O número de pessoas com deficiência (PcDs) no ensino superior quase triplicou em dez anos, passando de 33.377 estudantes em 2014 para 95.572 em 2024. O avanço, porém, acontece em meio a uma diferença que começa ainda na educação básica: em 2022, a taxa de analfabetismo entre pessoas com deficiência de 15 a 29 anos era de 12,2%, contra 1% entre aquelas sem deficiência.
Os dados do Censo Demográfico 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o acesso à educação ainda é diferente para os dois grupos. Essa realidade ajuda a entender um dos desafios que aparecem mais tarde, no mercado de trabalho, onde 98,5% das vagas destinadas a pessoas com deficiência são para funções operacionais, segundo levantamento da startup Egalite.

A diferença começa na escola
A frequência escolar já apresentava diferenças entre os grupos em 2022. Entre crianças com deficiência de 6 a 14 anos, 92,6% frequentavam a escola, contra 98,4% entre aquelas sem deficiência. Na faixa de 15 a 17 anos, os índices eram de 79,5% e 85,4%, respectivamente.
Entre pessoas com deficiência profunda, que precisam de cuidados intensivos, a frequência era ainda menor: 82,3% entre crianças de 6 a 14 anos e 65,6% entre jovens de 15 a 17 anos.
O analfabetismo também varia conforme o tipo de deficiência. A maior taxa, de 40,4%, foi registrada entre pessoas com dificuldades associadas às funções mentais. Entre aquelas com mais de um tipo de deficiência, o índice era de 34%.
Já entre pessoas com alguma dificuldade para enxergar, a taxa era de 3,5%, mais de três vezes a registrada entre quem não tinha deficiência. O índice chegava a 10% entre aquelas com dificuldade para ouvir, 23,3% entre quem tinha dificuldade para caminhar ou subir escadas e 31,3% entre pessoas com dificuldade para pegar objetos pequenos.
A estrutura das escolas também apresenta diferenças. Segundo o Censo Escolar 2025, 57% tinham banheiro acessível, 30% possuíam sala de recursos multifuncionais e 26,2% contavam com profissional de apoio. Considerando as escolas que tinham pelo menos um desses recursos, o percentual chegava a 78,5%.
Mais estudantes chegam ao ensino superior
Mesmo diante dessas diferenças na educação básica, a presença de pessoas com deficiência nas universidades aumentou de forma significativa entre 2014 e 2024. A participação desse grupo no total de estudantes de graduação passou de 0,43% para 0,93% no período.
O crescimento foi puxado principalmente pelos cursos à distância. As matrículas de pessoas com deficiência em graduações presenciais passaram de 26.637 para 50.609, enquanto nos cursos à distância o número saltou de 6.740 para 44.963, mais de seis vezes.
O avanço no ensino superior convive com uma realidade na qual nem todos conseguem percorrer as mesmas etapas educacionais. Essa diferença também aparece quando esses estudantes chegam ao mercado de trabalho.
Mercado de trabalho ainda concentra vagas operacionais para PcDs
O levantamento da Egalite, empresa especializada em projetos para empregabilidade de pessoas com deficiência, considera 116 mil profissionais cadastrados e mais de 19 mil vagas ativas no portal Inclui PcD. Segundo os dados, 98,5% das oportunidades destinadas a pessoas com deficiência são para funções operacionais, enquanto apenas 1,5% corresponde a posições técnicas e gerenciais.
A procura dos profissionais, porém, mostra outro cenário: 31% das candidaturas espontâneas são direcionadas a cargos técnicos e gerenciais.
A pesquisa também aponta uma diferença na expectativa de remuneração. A pretensão salarial mediana dos candidatos com deficiência é de R$ 1.450, abaixo do salário mínimo em vigor, de R$ 1.621. O levantamento aponta ainda que muitas vagas destinadas a esse público já são oferecidas com remuneração menor em relação aos parâmetros de mercado.
Outro obstáculo está na oferta de trabalho remoto e híbrido. De acordo com o Inclui PcD, essas vagas representavam 28,4% das oportunidades em 2024, mas passaram a representar apenas 0,8% em 2026.
Para profissionais neurodivergentes, o ambiente de casa pode permitir maior controle dos estímulos, adaptação do espaço de trabalho e redução da sobrecarga social.


