A relação dos brasileiros com o fast fashion está mudando — ainda que de forma lenta. Uma pesquisa realizada pela YouGov Profiles com mais de 70 mil brasileiros revelou um dado curioso: embora mais da metade dos entrevistados reconheçam que esse modelo de produção é ambientalmente prejudicial, poucos estão realmente dispostos a abrir mão da praticidade e dos preços baixos que ele oferece.

O fast fashion, popularizado a partir dos anos 1990, consiste na produção acelerada e em massa de roupas para acompanhar as tendências da moda. Com foco no volume, custo reduzido e velocidade, o modelo tornou-se um dos pilares da indústria têxtil moderna. Mas a conta ambiental chegou. E está cara.
Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a indústria da moda é responsável por cerca de 10% das emissões globais de carbono — mais do que os setores de transporte aéreo e marítimo juntos.
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Além das emissões, o uso predominante do poliéster, um tecido sintético derivado do petróleo, agrava ainda mais o cenário. De acordo com o Greenpeace, esse material pode levar até 200 anos para se decompor, gerando impactos desde a fabricação até o descarte.
Os brasileiros se mostram conscientes, mas contraditórios
Diante desses dados, o estudo da YouGov mostra que 51% dos entrevistados brasileiros acreditam que as marcas de fast fashion ignoram os impactos ambientais das suas práticas. Contudo, apenas 26% afirmam comprar exclusivamente de marcas sustentáveis.
A contradição entre discurso e prática se repete em outros números: 37% dos brasileiros se dizem neutros em relação à responsabilidade ambiental das marcas; 33% não concordam com a ideia de priorizar empresas sustentáveis; e 40% sequer se posicionam.
Na prática, isso revela que a sustentabilidade ainda não é o fator decisivo de compra para a maioria da população, mesmo com a crescente preocupação com o meio ambiente.
O papel da influência
Um ponto que chama atenção na pesquisa é o papel das figuras públicas na formação da opinião do consumidor. Para 42% dos brasileiros, influenciadores e personalidades da moda são peças-chave para disseminar valores ligados à produção responsável.
“Um público mais consciente, mais seletivo e cada vez mais informado pode migrar para alternativas mais alinhadas aos seus valores, e é aí que está a oportunidade para as marcas se diferenciarem com propostas verdadeiramente sustentáveis e transparentes”, afirma David Eastman, diretor-geral da YouGov na América Latina.
Ou seja, além de políticas públicas e ações institucionais, o conteúdo nas redes sociais também pode fazer diferença quando o assunto é consumo consciente.
Oportunidade para o mercado sustentável
Mesmo diante da resistência à mudança de comportamento, os dados trazem boas notícias para quem aposta na moda sustentável. A crescente percepção do impacto ambiental do fast fashion mostra que existe, sim, uma abertura para marcas que apostam em processos mais limpos, materiais recicláveis e produção ética.
Para se destacar nesse cenário, no entanto, é preciso ir além da publicidade. O consumidor está mais atento e espera transparência em toda a cadeia: desde a origem dos materiais até as condições de trabalho nas fábricas.
As marcas que forem além do marketing e implementarem práticas sustentáveis reais têm uma chance valiosa de conquistar esse público em transição — ainda que ele caminhe em ritmo moderado.
O fast fashion no Brasil ainda reina em termos de consumo, mas a consciência ambiental cresce e pressiona a indústria a mudar. A pesquisa da YouGov mostra que o desejo por práticas mais responsáveis já está presente no discurso de boa parte dos brasileiros. Falta transformar essa percepção em ação — algo que depende de educação, acesso a alternativas viáveis e, claro, de uma mudança cultural que envolva marcas, governos e consumidores.
Em um país que já enfrenta diversos desafios ambientais e sociais, consumir de forma mais consciente não é apenas uma tendência: é uma necessidade urgente.


