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Programa de alfabetização brasileiro ganha prêmio em Cannes

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O programa de alfabetização “Escola Nota 10”, voltado à alfabetização de trabalhadores da construção civil, recebeu o Leão de Bronze na categoria Corporate Purpose – Social Responsibility (Propósito Corporativo – Responsabilidade Social) no festival Cannes Lions 2025, realizado anualmente na França.

A premiação reconhece ações com impacto social e ocorre em um momento em que o Brasil ainda registra 9 milhões de pessoas analfabetas com 15 anos ou mais, segundo a pesquisa PNAD Contínua Educação 2024.

Em 2024, o Brasil tinha aproximadamente 9,1 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que não sabem ler ou escrever, o que corresponde a uma taxa de analfabetismo de 5,3%. Apesar de ser a menor taxa da série histórica, iniciada em 2016, o número de pessoas analfabetas ainda é bastante significativo, de acordo com o IBGE.

Criado em 2011 pela construtora MRV, o programa de alfabetização Escola Nota 10 oferece aulas de português e matemática para adultos diretamente nos canteiros de obras, durante o horário normal de expediente. Os cursos são organizados em ciclos de dois meses, permitindo que os trabalhadores aprendam sem sair do ambiente profissional e conciliem o trabalho com o acesso à educação básica.

Iniciativa Escola Nota 10 oferece aulas no canteiro de obras e já tem 155 inscritos no Encceja | Foto: Reprodução / Canva

O programa de alfabetização já formou mais de 5 mil alunos em 20 estados brasileiros e no Distrito Federal. Hoje, existem 34 escolas ativas em funcionamento. A meta da MRV é chegar a 47 unidades até o final de 2025. A proposta da empresa é oferecer o primeiro passo no processo de educação formal para pessoas que, por diversos motivos, não tiveram acesso à escola na infância ou precisaram abandonar os estudos precocemente.

Aulas adaptadas à rotina dos trabalhadores

As aulas ocorrem durante o expediente, o que evita que os alunos precisem abrir mão do trabalho ou enfrentar deslocamentos extras para continuar estudando. Com foco na alfabetização de adultos, o conteúdo é adaptado à rotina dos trabalhadores, utilizando situações do cotidiano e da própria atividade profissional para facilitar o aprendizado.

Além disso, os professores recebem formação específica para lidar com turmas de diferentes faixas etárias e níveis de escolarização.

O programa de alfabetização foi pensado para atender a um público que, em muitos casos, não frequenta a escola há décadas. Por isso, o material didático e a abordagem pedagógica levam em conta o tempo fora da sala de aula, o nível de alfabetização inicial e o ritmo de aprendizagem de cada aluno. O ambiente das aulas é montado no próprio canteiro de obras, o que facilita a participação e estimula a permanência dos alunos até o fim dos ciclos.

Além do ensino básico, o Escola Nota 10 também busca incentivar os trabalhadores a retomarem sua trajetória educacional de forma mais ampla. Uma das estratégias é a participação no Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja). Em 2025, 155 estudantes do programa estão inscritos para fazer a prova.

O Encceja é uma avaliação gratuita, realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão do Ministério da Educação. Ele é voltado a jovens e adultos que não concluíram o ensino fundamental ou médio na idade adequada.

As provas são aplicadas em um único dia, com questões de múltipla escolha e uma redação. Os resultados podem ser usados para obter a certificação do ensino, o que permite aos participantes seguir com os estudos ou abrir novas portas no mercado de trabalho.

A participação no exame é voluntária, mas a MRV oferece suporte para que os trabalhadores tenham acesso ao conteúdo necessário e possam se preparar adequadamente. Isso inclui materiais, orientação pedagógica e, em alguns casos, apoio para a inscrição e deslocamento até os locais de prova.

Programa de alfabetização usa educação como ferramenta de transformação

A proposta do Escola Nota 10 surgiu como uma forma de ampliar o acesso à educação entre trabalhadores da construção civil, um setor que historicamente concentra altos índices de analfabetismo funcional. O objetivo é melhorar os índices educacionais e contribuir para a valorização do trabalhador e o fortalecimento de sua cidadania.

O reconhecimento no Cannes Lions reforça o impacto positivo da iniciativa e destaca a importância da responsabilidade social empresarial. Além dos benefícios diretos aos alunos, o programa também tem reflexos nas equipes de trabalho, no ambiente dos canteiros e na produtividade, ao fortalecer a autoestima e o senso de pertencimento dos participantes.

A premiação internacional aumenta a visibilidade do projeto e mostra que soluções simples e práticas podem fazer diferença em um dos maiores desafios do país: o combate ao analfabetismo.

Sobre o autor Saara Paiva

Jornalista, exploradora de eventos culturais e entusiasta da prática de esportes. Escreve sobre finanças sem palavras difíceis e com temas relevantes para quem vive a realidade brasileira.

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