No dia 22 de julho, celebramos o Dia Internacional do Trabalhador Doméstico, uma data que nos convida a refletir sobre a importância de milhões de pessoas que sustentam o funcionamento da sociedade. A verdade é simples, mas poderosa: sem o trabalho doméstico, nenhuma economia funciona plenamente.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), existem cerca de 75,6 milhões de trabalhadores domésticos no mundo. A esmagadora maioria são mulheres (mais de 80%) — e, em muitos países da América Latina, a maioria também é negra. No Brasil, são aproximadamente 5,8 milhões de trabalhadores domésticos, sendo 92% mulheres e 65% negras, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

27 de abril e 22 de julho: duas datas, uma causa
Estudos recentes do Banco Mundial revelam que o trabalho doméstico não remunerado representaria entre 10% e 39% do PIB, dependendo do país — se fosse contabilizado oficialmente. Em outras palavras, há uma economia oculta na qual milhões de horas são trabalhadas sem salário, segurança ou reconhecimento.
A distância entre essas duas datas nos lembra de algo fundamental: a valorização do trabalho doméstico deve ser um compromisso diário — social, político e econômico. O dia 27 de abril, Dia Nacional da Empregada Doméstica, é uma homenagem às mulheres que exercem essa função e que são maioria na profissão. É também um lembrete de que a luta de gênero é importante na sociedade.
A valorização do trabalho doméstico começa com reconhecimento, mas precisa ir além: igualdade de direitos, salários justos e políticas públicas que fortaleçam a proteção dessa categoria. Em tempos de transformação social, é urgente fazer ecoar esta verdade: não existe justiça econômica sem justiça doméstica.
De acordo com o portal do Governo Federal, a Lei Complementar 150, de 2015, garante aos trabalhadores domésticos no Brasil direitos como FGTS e seguro-desemprego. Trata-se de um avanço significativo, mas ainda há grandes desafios, tanto na valorização quanto na fiscalização de práticas abusivas — como os casos de trabalho análogo à escravidão, que atingem principalmente mulheres negras, privando-as do acesso a bens, serviços e participação plena na economia.
A história do trabalho doméstico no Brasil é também a história da resistência das mulheres negras. Desde o período pós-abolição, quando essa atividade se tornou o destino de grande parte delas — excluídas de outros setores —, essas mulheres nunca deixaram de lutar por dignidade e reconhecimento.
Impacto econômico que não aparece no PIB
Mais da metade das empregadas domésticas ainda está na informalidade. Mas histórias como a de Benedita da Silva — ex-empregada doméstica, primeira mulher negra eleita senadora no Brasil e, depois, governadora do Rio de Janeiro — demonstram que é possível mudar esse cenário. Outras mulheres também têm se posicionado para transformar essa realidade.
Creuza Oliveira é uma das fundadoras da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (FENATRAD) e uma das principais lideranças na conquista da Lei Complementar 150/2015, que garantiu direitos como FGTS, férias e jornada de trabalho regulamentada. Estamos diante de uma mudança atual, de impacto transformador. Toda vez que nos movimentamos, isso se reflete positivamente na economia do país.
O trabalho doméstico — muitas vezes invisível — é a base de toda prosperidade social. Quando reconhecemos a dignidade de quem limpa, cuida, alimenta e organiza o cotidiano das famílias, estamos, na verdade, moldando um país mais justo.
Que a celebração do Dia Internacional do Trabalhador Doméstico nos inspire a sair do discurso e entrar na prática: apoiar leis, combater a informalidade, garantir respeito e valorizar, de verdade, quem há séculos sustenta o Brasil com trabalho, coragem e resistência.
Celebrar essa data é também celebrar uma coragem coletiva — que tem voz, rosto e representa, de maneira ativa, o futuro social e econômico do Brasil.


