Mesmo com o desemprego em níveis historicamente baixos, o Brasil ainda convive com um fenômeno persistente: os trabalhadores pobres, conhecidos internacionalmente como “working poor“. São pessoas que têm emprego, trabalham muitas horas por semana, mas a renda total da casa não é suficiente para tirá-las da pobreza.
Segundo a Síntese de Indicadores Sociais (SIS) 2025, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 12 milhões de profissionais brasileiros viviam abaixo da linha de pobreza em 2024, e 585 mil estavam em situação de extrema pobreza, mesmo tendo um trabalho remunerado, ou seja, trabalhar não significa automaticamente escapar das dificuldades financeiras.

A falta de dinheiro que existe apesar do trabalho
O IBGE usa as linhas de pobreza do Banco Mundial, ajustadas pela Paridade de Poder de Compra (PPC), para identificar renda insuficiente. Em 2024, era considerado pobre o domicílio com renda inferior a R$ 694 por pessoa e extremamente pobre aquele com renda abaixo de R$ 218 por pessoa.
Esses valores equivalem às referências internacionais de US$ 6,85 e US$ 2,15 por dia, respectivamente, e ajudam a dimensionar a condição de quem, mesmo empregado, não consegue garantir o mínimo para suprir despesas básicas.
Informalidade: onde o risco de pobreza aumenta
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2024, 40,6% da força de trabalho brasileira estava em ocupações informais. Essa taxa é ainda mais alta nas regiões Norte (56%) e Nordeste (55%), onde a informalidade já supera a formalização há alguns anos. Os dados da SIS 2025 mostram que:
- 20,4% dos trabalhadores sem carteira assinada viviam na pobreza;
- 16,0% dos trabalhadores por conta própria sem contribuição previdenciária também estavam nessa condição;
- Entre trabalhadores com carteira assinada, o percentual era de 6,7%.
Além do rendimento mais baixo, a informalidade concentra grupos específicos. Segundo o IBGE, 45,6% das pessoas negras ocupadas estavam na informalidade em 2024, enquanto entre pessoas brancas a taxa era de 34%. Essa diferença atravessa todo o mercado de trabalho e ajuda a explicar por que a carência financeira é mais comum entre negros.
Raça, gênero e escolaridade moldam o mercado de trabalho
Os dados do IBGE mostram que, desde 2012, mulheres negras apresentam as maiores taxas de desemprego, de subutilização e de informalidade. Em 2022, por exemplo, 30,4% das mulheres negras estavam subutilizadas, ou seja, trabalhavam menos horas do que gostariam, tinham disponibilidade para trabalhar, mas não conseguiam uma vaga adequada. Entre homens brancos, essa taxa era de 19,2%.
No desemprego, o contraste também é expressivo: em 2022, a taxa era de 13,9% para mulheres negras, segundo a PNAD Contínua, enquanto para homens brancos era de 6,2%.
A escolaridade ajuda a reduzir o risco de pobreza, mas não o elimina. Os dados da SIS 2025 apontam que:
- Trabalhadores com ensino fundamental incompleto tinham taxa de pobreza de 23,3%;
- Com ensino médio completo, o percentual diminui, embora ainda relevante;
- Com ensino superior, cai para 1,6%.
Ainda assim, mesmo entre pessoas com ensino superior, a informalidade continua presente: 24,3% deles estavam em ocupações informais em 2024. Isso mostra que a educação melhora as oportunidades, mas não corrige sozinha as desigualdades estruturais do mercado de trabalho brasileiro.
A composição racial também reaparece na renda. Pessoas negras recebem menos que pessoas brancas mesmo com escolaridade equivalente.
Quando o território determina as chances de ascender
A falta de dinheiro entre profissionais também varia conforme a região. Dados do IBGE para 2024 mostram que:
- 24% dos trabalhadores ocupados no Nordeste viviam na pobreza;
- No Norte, esse índice era de 22,2%;
- Já no Centro-Oeste, de 6,9%;
- O Sudeste tem de 7,4% vivendo na pobreza;
- No Sul, de apenas 5%.
Essas diferenças refletem a estrutura econômica de cada região. Estados com maior presença de atividades agrícolas de baixa produtividade e serviços informais concentram mais pessoas pobres. Já regiões com maior nível de formalização e indústrias de maior valor agregado apresentam menor incidência.
A pobreza que persiste mesmo quando o país melhora
Mesmo com a recuperação do mercado de trabalho, o Brasil segue na ponta da desigualdade quando comparado a países desenvolvidos e emergentes. De acordo com dados compilados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil é o país com maior proporção de trabalhadores pobres entre os 40 analisados. Isso ocorre apesar da queda recente do desemprego e da melhora da renda média nacional.
Esse dado evidencia que o problema é estrutural: não se trata apenas de gerar vagas, mas de transformar a qualidade das ocupações disponíveis. A predominância de empregos informais e de baixa remuneração limita a mobilidade social e prolonga a permanência de milhões de pessoas em condições ruins.


