A economia prateada, termo que designa a atividade econômica gerada pelas pessoas com 50 anos ou mais, está em forte expansão no Brasil. Segundo a pesquisa “Mercado Prateado: consumo dos brasileiros 50+ e projeções”, realizada pelo Data8, o consumo dessa população chegou a R$ 1,8 trilhão em 2024. A expectativa é que esse número mais que dobre até 2044, alcançando R$ 3,8 trilhões — o equivalente a aproximadamente US$ 728 bilhões na cotação atual (1 dólar = R$ 5,20).

Esse crescimento fará com que os brasileiros maduros representem 35% do consumo total do país, contra os atuais 24%. Hoje, cerca de 27% da população brasileira já está acima dos 50 anos, e a projeção é que esse percentual aumente para 40% nas próximas duas décadas.
Apesar do avanço, a desigualdade de gênero ainda marca profundamente esse segmento. As mulheres 50+ consomem, em média, R$ 3 mil a menos por ano do que os homens da mesma faixa etária, o que corresponde a cerca de US$ 577 anuais. O consumo mensal per capita dos homens prateados é de R$ 4.383 (aproximadamente US$ 843), enquanto o das mulheres é de R$ 4.124 (US$ 793).
A força da economia prateada no mundo e no Brasil
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), existem atualmente cerca de 2 bilhões de pessoas com mais de 50 anos no mundo. Este segmento movimenta globalmente cerca de US$ 22 trilhões, o equivalente a mais de R$ 114 trilhões, e deve crescer ainda mais com o envelhecimento acelerado da população mundial.
A América Latina é hoje a região que envelhece mais rapidamente. Entre 1950 e 2020, a taxa de fecundidade na região caiu de 6 para 2 filhos por mulher, enquanto a expectativa de vida subiu 25 anos. Estima-se que, até 2050, três em cada dez latino-americanos terão mais de 60 anos. O Brasil desempenha papel de destaque nesse cenário, com um dos maiores contingentes de população madura da região.
Invisibilidade e desafios no consumo
Apesar de serem maioria e movimentarem cifras expressivas, os brasileiros prateados sentem-se invisíveis. O estudo do Data8 revela que 76% das pessoas acima de 50 anos são responsáveis pela principal fonte de renda familiar. Mesmo assim, 54% delas não se sentem representadas pela mídia e pelas marcas.
Além disso, quatro em cada dez brasileiros maduros afirmam não encontrar produtos e serviços adequados às suas necessidades. Enquanto o consumo dos mais jovens inclui categorias como vestuário, educação e cuidados pessoais, o dos prateados está concentrado em setores básicos: moradia, alimentação, transporte e saúde.
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Essa diferença também aparece entre os sexos. Os homens investem 17% de seu consumo mensal em transporte, enquanto as mulheres destinam apenas 14%. Por outro lado, elas gastam 15% com saúde, contra 14% dos homens. A priorização dos gastos reflete o perfil de vida dessa população.
“O Brasil prateado é feminino. As mulheres vivem, em média, sete anos a mais do que os homens, e isso impacta diretamente seus hábitos de consumo. Elas priorizam o autocuidado e mantêm um papel central no cuidado da família, mesmo quando não estão no centro das campanhas de marketing”, destaca Cléa Klouri, cofundadora do Data8 e uma das coordenadoras da pesquisa, em entrevista ao Meio&Mensagem.
Consumo desigual entre classes sociais
As disparidades no consumo prateado também se manifestam entre as classes sociais. Para os prateados da classe A, o maior gasto mensal está no setor de transportes, que inclui a compra e manutenção de veículos, transporte urbano e viagens ocasionais. Já nas classes mais baixas, como a D, a prioridade está nas necessidades mais básicas, com a habitação ocupando a maior parte do orçamento mensal.
Outro dado importante apontado pela pesquisa é que, embora um consumidor de 80 anos ou mais gaste valores mensais similares aos de quem está entre 50 e 54 anos, as categorias de consumo são bem diferentes. O idoso mais velho direciona quase o dobro de seus gastos para serviços de saúde.
Setores mais aquecidos com o envelhecimento
O Data8 prevê que, com o envelhecimento da população, setores como saúde e habitação ganharão ainda mais importância, enquanto o consumo de produtos e serviços ligados à educação deverá diminuir.
Essa análise integra uma série de estudos chamada “Brasil Prateado”, que trará ao longo deste ano oito insights sobre o mercado prateado brasileiro, em comemoração aos oito anos do Data8 — um dos principais hubs de inteligência sobre o tema na América Latina.
A pesquisa reforça a necessidade de o mercado olhar com mais atenção para essa população madura, especialmente para as mulheres, que desempenham papel central nas decisões de consumo, mas ainda permanecem à margem das campanhas e dos produtos oferecidos.
O futuro é prateado — e feminino
O crescimento da economia prateada no Brasil é inegável e representa uma oportunidade econômica estratégica. No entanto, o desafio agora é incluir, representar e respeitar as especificidades de gênero e classe social dentro desse segmento. Afinal, são essas mulheres e homens acima dos 50 anos que, silenciosamente, sustentam grande parte da economia brasileira e moldarão os rumos do mercado nas próximas décadas.


