IBOV 138.420 +0,82% USD/BRL 5,18 -0,34% EUR/BRL 5,62 +0,11% Bitcoin US$ 61.450 -0,38% Ethereum US$ 1.627 -0,67% Selic 9,75% estável IPCA 12m 3,84% -0,12pp Petróleo Brent US$ 82,40 +1,21%

Selic em queda e o desafio da economia real

Por

·

A redução da Selic recoloca no centro do debate brasileiro uma questão que vai muito além da decisão do Copom: como transformar uma política monetária menos restritiva em investimento, produtividade, crescimento empresarial e empregos sustentáveis?

A taxa básica de juros é um dos principais instrumentos de política econômica. Sua trajetória influencia o custo de oportunidade do capital, a curva de juros, o consumo, o investimento, as expectativas e as condições gerais de financiamento. Entretanto, a Selic não é a taxa efetivamente paga pela maioria das empresas e famílias.

Entre a taxa básica e o crédito na ponta existem custos de captação, risco de crédito, inadimplência, tributação, despesas operacionais, exigências de capital, garantias, prazo e margem financeira. É nessa diferença que surge o spread bancário e, principalmente, o desafio da transmissão da política monetária.

Uma queda da Selic, portanto, não significa redução automática e proporcional das taxas cobradas pelos bancos.

A queda da Selic não cria empregos diretamente.
O problema econômico relevante é saber com que velocidade e intensidade a melhora das condições monetárias chega ao tomador final | Foto: Reprodução\Canva

Essa transmissão pode ser aprimorada por maior concorrência, melhores sistemas de informação, garantias mais eficientes, portabilidade, digitalização e mecanismos públicos de compartilhamento de risco. O objetivo não deve ser controlar artificialmente o preço do crédito, mas tornar seu mercado mais eficiente.

Crédito precisa chegar às pequenas empresas

O desafio é particularmente importante para as pequenas empresas. Grandes companhias possuem acesso ao mercado de capitais, investidores institucionais e diferentes fontes de financiamento. Pequenos negócios, frequentemente, dependem quase exclusivamente do sistema bancário.

Para uma instituição financeira, um empréstimo de R$ 50 mil pode representar uma operação relativamente pequena. Para um empresário, pode significar a compra de equipamentos, formação de estoque, modernização da empresa ou abertura de uma nova unidade.

Por isso, o problema brasileiro não é apenas quanto crédito existe, mas quem consegue acessá-lo, em que condições, com qual prazo e para qual finalidade.

O conceito de crédito produtivo precisa ganhar espaço. O financiamento deve chegar quando existe uma oportunidade econômica concreta e ser compatível com o ciclo financeiro do empreendimento. Capital de giro, investimento, inovação e expansão exigem estruturas diferentes de financiamento.

O Brasil já dispõe de instrumentos importantes. BNDES e Finep, além de mecanismos de garantia e programas direcionados às micro, pequenas e médias empresas, podem reduzir o custo e o risco das operações.

O desafio está em diminuir a distância entre esses instrumentos e o empreendedor. Essa discussão também precisa superar uma visão limitada sobre o empreendedorismo.

O Microempreendedor Individual foi uma importante política de formalização e inclusão econômica. Mas o MEI deveria ser compreendido como porta de entrada para uma trajetória empresarial, e não como destino permanente. Precisamos criar empreendedores, não microempreendedores sobreviventes.

Uma política econômica eficiente deve permitir que o pequeno negócio aumente faturamento, invista, incorpore tecnologia, contrate trabalhadores e avance para estruturas empresariais mais produtivas. O sucesso não pode ser medido apenas pelo número de CNPJs existentes, mas pela capacidade das empresas de sobreviver, crescer, investir e gerar empregos.

Essa questão também possui dimensão previdenciária. Uma contribuição reduzida facilita a formalização, mas, se o trabalhador permanecer durante décadas em uma atividade de baixa renda e baixa produtividade, a solução de curto prazo pode se transformar em desafio de longo prazo. A política pública precisa construir uma escada: formalização, produtividade, crescimento, contratação, aumento da renda e maior capacidade contributiva.

Juros, produtividade e geração de empregos com a Selic

A relação entre juros e emprego também deve ser compreendida corretamente. A Selic não cria empregos diretamente. Seu efeito ocorre por meio das condições financeiras. Juros elevados aumentam o custo do capital, reduzem a viabilidade de projetos e podem desacelerar consumo e investimento. Com menor custo de capital, projetos produtivos antes inviáveis podem tornar-se economicamente atraentes.

Mas juros baixos, isoladamente, também não garantem crescimento. Investimento depende de confiança, demanda, estabilidade regulatória, previsibilidade fiscal e expectativa de retorno.

É justamente por isso que produtividade deve estar no centro da discussão. O objetivo não é simplesmente estimular o consumo, mas ampliar a capacidade produtiva da economia. Máquinas, tecnologia, digitalização, logística, qualificação profissional, inovação e eficiência energética aumentam a produtividade e criam condições para ganhos sustentáveis de renda.

Uma economia que utiliza crédito apenas para financiar consumo pode produzir expansão temporária. Uma economia que transforma crédito em produtividade constrói capacidade de crescimento futuro.

Nesse processo, a política fiscal também importa. Percepções de risco fiscal influenciam expectativas, prêmio de risco e curva de juros. Uma trajetória fiscal considerada sustentável pode contribuir para reduzir o custo de financiamento, enquanto a deterioração das expectativas pode manter elevada a estrutura de juros mesmo diante de uma Selic em queda.

Por isso, política monetária e política fiscal, embora tenham instrumentos distintos, não podem ser analisadas isoladamente.

Depois de uma redução da Selic, a avaliação da economia deveria observar mais do que a taxa definida pelo Copom. É necessário acompanhar o custo efetivo do crédito, spreads, inadimplência, prazos, financiamento às pequenas empresas, investimento, produtividade, sobrevivência empresarial e criação líquida de empregos formais.

A verdadeira questão não é apenas quanto caiu a Selic. É quanto dessa queda conseguiremos transformar em investimento, produtividade, empresas sustentáveis, renda e empregos formais.

É nessa passagem do mercado financeiro para a economia real que uma decisão de política monetária deixa de ser apenas uma mudança de taxa e passa a representar uma oportunidade de desenvolvimento.

Sobre o autor Cloves Santos

Cloves Santos é contabilista, Formado em Marketing, com MBA em Finanças pela UFJF cursando Gestão Inovação Tecnológica. Ex-Diretor da Câmara Municipal de Juiz de Fora, foi agraciado com a Comenda Henrique Halfeld. Defensor do empreendedorismo sustentável, busca integrar inovação, responsabilidade social e consumo consciente para um futuro equilibrado e próspero.

Newsletter

As principais notícias de finanças no seu e-mail

Análises de mercado, economia e negócios. Sem spam, cancele quando quiser.

Publicidade
Publicidade