O número de brasileiros com o nome negativado voltou a crescer, com cerca de 78,8 milhões de pessoas estão com dívidas em atraso, e 8,1 milhões de empresas também enfrentam o mesmo problema. Mesmo com mais gente trabalhando e a renda um pouco melhor, o endividamento continua alto e se espalha entre famílias e negócios.

Esse aumento tem relação com fatores que vêm se desde a pandemia, quando muitas famílias perderam renda e precisaram recorrer a empréstimos. Ao mesmo tempo, os juros subiram muito: a taxa básica, que era de 2% em 2020, chegou a 15% em 2025. Isso tornou o crédito mais caro e dificultou o pagamento das dívidas.
Dívidas maiores e mais caras
Os dados do Serasa mostram que o número de pessoas inadimplentes cresce mês a mês. Em janeiro, eram 74,6 milhões de brasileiros com o nome sujo; em agosto, já eram 78,8 milhões. Cada pessoa deve, em média, R$ 6,2 mil, e costuma ter cerca de quatro dívidas registradas.
A maioria das pendências está ligada a cartões de crédito, bancos e contas básicas, como luz e água. O uso frequente do crédito, especialmente o cartão, é um dos motivos para esse aumento. Parcelar compras e adiar pagamentos pode parecer uma solução no momento, mas acaba acumulando juros e tornando o débito cada vez maior.
Um levantamento do Banco Inter mostra que, tirando o financiamento da casa própria, as famílias comprometem cerca de 30% da renda com dívidas, e mais de um quarto do orçamento é usado apenas para pagar parcelas mensais.
A herança da pandemia e os juros altos
A crise provocada pela pandemia entre 2020 e 2022 deixou marcas duradouras. Muitas famílias perderam renda, usaram suas reservas e precisaram recorrer ao crédito. Quando a economia começou a se recuperar, veio uma nova dificuldade: os juros subiram e o custo de vida aumentou.
Hoje, mesmo com o desemprego menor e programas de renegociação encerrados, como o Desenrola, a inadimplência segue elevada. Muitas famílias ainda tentam reorganizar as contas, mas enfrentam dificuldades para quitar dívidas antigas.
O crédito fácil oferecido por bancos digitais também ajudou a ampliar o problema, além do acesso rápido a cartões e empréstimos, sem orientação financeira, que fez com que muita gente gastasse além do que podia. O uso constante do rotativo do cartão de crédito, que tem juros de mais de 450% ao ano, empurrou milhares de pessoas para uma situação de endividamento permanente.
Menos consumo e crescimento travado
As famílias são responsáveis por grande parte do consumo no país. Quando o orçamento fica apertado, o impacto é direto na economia. Com menos dinheiro disponível, as pessoas compram menos, e isso afeta o comércio, a indústria e os serviços.
Esse freio no consumo já começa a ser sentido em alguns setores e pode se intensificar no próximo ano. O mercado de trabalho, que vinha crescendo, pode desacelerar se as empresas reduzirem contratações ou investimentos devido aos juros altos.
Empresas também enfrentam aperto
As dívidas não se concentram apenas nas famílias. Mais de 8 milhões de empresas estão com o nome negativado, número recorde na série histórica. Há um ano, eram 6,9 milhões. O país tem hoje cerca de 24,5 milhões de negócios ativos, o que significa que um terço deles enfrenta dificuldades para manter as contas em dia.
O valor médio devido pelas empresas também aumentou, passando de R$ 21,6 milhões em 2024 para R$ 24,6 milhões em 2025. A maior parte dessas dívidas está relacionada a serviços e crédito bancário.
A combinação de juros altos, queda nas vendas e margens de lucro menores explica o aumento da inadimplência. Com o crédito mais difícil e caro, muitas companhias têm adiado investimentos e reduzido o ritmo de contratações.
As micro e pequenas empresas, que representam a maioria dos negócios no país, são as que mais sentem o peso desse cenário. Como costumam ter pouco caixa e menos acesso a empréstimos, ficam vulneráveis a qualquer variação na economia. Para atravessar o próximo ano, muitas terão de renegociar prazos, ajustar o fluxo de caixa e rever gastos.
O que pode mudar?
A reversão desse quadro depende, principalmente, da queda dos juros e da inflação, além de um controle maior sobre as contas públicas, que influencia o custo do crédito. Ainda assim, a melhora deve ser lenta, já que as dívidas acumuladas não desaparecem de uma hora para outra.
Enquanto isso, especialistas alertam para a importância da educação financeira e do planejamento doméstico. Avaliar o que é essencial, cortar despesas que não são urgentes, evitar o uso do cartão de crédito e, se possível, criar uma reserva de emergência são passos que ajudam a evitar novos endividamentos.


