O número de brasileiros que trabalham como motociclistas por aplicativos praticamente dobrou em três anos, mas a proteção previdenciária ainda alcança uma parcela pequena desses profissionais.
Em 2025, 405 mil pessoas trabalhavam por plataformas digitais com motos, entre serviços de transporte de passageiros e entregas de comida e produtos. Desse total, apenas 79 mil tinham cobertura previdenciária, o equivalente a 19,4% ou cerca de uma em cada cinco pessoas. O índice é bem menor que o registrado entre todos os trabalhadores do setor privado, de 62,4%.
Os dados fazem parte de um levantamento especial da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As informações foram coletadas em 2025 para medir o trabalho realizado por meio de plataformas digitais.

Número de motociclistas de aplicativo quase dobra em três anos
A quantidade de profissionais que trabalham com motos por meio de aplicativos vem crescendo rapidamente. Entre 2024 e 2025, houve alta de 15,4%. Quando a comparação é feita com 2022, primeiro ano em que o IBGE realizou esse levantamento, o avanço é ainda maior. Naquele ano, eram 211 mil motociclistas plataformizados. Em 2025, o número chegou a 405 mil.
A cobertura previdenciária, porém, não acompanhou esse crescimento. Contribuir para a Previdência pode garantir ao trabalhador benefícios como aposentadoria, auxílio em caso de incapacidade para trabalhar e pensão por morte.
O analista da pesquisa do IBGE Gustavo Geaquinto Fontes chama atenção para a baixa proporção de motociclistas de aplicativos protegidos. Segundo ele, esses profissionais podem estar mais expostos a acidentes e outros riscos relacionados ao trabalho.
A pesquisa do IBGE é considerada experimental, porque ainda está em fase de teste e avaliação. Em 2023, não houve coleta dessas informações.
Motociclistas ganham mais por hora, mas trabalham mais
Além do número de trabalhadores, o levantamento permite comparar a rotina e os ganhos de quem atua por aplicativos com a de outros motociclistas. Em 2025, os motociclistas ligados a plataformas recebiam, em média, R$ 2.221 por mês. O valor considera quanto efetivamente sobrava da atividade, já descontados gastos como combustível.
A jornada também era maior. Esses profissionais trabalhavam, em média, 44,9 horas por semana, enquanto os motociclistas que não utilizavam aplicativos tinham uma carga de 41,1 horas.
Quando o cálculo considera o valor recebido por hora, os trabalhadores de aplicativos levavam vantagem. A média era de R$ 11,40 por hora, 12,9% acima dos R$ 10,10 registrados entre os demais motociclistas.
Motoristas de aplicativo também têm baixa cobertura
O levantamento do IBGE mostra que o cenário se repete entre os motoristas que trabalham por plataformas. Em 2025, havia 905 mil motoristas de aplicativos no país, número 9,8% maior que o registrado em 2024. Em três anos, o crescimento chegou a 26%. Em 2022, eram 718 mil profissionais nessa atividade.
Mesmo com esse contingente, somente 25,5% dos motoristas de aplicativos tinham cobertura previdenciária, o equivalente a aproximadamente um em cada quatro trabalhadores.

Nesse grupo, porém, a relação entre tempo trabalhado e remuneração era diferente da observada entre os motociclistas. Os motoristas de aplicativos cumpriam jornada média de 45,9 horas semanais e recebiam R$ 14,40 por hora. Entre os demais, eram 40,4 horas e R$ 16 por hora.
No fim do mês, os motoristas ligados a plataformas recebiam, em média, R$ 2.873, valor 2,4% superior ao dos profissionais que não trabalhavam por aplicativos.
Associação questiona resultados da pesquisa
Após a divulgação dos dados, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que reúne empresas de tecnologia que oferecem serviços, reconheceu a importância de ampliar os estudos sobre o trabalho por plataformas, mas fez críticas ao levantamento do IBGE.
Como a pesquisa é classificada pelo próprio instituto como experimental, a entidade afirma que existem limitações na metodologia e que os resultados podem não representar com precisão esse grupo de trabalhadores.
A Amobitec também apontou diferenças entre os números do IBGE e levantamentos realizados pelo Instituto Datafolha e pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), feitos em períodos diferentes.
Outro ponto questionado foi a forma de calcular os ganhos dos profissionais que trabalham com aplicativos. Para a associação, o método utilizado pelo IBGE pode não retratar de maneira precisa os rendimentos desse grupo.
A entidade afirmou estar disposta a colaborar com o instituto no aprimoramento da pesquisa e defendeu uma regulamentação que combine proteção para motoristas e entregadores com a flexibilidade característica do trabalho por aplicativos. Entre as empresas associadas à Amobitec estão 99, Alibaba, Amazon, Buser, iFood, Uber e Zé Delivery.


