IBOV 138.420 +0,82% USD/BRL 5,18 -0,34% EUR/BRL 5,62 +0,11% Bitcoin US$ 61.450 -0,38% Ethereum US$ 1.627 -0,67% Selic 9,75% estável IPCA 12m 3,84% -0,12pp Petróleo Brent US$ 82,40 +1,21%

Do constrangimento ao impacto no bolso: tratamento para halitose pode ultrapassar R$ 3 mil

Por

·

Estava assistindo a uns vídeos e me deparei com uma jovem muito engraçada, mas falando de um assunto muito sério. Em poucos minutos, a garota conta sua saga ao ir estudar na Inglaterra e, em um dos capítulos, aparece um encontro com um rapaz bonitão que tinha mau hálito, o que a impediu de beijá-lo. Eu ri, não da situação, mas da maneira como foi descrita a cena.

No fundo, o tema é muito delicado, tanto que fui buscar a opinião de duas especialistas. Estamos falando da halitose, conhecida popularmente como “bafo de onça”. A origem está no felino que, carnívoro, se lambuza ao degustar suas presas e tende a ficar com o “bafão” ou hálito fétido.

A halitose é uma condição que vai além de um simples odor desagradável: afeta a saúde, a autoestima e as relações sociais de milhões de pessoas em todo o mundo, pontuou a Dra. Rivany Silva Lima, odontóloga e estudiosa do assunto | Foto: Reprodução/Canva
A halitose é uma condição que vai além de um simples odor desagradável: afeta a saúde, a autoestima e as relações sociais de milhões de pessoas em todo o mundo, pontuou a Dra. Rivany Silva Lima, odontóloga e estudiosa do assunto | Foto: Reprodução/Canva

Do popular ao latim

Saber a origem da palavra já diz muito: halitose vem do latim halitu (ar expirado) e osi (alteração), significando, literalmente, “alteração do ar expirado”. É um odor desagradável que pode vir da boca, dos pulmões ou das narinas. Agora fiquei intrigada: mau cheiro vindo dos pulmões? Das narinas?

Sim, porque existem vários tipos de halitose, enumera a cirurgiã-dentista Rejane Fontes Silva: “A fisiológica, que é o mau hálito temporário e comum, como o que sentimos ao acordar de manhã. Geralmente é causada pela diminuição da salivação durante o sono, o que permite que as bactérias se proliferem e produzam gases”.

Tem a patológica, que é persistente e indica a presença de uma condição ou doença subjacente, como gastrite, úlcera estomacal e muitas outras.

Existe ainda a patológica oral, causada por cáries, doenças gengivais ou acúmulo de saburra na língua (uma camada com coloração branco-amarelada e aspecto viscoso, formada por células velhas, restos de comida e bactérias, resultado da má higiene bucal). Esse é o tipo mais comum de halitose: aproximadamente 90% dos casos têm essa origem.

Por último, mas não menos grave, tem a patológica extraoral, que é provocada por problemas respiratórios (sinusite, amigdalite), digestivos (refluxo, úlcera) ou doenças sistêmicas (diabetes, problemas no fígado).

Não se engane por um belo sorriso

Nem sempre aqueles dentes bonitos, com aparência de bem cuidados, significam boca saudável. O dono(a) desse encanto pode ter um distúrbio ou uma alteração na boca, decorrente de algum tipo de desequilíbrio no organismo.

Sabe aquele ditado que diz “quem vê cara não vê coração”? As aparências podem enganar — e muito. A má higiene bucal pode trazer consequências incalculáveis. Ela é responsável pelo acúmulo de bactérias na boca, especialmente na língua e entre os dentes, levando à produção de compostos sulfurados voláteis (CSVs), que são os gases com cheiro desagradável, explicam as especialistas.

Um exército capaz de vencer uma guerra só abrindo a boca

Dados do Ministério da Saúde indicam que pelo menos 30% dos brasileiros têm mau hálito. Isso significa 70 milhões de pessoas, que, na maioria das vezes, nem percebem. Os médicos explicam que se trata de fadiga olfativa (quando a pessoa se habitua ao mau cheiro). Ou seja, é necessário que alguém avise. Situação difícil, constrangedora — acredito que só um amigo ou um familiar é capaz de ter tal atitude.

A confirmação ou o diagnóstico deve ser feito por um profissional. O dentista, por exemplo, pode usar diferentes métodos, diz a Dra. Rivany: “O padrão-ouro é o mais simples: o hálito do paciente é avaliado diretamente, na chamada análise organoléptica”.

Um segundo passo é analisar a existência da placa bacteriana na língua, que é crucial para identificar uma das principais causas do problema. Se mesmo assim não vier a comprovação, o dentista pode lançar mão de aparelhos como o Oralchroma, que mede a concentração dos gases causadores do mau hálito.

Se a boca não for o fator preponderante, é preciso investigar. Embora a maioria das ocorrências esteja ligada a fatores externos (como higiene e dieta), estudos já identificaram que uma mutação genética rara pode, em alguns casos, provocar halitose crônica. No entanto, essa é uma causa muito incomum, alerta a Dra. Rejane.

Se o cirurgião-dentista, que é o profissional mais indicado para o diagnóstico, identificar que a motivação não é bucal, deve ser feito um encaminhamento para outro médico, como gastroenterologista, otorrinolaringologista ou endocrinologista, para que a causa sistêmica seja tratada.

Hábitos saudáveis são aliados do bom hálito

Não tenha preguiça: escove os dentes no mínimo duas vezes ao dia, use o fio dental diariamente e, o fundamental, limpe a língua com um raspador ou a própria escova.

Beba muita água — esse líquido sagrado estimula a produção de saliva, fazendo uma faxina na boca e neutralizando as bactérias. Dieta saudável à base de frutas e vegetais sempre: eles ajudam na higienização da cavidade bucal. E, por favor, evite ficar longos períodos sem comer.

Vença o medo da cadeira do consultório dentário: faça visitas periódicas ao profissional, que pode detectar e tratar os problemas bucais antes de o inimigo tomar conta da sua boca. É o dentista quem vai indicar o caminho a seguir com orientações simples que podem mudar os rumos da sua vida, como, por exemplo, a escovação correta, uso do fio dental, de enxaguantes bucais (ajudam a reduzir a carga de bactérias) e limpeza da língua. Parece repetitivo, mas tem de ser.

Se tiver cáries, doenças periodontais ou outras infecções, tem tratamento. Ninguém quer perder os dentes, abalar a saúde mental ou se isolar socialmente por causa de algo que tem cura. Certo?

Tudo tem um preço, mas antes é necessário vencer o tabu

O custo do tratamento varia de acordo com o diagnóstico e a gravidade do problema. Os valores podem ser diferentes para cada clínica ou profissional. Não existe um preço fixo ou uma tabela única para o tratamento completo, segundo o Conselho Federal de Odontologia.

O preço final depende de vários fatores, sendo o principal o diagnóstico e o plano de tratamento individualizado estabelecido pelo profissional, assegura Dra. Rivany Silva Lima. No tratamento básico/simples, quando a causa detectada é a saburra ou gengivite leve, podem ser necessárias de 2 a 4 consultas, incluindo diagnóstico, profilaxia, controle de biofilme e orientações, o que pode variar de R$ 500,00 a R$ 1.200,00 ou mais.

Quando se inicia um tratamento moderado/complexo sendo identificada a periodontite/múltiplas cáries e houver a necessidade de raspagens subgengivais, múltiplas restaurações e sessões de terapia de manutenção, o valor pode iniciar em R$ 1.500,00 e ultrapassar R$ 3.000,00, dependendo da extensão e do número de procedimentos restauradores ou protéticos.

A boa notícia é que o Sistema Único de Saúde (SUS) está de portas abertas — é só procurar a equipe de odontologia numa unidade de saúde.

Para aqueles que sentem vergonha em falar sobre o assunto ou expor suas dúvidas, a Associação Brasileira de Halitose criou o SOS Mau Hálito. A pessoa preenche um questionário e recebe ajuda, tudo no anonimato.

E fique esperto: não vá se automedicar ou produzir remédios caseiros que não levam a lugar algum. Essa barreira invisível pode te isolar do mundo, afetar sua autoestima e sua qualidade de vida.

Não permita. Não deixe de se relacionar, de namorar, de beijar. Isso sim é viver!

Sobre o autor Livia Calmon

Jornalista com passagens pelas redações da TV Globo — São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Minas Gerais e Bahia —, da TV Record SP, Band SP e revista IstoÉ Gente. Produtora de Conteúdo de Campanhas Políticas e estudiosa da área da saúde

Newsletter

As principais notícias de finanças no seu e-mail

Análises de mercado, economia e negócios. Sem spam, cancele quando quiser.

Publicidade
Publicidade