O cartão de crédito é um dos meios de pagamento mais utilizados no Brasil. Segundo levantamento do Banco Central, divulgado em maio de 2024, o país tinha 109,4 milhões de cartões de crédito ativos, número que representa praticamente metade da população. O relatório mostrou também que, apenas em 2023, os brasileiros gastaram R$ 2,4 trilhões em compras com cartão de crédito, alta de 12% em relação a 2022.
Apesar da popularidade, essa forma de pagamento exige cautela. O rotativo do cartão de crédito, usado quando o consumidor não paga o valor total da fatura, é o crédito mais caro do mercado. Em junho de 2024, a taxa de juros média do rotativo chegou a 423,5% ao ano, segundo dados do Banco Central.

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Nesse cenário, cresce a dúvida sobre alternativas para pagar dívidas de cartão. Uma delas é utilizar outro cartão para quitar a fatura, prática que pode gerar mais riscos do que soluções.
É possível pagar um cartão com outro?
Alguns bancos e carteiras digitais permitem que o cliente pague a fatura de um cartão de crédito utilizando outro cartão como forma de pagamento. Isso pode ocorrer por meio de aplicativos que oferecem o serviço como “adiantamento” ou “pagamento via crédito”.
Na prática, essa transação funciona como um saque ou empréstimo disfarçado. O valor pago no cartão original é transferido, mas passa a ser cobrado como uma nova dívida no cartão utilizado, geralmente com incidência imediata de encargos.
1. Juros podem ser ainda mais altos
Quando o consumidor paga a fatura de um usando outro, o valor normalmente não é tratado como uma compra comum. Em muitos casos, a operação é considerada um saque ou empréstimo pessoal. As taxas aplicadas nessas situações são mais elevadas do que as cobradas em compras normais.
De acordo com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), os juros de saque podem ultrapassar 15% ao mês. Considerando um valor de R$ 1.000, isso significa que, em apenas três meses sem pagamento, a dívida pode dobrar e superar R$ 2.000.
2. Risco de sobreendividamento
Um estudo do Instituto Locomotiva, em parceria com a MFM Tecnologia, apontou que 52 milhões de brasileiros estavam endividados com cartão de crédito em 2023. A pesquisa indicou que o atraso nas faturas é o principal fator de sobreendividamento das famílias.
Ao usar um cartão para pagar outro, o consumidor apenas transfere a dívida, sem reduzir o valor devido. Esse movimento pode criar um ciclo de endividamento, dificultando ainda mais o equilíbrio financeiro.
3. Impacto no limite e no poder de compra
Outra consequência é a redução do limite disponível. Quando o consumidor utiliza um cartão para pagar a fatura de outro, parte considerável do limite é comprometida imediatamente, reduzindo o espaço para compras do dia a dia.
Segundo levantamento da Serasa, divulgado em abril de 2024, 37% dos brasileiros que utilizam cartão de crédito afirmaram que frequentemente atingem o limite máximo antes do fim do mês. A prática de usar um cartão para pagar outro pode agravar esse quadro.
4. Cobrança de taxas adicionais
Além dos juros, algumas instituições financeiras cobram tarifas específicas para esse tipo de transação. As chamadas “taxas de adiantamento de fatura” podem variar de R$ 15 a R$ 25 por operação, conforme informado em tabelas de tarifas disponíveis nos sites dos principais bancos.
Esses custos adicionais, embora pareçam pequenos em um primeiro momento, podem aumentar significativamente o valor final da dívida.
5. Reflexos no score de crédito
A inadimplência é um dos principais fatores que reduzem a pontuação de crédito dos consumidores. De acordo com a Serasa Experian, mais de 71 milhões de brasileiros estavam com o nome negativado em julho de 2024, e o cartão de crédito é uma das dívidas mais recorrentes.
Ao utilizar um cartão para pagar outro, o risco de atraso e acúmulo de débitos aumenta. Isso pode comprometer o score de crédito, dificultando o acesso a financiamentos, empréstimos e até a novos cartões.
Alternativas mais seguras
Especialistas recomendam buscar soluções menos onerosas, como renegociação de dívidas diretamente com o banco emissor, portabilidade de crédito ou a contratação de linhas de crédito pessoal com juros menores do que os do rotativo.
O Banco Central criou em 2023 as regras do Desenrola Brasil, programa que renegociou dívidas de mais de 15 milhões de consumidores. A experiência mostrou que a negociação formal pode trazer condições mais favoráveis do que recorrer a alternativas de crédito mais caras.