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R$ 22 bilhões por mês: churrasco dá lugar ao “tigrinho”

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O que dizem as pesquisas sobre o direcionamento desses “bilhões”?

Esse número expõe uma mudança silenciosa, mas profunda, nos hábitos de consumo dos brasileiros. Tradicionalmente reservada para o churrasco do fim de semana, a combinação “picanha e litrão” está perdendo espaço no orçamento familiar. Dados da pesquisa conjunta entre Datafolha e Fundação Getulio Vargas com 2.600 domicílios mostram que 29% dos entrevistados admitiram realocar parte do dinheiro do lazer presencial para apostas digitais. Entre os que ganham até dois salários mínimos, 18% disseram ter reduzido o consumo de carne ou refeições fora para manter a “banca” ativa nas plataformas.

Os valores médios ajudam a dimensionar esse fenômeno. Entre os brasileiros com renda de até dois salários mínimos, 38% apostam todo mês, com um gasto médio de R$ 87. Isso representa 8,4% da renda mensal. Para quem ganha entre dois e cinco salários mínimos, o ticket médio é de R$ 118, e entre os que recebem mais de cinco salários, R$ 235 mensais. Esses dados são da pesquisa “Hábitos de Aposta 2025”, realizada pela Terra em parceria com a MindMiners.

Além do valor absoluto, o impacto das apostas pode ser visto em como o consumo de alimentos e bebidas vem mudando. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o IPCA das carnes subiu 6,7% em 12 meses, abaixo do índice geral de alimentos (7,3%). Ainda assim, o consumo per capita de carne bovina segue 18% abaixo dos níveis de 2014, refletindo não apenas a alta dos preços ao longo dos últimos anos, mas a redistribuição dos gastos familiares.

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A Abrasmercado, que monitora o consumo de produtos de largo alcance, registrou uma queda de 7% no volume de cervejas premium vendidas no primeiro semestre de 2025. No mesmo período, houve um aumento de 15% na venda de créditos pré-pagos para entretenimento digital, categoria que inclui as apostas. Essa coincidência de movimentos aponta para uma substituição no destino do dinheiro que antes era reservado ao lazer tradicional.

Segundo a PicPay Store, os horários com mais depósitos em casas de apostas são às sextas-feiras entre 15h e 20h, justamente o período típico de compras de mercado para o fim de semana. A relevância crescente das apostas também motivou o IBGE a incluí-las, pela primeira vez, na Pesquisa de Orçamentos Familiares 2024/25. Segundo nota técnica do instituto, os gastos com apostas online devem representar 4,1% da despesa com lazer das famílias que ganham até três salários mínimos, percentual próximo ao gasto com cerveja (5,8%) e carne para churrasco (6,3%).

A promessa de retorno financeiro fácil, aliada à gamificação das plataformas, faz com que as apostas online preencham um espaço emocional e simbólico importante: o do lazer acessível e da chance de melhora rápida de vida. Entretanto, os dados revelam um efeito colateral importante para a economia real.

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cada ponto percentual da renda familiar que migra para apostas representa um impacto negativo de R$ 5,2 bilhões ao ano para o varejo de alimentos e bebidas.

Embora a regulação do setor já tenha avançado com a aprovação da tributação de 15% sobre a receita líquida das operadoras, o Ministério da Saúde admite que o impacto da medida é limitado. Um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), realizado com usuários frequentes de plataformas, apontou que a implementação de alertas após perdas prolongadas reduziu o ticket médio em apenas 6% após 30 dias.

Com a proximidade do ano eleitoral, o discurso político tende a girar em torno de símbolos de fácil associação, como a picanha e a cerveja. Contudo, esses ícones do bem-estar popular estão perdendo espaço para um novo elemento do cotidiano: o “cassino de bolso”. E enquanto o foco segue nas alíquotas do IOF e no preço da carne, uma parcela considerável do dinheiro das famílias brasileiras está sendo realocada, silenciosamente, para apostas que acontecem a poucos cliques do celular.

Se em 2022 o poder de compra do churrasco foi protagonista na decisão de voto, em 2026 é possível que o peso do saldo no Pix e não no prato, seja o fator decisivo.

Sobre o autor Rafaella Ranulfo

Jornalista especializada em assessoria e gestão da comunicação. Pós-graduanda em psicologia positiva, felicidade e bem-estar. Além de suas contribuções online, é autora de dois livros e criadora de conteúdo

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