Bonito, no Mato Grosso do Sul, já provou para todo o país que sabe ofertar e preservar a paisagem. Os números da prefeitura mostram uma cidade de porte médio — PIB de R$ 194,3 milhões, PIB per capita de R$ 10.924,53, IDHM de 0,767 — que faz esses indicadores girarem em torno de um produto só: a natureza.
O Anuário Estatístico do Turismo confirma a régua, comprovando que o fluxo de turistas voltou a crescer com força em 2025, com o Sudeste (55,85%) e o Sul (25,96%) do país puxando a demanda, além de estrangeiros vindos do Paraguai, da Holanda e dos Estados Unidos. É ecoturismo consolidado, quase uma marca registrada.
Mas há quatro anos Bonito testa outra exportação, a cultura. O Festival Sul-Americano de Cinema Bonito CineSur chegou à quarta edição provando que dá para colocar uma cidade de 25 mil habitantes na rota de produtores, diretores e atores de todo o continente (e faz isso, cabe o registro), com programação inteiramente gratuita e voltada também ao público infantil.

À frente do projeto e junto de uma grande equipe, Nilson Rodrigues não esconde a ambição geopolítica da ideia:
“A tese era fazer, nesta cidade, num estado que faz fronteira com dois países, com o Paraguai e com a Bolívia, uma referência, um espaço, um ambiente de encontro das cinematografias da América do Sul”, resume.
E, esperançoso, cobra convergência regional: “Somos países irmãos, vizinhos que se conhecem pouco. Não temos contato com as culturas, com a produção cinematográfica, com a produção teatral, com a produção musical.” Para 2027, CineSur tem como meta trazer autoridades para mobilizar e engajar programas de coprodução e distribuição.
O evento também conversa com a vocação ambiental da cidade. Não por acaso, o festival mantém uma mostra dedicada ao tema.
“Não poderíamos fazer um festival de cinema em Bonito sem fazer com que o cinema viesse também a discutir as questões específicas que dizem respeito à preservação do planeta”, complementa o produtor, que segundo ele, avalia que cada país participante traz a sua urgência ambiental para a “telona”.
Bonito amplia sua vocação turística com o cinema
O movimento coloca Bonito ao lado de um fenômeno que já rendeu bons frutos em outras cidades pequenas: o CineOP, em Ouro Preto, e a Mostra de Tiradentes, ambas em Minas Gerais, além do Fica, em Goiás Velho, este último, aliás, primo direto do CineSur na aposta em cinema e meio ambiente.

São festivais que provaram que curadoria e identidade valem mais do que estrutura de metrópole, e que transformam cidades históricas e turísticas em praças de debate cultural fora do eixo Rio–São Paulo. Isso é resultado de quando sociedade, poder público e setor privado enxergam nas artes, possibilidades. Esse já é um Oscar de Bonito.
A diferença é que Bonito ainda faz — por enquanto — esse cinema sem ter, ela mesma, uma sala de cinema. É a lacuna que a cidade e o festival já assumem como cenas dos próximos capítulos.
Que Bonito, que já exporta paisagem, siga exportando cultura e vontade — e que a quinta edição, Oxalá permita, já seja celebrada com um cinema para chamar de seu.


