Em 1994, o jornalista Zuenir Ventura deu nome a uma coisa que todo carioca via e quase ninguém queria nomear: a de que quem vivia no Rio de Janeiro transitava numa Cidade Partida. Assim nasceu o livro, depois que ele passou meses subindo e descendo Vigário Geral, favela da Zona Norte marcada pela chacina de 1993. Obra que mostrou que o Rio não era uma cidade com problemas sociais; era uma cidade dividida em duas, divididas por CEPs e que pareciam ser de outro país.
De um lado ficavam o asfalto, a orla e os direitos. Do outro, o morro, o subúrbio e a bala. A expressão escapou do livro e entrou no vocabulário brasileiro, e o próprio livro rendeu ao repórter o Prêmio Jabuti, principal prêmio literário no Brasil, em 1995.
A força de Cidade Partida está no método, já que Zuenir não interpretou a desigualdade de cima, ele foi até ela, sentou com as pessoas e as escutou. O resultado foi uma geografia da desigualdade brasileira. A fratura social tem endereço, altitude e cor de pele. Separava quem descia o morro para trabalhar na Zona Sul de quem só subia o morro no noticiário policial, sendo o Rio a vitrine mais visível de um país inteiro partido.

A cidade partida de Zuenir Ventura virou um retrato nacional
Hoje, o Censo 2022 contou 12.348 favelas e comunidades urbanas, onde viviam mais de 16,3 milhões de pessoas, cerca de 8,1% da população, espalhadas por 656 municípios. A Rocinha segue como a mais populosa do país, com 72.021 moradores, de onde eu parti como filho.
A cidade partida se tornou um padrão nacional. Ela também não se limita ao espaço urbano, já que a renda média domiciliar per capita do Distrito Federal, de R$ 4.401, é 3,6 vezes a do Maranhão, de R$ 1.231. São números que mostram que o Brasil está partido não só entre bairros, mas também entre estados e regiões.
O país de 1994 vivia um descontrole de preços que hoje parece ficção. Às vésperas do lançamento do real, em junho daquele ano, a inflação acumulada em 12 meses chegava a 4.922%. Veio o Plano Real e esse quadro mudou rapidamente, levando a inflação mensal a cair de 46,6% em junho de 1994 para 1,5% três meses depois.
Três décadas depois, o país é outro em vários aspectos: o salário mínimo é de R$ 1.621, o mercado de trabalho vive um momento raro, com uma taxa de desocupação em 5,4% no segundo trimestre. A desigualdade de renda recuou em relação aos anos 1990. O Gini domiciliar per capita calculado pelo IBGE (indicador estatístico que mede o grau de desigualdade na distribuição de renda) caiu de 0,543 em 2019 para 0,504 em 2024, o menor valor da série, e ficou em 0,511 em 2025, sendo esse último dado, porém, o que atesta que a fratura voltou a se alargar.
O Brasil mudou, mas a divisão permanece
De 2024 para 2025, a renda dos 10% mais ricos subiu 8,7%, enquanto a dos 10% mais pobres cresceu apenas 3,1%. O emprego recorde também esconde fragilidades: a informalidade atinge 37,4% dos ocupados, e a subutilização chega a 26,6% no Piauí, contra 4,1% em Santa Catarina. Mesmo com Gini acima de 0,50, o Brasil continua figurando entre os países mais desiguais do mundo, dentro da região mais desigual do planeta. A cidade partida mudou de forma, mas não deixou de existir.
Zuenir foi, por mais de seis décadas, um homem das grandes redações. Isso torna ainda mais notável o fato de ele nunca ter escrito do alto. Talvez porque conhecesse o outro lado por experiência própria. Nascido em Além Paraíba, no interior de Minas, foi pintor de parede, office-boy, arquivista e professor antes de se firmar no jornalismo. Ocupou espaço nobre na imprensa e na Academia Brasileira de Letras e usou esse lugar para visibilizar quem nunca tinha espaço no jornal, a não ser nas páginas policiais. Não foi à toa que eu e tantos periféricos espalhados por aí o lembramos como uma força importante na defesa dos direitos humanos.
Ler Cidade Partida em 2026 é constatar duas coisas. A primeira é que o país avançou: domou a inflação, reduziu a pobreza e chegou ao menor desemprego de sua história recente. A segunda é que a divisão que Zuenir mapeou em Vigário Geral continua estruturando o Brasil, visível na renda, no território e em quem vive onde. O maior legado dele talvez seja esse: mostrar que a desigualdade não é abstrata. Ela tem rosto, endereço e nome. Para enxergá-la, é preciso atravessar a cidade. E Zu fez isso como ninguém.


