como The New York Times, BBC, The Guardian e Reuters repercutiram o incêndio e lembraram que a COP30 já enfrentava problemas estruturais nos últimos dias: infiltrações devido à chuva, ar-condicionado insuficiente e longas filas para alimentação.
Para alguns veículos, o incêndio pode aumentar a pressão sobre os organizadores e afetar o ritmo final das negociações. Antes do incêndio, havia expectativa de que o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, apresentasse um novo rascunho do acordo final. Mais de 80 países apoiam incluir no documento um mapa para o fim progressivo dos combustíveis fósseis, mas ainda não há consenso. Após o incêndio, a previsão é que o texto seja divulgado apenas no fim da sexta-feira.
Crise entre Brasil e Alemanha se agrava
Outro tema do dia foi a crise diplomática causada por críticas do primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz, sobre Belém. A deputada alemã Lisa Badum, do Partido Verde, enviou uma carta exigindo que Merz peça desculpas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao povo paraense. Segundo ela, o discurso do premiê gerou “forte indignação” e desrespeitou um dos principais parceiros da Alemanha na América do Sul.
O governo alemão, porém, afirmou que Merz não pretende pedir desculpas. Políticos da oposição e ambientalistas alemães criticaram duramente o discurso do premiê. A crise também se ampliou na própria Alemanha: em Berlim, dezenas de pessoas abandonaram um evento minutos antes de Merz discursar, em protesto contra falas consideradas discriminatórias.
Respekt für diese mutigen Menschen. Gut! Gut, dass ihr aufgestanden habt und den Raum verlassen habt. Merz ist nicht unser Kanzler. Er macht Politik für seine abgehobenen weißen und reichen Freunde im Privatjet. pic.twitter.com/7isuxN91eq
— Luigi Pantisano (@LuigiPantisano) November 19, 2025
Financiamento climático domina debates do dia
Além da crise diplomática, a grande discussão da COP30 continua sendo o dinheiro necessário para combater a crise climática. A diretora global de Mudanças Climáticas do Banco Mundial, Valerie Hickey, disse que governos não terão recursos públicos suficientes para financiar adaptação, mitigação e proteção ambiental. Para ela, será essencial atrair investimento privado, mas isso depende de reduzir riscos e facilitar a participação das empresas.
As falas repercutem no contexto em que países em desenvolvimento pedem mais apoio financeiro e defendem que o financiamento seja direto para comunidades.
Sociedade civil cobra recursos para quem vive na floresta
Organizações não governamentais aproveitaram a forte presença na conferência para cobrar que o financiamento climático chegue às comunidades de base, como indígenas, quilombolas, ribeirinhos e populações urbanas afetadas por eventos extremos. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) chegou a anunciar, durante o evento, R$ 7 bilhões em contratos voltados à restauração e preservação de florestas.
Lula se reúne com prefeitos e reforça papel das cidades
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontrou com representantes do Pacto Global de Prefeitos, iniciativa internacional que incentiva cidades a assumirem compromissos climáticos.
Participaram prefeitos do Marrocos, Paraná e Pará, além do ministro das Cidades, Jader Filho. Lula reforçou que as cidades são as primeiras a sentir enchentes, ondas de calor e problemas de infraestrutura e, por isso, precisam ser inseridas nas negociações globais.
Hidrogênio verde ganha vitrine em Belém
A Estação das Docas virou vitrine para embarcações movidas a hidrogênio verde, combustível produzido com energia limpa e visto como alternativa para setores de difícil descarbonização, como o marítimo.
Três barcos ficaram atracados no local, chamando atenção dos visitantes. Um deles, o JAQ, tem 36 metros e 14 cilindros com 150 quilos de hidrogênio. Hoje, ele ainda usa diesel para se mover, mas será adaptado para operar com mistura dos dois combustíveis.
Protestos e manifestações criativas marcaram o dia
A COP30 também teve espaço para manifestações artísticas e políticas: a Oxfam encenou uma “sala de emergência do planeta”, com bonecos gigantes representando líderes como Lula, Donald Trump e Javier Milei.
Um artista dinamarquês expôs uma escultura chamada “The Orange Plague”, que retrata Trump sentado sobre os ombros de um homem caído. Ativistas levaram um “barril de petróleo gigante” para criticar países que bloqueiam avanços contra combustíveis fósseis.
Moradores aproveitaram o feriado da Consciência Negra para tentar visitar a Zona Verde da COP30, que é aberta ao público. Mas a superlotação fez com que os portões fossem fechados. Longas filas se formaram sob sol forte. Mais tarde, por causa do incêndio, toda a área foi fechada definitivamente.
Indústria solar celebra força no evento
A indústria de energia solar comemorou sua presença na COP30. O Global Solar Council, que reúne empresas do mundo inteiro, fez uma festa em Ananindeua e reforçou o crescimento da energia solar no Brasil e no mundo.
Discussões sobre a COP31 começam a aparecer
A Turquia foi confirmada como sede da COP31. A escolha mostra o interesse do governo turco em aumentar sua presença internacional, mas também gerou críticas por causa do histórico do país em democracia e clima.