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Copa do Mundo: entre o retorno econômico e o risco de dívidas

Receber uma Copa do Mundo é o desejo de muitos países. O torneio projeta a nação internacionalmente, atrai investimentos estrangeiros, impulsiona o turismo e acelera obras públicas essenciais. No entanto, o custo para sediar uma Copa do Mundo pode se transformar em uma conta bilionária, paga diretamente pelos governos e pelos contribuintes.

Enquanto algumas nações transformaram o mundial em uma vitrine de desenvolvimento urbano, outras herdaram dívidas pesadas e estádios subutilizados.

A evolução dos custos das Copas

Nas últimas duas décadas, os valores necessários para organizar o torneio cresceram de forma expressiva. Abaixo, destacamos o comportamento dos gastos em cada país e o perfil de risco que cada edição representou:

  • Alemanha (2006) | Custo aproximado de US$ 4,3 bilhões (R$ 21,67 bilhões): O país concentrou seus recursos na modernização de estruturas que já possuía. Apresentou um baixo risco financeiro devido à sua sólida base urbana.
  • África do Sul (2010) | Custo aproximado de US$ 3,6 bilhões (R$ 18,14 bilhões): O capital foi direcionado para transporte e construção civil pesada. O risco de prejuízo acabou sendo médio, pois o retorno do turismo ficou abaixo das estimativas iniciais.
  • Brasil (2014) | Custo de aproximadamente US$ 15 bilhões (R$ 27,4 bilhões): Os investimentos focaram em novas arenas e mobilidade urbana. Representou um alto risco fiscal em função de atrasos em obras e estouros no orçamento previsto.
  • Rússia (2018) | Custo aproximado de US$ 11,6 bilhões (R$ 58,46 bilhões): Priorizou a segurança e a interligação entre as cidades-sede. Teve um risco classificado como médio-alto, resultando na baixa utilização de alguns estádios após o mundial.
  • Catar (2022) | Custo superior a US$ 229 bilhões (R$ 1,15 trilhão): Foi a Copa mais cara da história da humanidade. O país decidiu construir estradas, metrôs e uma infraestrutura urbana inteira praticamente do zero. Teve um risco financeiro extremo, mas amparado pelas vastas reservas de capital vindas do petróleo.
Atrás da festa dos 30 dias de Copa, esconde-se um complexo desafio financeiro: a conta bilionária de infraestrutura que os países-sede precisam pagar pelas próximas décadas | Foto: Reprodução/ Unsplash
Atrás da festa dos 30 dias de Copa, esconde-se um complexo desafio financeiro: a conta bilionária de infraestrutura que os países-sede precisam pagar pelas próximas décadas | Foto: Reprodução/ Unsplash

Casos de Sucesso: o planejamento gerando valor

Alemanha 2006: Referência em Eficiência

A Alemanha é o principal exemplo de como realizar um evento esportivo sem comprometer as contas públicas. Por já possuir uma infraestrutura moderna, o país evitou gastos desnecessários. Praticamente todos os estádios continuaram gerando receita para os clubes locais pós-evento, impulsionando a economia alemã por vários anos.

Catar 2022: Investimento em Imagem e Futuro

Embora os gastos do Catar tenham sido astronômicos, o país encarou o valor como um projeto de longo prazo. O objetivo foi utilizar as novas ferrovias, aeroportos e hotéis para transformar a nação em um centro global de turismo e negócios, diminuindo gradualmente a sua dependência econômica do petróleo.

Os impactos negativos: quando as contas não fecham

Quando os investimentos públicos são mal planejados, cria-se um ciclo prejudicial para as finanças de um país. O endividamento inicial se transforma em um custo contínuo de manutenção para o cidadão.

África do Sul 2010: o peso da manutenção

O retorno gerado pelo fluxo de turistas estrangeiros não foi suficiente para cobrir os gastos de construção. Atualmente, diversas prefeituras locais enfrentam dificuldades financeiras para arcar com os altos custos de manutenção de arenas que recebem poucos eventos.

Brasil 2014: o desafio dos “Elefantes Brancos”

No caso brasileiro, a conta final de R$ 27,4 bilhões superou as projeções do início do projeto. Sob a ótica das finanças públicas, o balanço final deixou lacunas importantes:

  • Estádios Deficitários: Oito das doze arenas construídas registraram prejuízos frequentes após a Copa. Cidades sem grande tradição no futebol nacional (como Brasília, Manaus e Cuiabá) ganharam estruturas luxuosas que geram altos custos de conservação.
  • Gargalos na Mobilidade: Diversas obras de transporte de passageiros prometidas para a população sofreram atrasos severos, foram entregues incompletas ou acabaram paralisadas.
  • Isenções Fiscais: O governo deixou de arrecadar bilhões de reais em impostos da Federação Internacional de Futebol (FIFA) e das empresas envolvidas nas construções, reduzindo recursos que poderiam ter sido destinados a outras áreas públicas.

Quem realmente lucra com a Copa do Mundo?

Enquanto os países organizadores assumem todos os riscos e pagam pelas obras estruturais, a FIFAobtém os maiores ganhos financeiros. A entidade não se responsabiliza pelos custos de estradas ou estádios, mas detém os direitos mais lucrativos da competição: direitos de transmissão de TV, patrocínios globais e venda de ingressos.

  • Na Copa do Brasil (2014): A FIFA faturou US$ 5,7 bilhões (R$ 28,73 bilhões).
  • Na Copa do Catar (2022): A entidade bateu seu recorde histórico, arrecadando US$ 7,6 bilhões (R$ 38,30 bilhões).

Essa divisão de tarefas faz com que o risco financeiro fique com o setor público local, enquanto o lucro líquido retorna para a entidade organizadora.

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