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População em situação de rua cresce e pressiona políticas públicas

O número de pessoas vivendo em situação de rua no Brasil voltou a crescer e atingiu 365.822 indivíduos no fim de 2025. Em dezembro de 2024, eram 327.925 pessoas nessa condição. Os dados fazem parte de levantamento divulgado pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, ligado à Universidade Federal de Minas Gerais.

O estudo foi elaborado a partir de informações do Cadastro Único de Programas Sociais, conhecido como CadÚnico, que reúne dados de famílias em situação de vulnerabilidade social e serve de base para a execução de políticas públicas e para o cálculo de repasses do governo federal aos municípios.

Leia também: Economia global cresce em 2026, mas com ritmo desigual

Realidade social que cresce e desafia a gestão pública nas grandes cidades brasileiras | Foto: Reprodução/Canva

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Realidade social cresce e desafia a gestão pública nas grandes cidades brasileiras, aumentando a discussão sobre políticas públicas | Foto: Reprodução/Canva

Base de dados e importância do CadÚnico para a população

O CadÚnico é o principal instrumento utilizado pelo governo federal para identificar famílias de baixa renda no país. Ele reúne beneficiários de programas como o Bolsa Família e funciona como um termômetro da pobreza e da exclusão social no Brasil.

Segundo os pesquisadores, o fortalecimento do CadÚnico como ferramenta de registro também contribui para o aumento dos números oficiais. Isso ocorre porque mais pessoas em situação de rua passaram a ser identificadas e incluídas nos sistemas de proteção social, o que amplia a visibilidade estatística do problema.

Evolução histórica desde a pandemia

Os dados mostram que, entre 2020 e 2021, período marcado pelo início da pandemia da covid-19, houve uma redução no número de pessoas vivendo nas ruas. O total caiu de 194.824 para 158.191 pessoas. A partir de 2022, no entanto, a tendência se inverteu e os números passaram a crescer de forma contínua.

Pesquisadores associam esse movimento a fatores como o fim de medidas emergenciais adotadas durante a pandemia, o aumento do custo de vida e a dificuldade de reinserção no mercado de trabalho, especialmente para pessoas com baixa escolaridade ou histórico de informalidade.

Concentração regional da população de rua

A maior parte da população em situação de rua está concentrada na Região Sudeste, que soma 222.311 pessoas, o equivalente a 61% do total nacional. Em seguida aparece a Região Nordeste, com 54.801 pessoas vivendo nessa condição.

O estado de São Paulo lidera o ranking nacional, com 150.958 pessoas em situação de rua. Na sequência aparecem Rio de Janeiro, com 33.656 pessoas, e Minas Gerais, com 33.139. No extremo oposto está o Amapá, que registra 292 pessoas nessa condição, o menor número entre os estados brasileiros.

Fatores que explicam o aumento

O Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua aponta quatro fatores principais para explicar o crescimento observado nos últimos anos. O primeiro é o fortalecimento do CadÚnico como principal registro da população em situação de rua no país.

O segundo fator é a ausência ou insuficiência de políticas públicas estruturantes, especialmente nas áreas de moradia, trabalho e educação. O terceiro está relacionado à precarização das condições de vida após a pandemia da covid-19. Já o quarto fator envolve emergências climáticas e deslocamentos forçados na América Latina, que impactam diretamente os fluxos migratórios e a vulnerabilidade social.

Custo de vida e dificuldade de acesso a serviços

Em entrevista à Agência Brasil, Robson César Correia de Mendonça, do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo, destacou que, apesar da redução da insegurança alimentar grave no país, ainda há pessoas que enfrentam dificuldades para se alimentar.

Segundo ele, o alto custo de itens básicos pressiona o orçamento de famílias e indivíduos. Mendonça relatou que apenas uma das máscaras que precisa utilizar por questões de saúde custa cerca de R$ 6.000. Além disso, há medicamentos com valores entre R$ 700 e R$ 800. Ele questiona como uma pessoa consegue arcar com aluguel, água, luz, alimentação e remédios recebendo um ou dois salários mínimos, cujo valor nacional em 2026 é de R$ 1.412.

Mercado de trabalho e avanço tecnológico

Outro ponto citado por Mendonça é o impacto do avanço tecnológico no mercado de trabalho. Segundo ele, a falta de programas de capacitação e reciclagem profissional dificulta a reinserção de pessoas em situação de rua no mercado formal.

A digitalização de processos seletivos e a exigência de habilidades técnicas específicas tendem a excluir quem não teve acesso à formação continuada. Esse cenário amplia a distância entre as oportunidades disponíveis e a realidade de quem vive em situação de extrema vulnerabilidade.

Recursos públicos e programas estaduais

A Secretaria de Desenvolvimento Social do estado de São Paulo informou que já repassou R$ 633 milhões às prefeituras paulistas desde o início da atual gestão. Desse total, R$ 145,6 milhões foram destinados exclusivamente a ações voltadas à população em situação de rua.

Entre as iniciativas citadas está a ampliação do programa Bom Prato, que oferece refeições a baixo custo. Foram criadas 24 novas unidades, segundo a secretaria. Também houve expansão do Serviço de Acolhimento Terapêutico Residencial, voltado a pessoas em situação de rua afetadas pelo uso de substâncias psicoativas, com foco em autonomia, renda e moradia.

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