O dólar à vista registrou queda expressiva nesta terça-feira, 23 de setembro, negociado a R$ 5,28 na venda, segundo dados da B3. A movimentação ocorreu após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmar que terá um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na próxima semana.
O mercado financeiro interpretou a notícia como sinal de possível aproximação diplomática entre os dois países, em meio a tensões comerciais recentes. O dólar chegou a cair 1,02% no dia, enquanto o contrato futuro da moeda para primeiro vencimento recuava 0,80%, cotado a R$ 5,30.
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Contexto diplomático e tensões recentes
O anúncio da reunião ocorre após um período de atrito entre Brasil e Estados Unidos. Na véspera, a Casa Branca anunciou sanções contra autoridades brasileiras ligadas ao Supremo Tribunal Federal (STF). Entre as medidas, foi aplicada a Lei Magnitsky à esposa do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, além de restrições ao Instituto Lex, vinculado à família do magistrado.
No discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU, Lula criticou ações unilaterais e defendeu a soberania brasileira. Para o presidente, não há justificativa para medidas que atinjam instituições nacionais e prejudiquem a economia.
O encontro bilateral, ainda sem data definida, deve tratar de temas sensíveis como o tarifaço de 50% sobre exportações brasileiras para os Estados Unidos, além de possíveis áreas de cooperação, como clima e comércio. Caso seja confirmado, será a primeira reunião formal entre Lula e Trump desde o retorno do republicano à Casa Branca, em janeiro deste ano.
Impactos no mercado de câmbio
O mercado financeiro reagiu rapidamente ao anúncio da reunião. A expectativa é que um diálogo mais aberto possa reduzir incertezas sobre barreiras comerciais e aproximar os países em pautas econômicas.
Além da questão política, fatores internos e externos também influenciaram a cotação da moeda. O Banco Central do Brasil divulgou a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que indicou manutenção da taxa Selic em 15% por um período prolongado. A decisão foi interpretada como um movimento de estabilidade, após sucessivos aumentos da taxa de juros nos últimos anos.
Segundo o economista Paulo Gala, do Banco Master, o BC deixou claro que pretende observar os efeitos da política monetária antes de novas mudanças. Esse posicionamento, aliado às expectativas de cortes de juros nos Estados Unidos pelo Federal Reserve, reforça o diferencial de juros a favor do Brasil, tornando o país mais atrativo para investidores estrangeiros.
Selic elevada e atratividade para investidores
Com a taxa Selic mantida em 15%, o Brasil continua oferecendo um dos retornos mais altos do mundo em renda fixa. O cenário gera entrada de capital estrangeiro, que pressiona a queda do dólar frente ao real. Para o mercado de câmbio, esse fator, somado ao possível arrefecimento das tensões diplomáticas, ajuda a explicar o movimento de queda observado nesta terça-feira.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ponderou em entrevista ao ICL Notícias que a taxa de juros no Brasil poderia ser mais baixa. Segundo ele, a Selic elevada encarece o crédito e atrapalha a retomada do crescimento econômico.
Ainda assim, o ministro destacou que o país não enfrenta dificuldades para colocar seus produtos em outros mercados, mesmo diante da tarifa de 50% implementada pelos Estados Unidos sobre exportações brasileiras.
Arrecadação federal e cenário fiscal
Outro ponto acompanhado pelo mercado é a situação fiscal do país. A Receita Federal informou que a arrecadação de tributos em agosto somou R$ 208,79 bilhões, o que representa queda real de 1,50% em relação ao mesmo mês de 2024, corrigido pela inflação. Foi a primeira retração do ano e gerou atenção quanto ao ritmo da economia brasileira.
Apesar do recuo, o acumulado de janeiro a agosto ainda aponta crescimento na arrecadação, em grande parte impulsionado pelo desempenho do setor de serviços e pela alta dos preços no período. Especialistas avaliam que a combinação de juros elevados, câmbio mais estável e perda de fôlego da arrecadação pode se tornar um desafio para a equipe econômica nos próximos meses.
Olhar do mercado e próximos passos
O anúncio da reunião entre Lula e Trump trouxe alívio imediato para os investidores, mas não elimina as incertezas sobre a relação bilateral. As negociações em torno das tarifas comerciais e das sanções aplicadas pelo governo norte-americano seguem no centro das atenções.
O resultado do encontro poderá influenciar diretamente o humor do mercado financeiro, além de refletir na cotação do dólar e no desempenho da Bolsa de Valores. Até que haja definições mais concretas, a expectativa é de que a moeda continue sensível a notícias políticas e econômicas tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.
*Entrevistas concedidas ao InfoMoney.


