Em 2025, as apostas online deixaram de ser apenas um passatempo e passaram a impactar diretamente a vida de milhões de jovens brasileiros. Um estudo da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes), em parceria com a consultoria Educa Insights, mostrou que 34% dos jovens entre 18 e 35 anos deixaram de ingressar no ensino superior por conta dos gastos com plataformas de apostas, como os populares “jogos do tigrinho”.

O que diz a pesquisa referente as apostas?
Realizada entre os dias 20 e 24 de março, a pesquisa ouviu 11.762 pessoas em todo o país e revelou dados preocupantes. O adiamento dos estudos superiores é ainda mais comum entre os jovens das regiões Nordeste (44%) e Sudeste (41%), e entre aqueles pertencentes às classes D e E, onde 43% afirmaram que só conseguirão iniciar a faculdade em 2026 se conseguirem parar de apostar.
A estimativa é que aproximadamente 986 mil brasileiros deixem de ingressar no ensino superior neste ano por causa das apostas, o que representa uma perda significativa para o setor educacional e para a formação profissional no país. O dado é ainda mais relevante ao considerar que, segundo o Ministério da Educação (MEC), o número total de ingressantes no ensino superior em 2023 foi de 3,6 milhões. Ou seja, as apostas impactam diretamente mais de 27% do potencial de novos universitários.
Outro recorte relevante do estudo é o comportamento financeiro desses jovens. Em 2025, 45,3% dos entrevistados afirmaram gastar mais de R$ 350 por mês com apostas, valor que corresponde a quase 40% do salário mínimo atual (R$ 1.412). Esse número representa um crescimento em relação a 2024, quando 30,8% declararam o mesmo padrão de gastos.
Leia também: BNDES já aprovou R$ 220 bilhões para modernizar a indústria
Além da dificuldade de ingresso, 14% dos jovens que já estavam matriculados em faculdades relataram atrasos em mensalidades ou trancamentos de curso causados pelo envolvimento com apostas. No Nordeste, esse percentual sobe para 17%, demonstrando que o impacto não se limita ao início da jornada educacional, mas também à permanência.
As apostas também têm reflexo em outras áreas da vida dos jovens. De acordo com o levantamento, 24% deixaram de investir em saúde e bem-estar, como academias ou atividades físicas, enquanto 28% reduziram os encontros com amigos e a frequência em bares e restaurantes para manter os gastos com as plataformas.
A Abmes chama a atenção para o protagonismo desses sites no ambiente digital: em 2025, as plataformas de apostas online se tornaram o segundo destino mais acessado da internet no Brasil, atrás apenas do Google e à frente de redes como YouTube e WhatsApp.
Diante da escalada dos impactos sociais, o Senado Federal instaurou a CPI das Bets, com o objetivo de investigar as consequências das apostas para a saúde mental da população, o orçamento das famílias e o papel dos influenciadores digitais nesse cenário.
A relatora da comissão, senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), chegou a solicitar o indiciamento de criadores de conteúdo que promovem apostas em massa. Apesar disso, o relatório final foi rejeitado.
“A gente observa que o vício em apostas não está restrito às classes mais vulneráveis. Jovens com acesso à informação e educação também estão sendo afetados. É um problema que está ganhando escala e complexidade”, declarou a senadora.
Paralelamente, tramita no Congresso o projeto de lei que propõe a legalização de cassinos, bingos e jogo do bicho. A proposta, no entanto, enfrenta resistência da bancada evangélica e não inclui as apostas online, que seguem sem regulamentação direta e vêm se consolidando como uma das maiores preocupações entre educadores, parlamentares e famílias brasileiras.
Para especialistas, o cenário exige medidas urgentes. “A popularização das apostas, aliada à falta de regulação e à hiperexposição nas redes sociais, cria um ambiente perigoso para o jovem. O impacto disso já é visível nos indicadores de acesso à educação e também na saúde mental”, afirma Sólon Caldas, diretor executivo da Abmes.
A discussão sobre o futuro das apostas online no Brasil segue em curso, mas o impacto real já está evidente: centenas de milhares de jovens estão postergando seus sonhos acadêmicos e comprometendo sua estabilidade financeira em troca de apostas de alto risco.


