Na noite de terça-feira, 11 de novembro, protestos na COP30 marcaram o segundo dia da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que acontece em Belém (PA). Um grupo de ativistas entrou na chamada zona azul, área diplomática do evento, onde ocorrem as negociações oficiais entre representantes de diversos países.
Durante o ato, manifestantes entoaram palavras de ordem como “taxar os bilionários” e “é culpa deles que está quente”, relacionando a crise climática às grandes fortunas e empresas. Também houve críticas à exploração de petróleo na bacia Foz do Amazonas, com cânticos direcionados ao governo brasileiro.

Como o protesto começou?
O episódio teve início após o encerramento da Marcha Global de Saúde e Clima, manifestação pacífica que reuniu profissionais de saúde, organizações sociais e povos indígenas. O ato, que havia sido previamente comunicado às autoridades, buscava destacar os impactos da crise climática na saúde pública.
De acordo com relatos, um grupo se separou da marcha principal e seguiu em direção ao Parque da Cidade, onde está instalado o centro da COP30. A avenida de acesso, a Duque de Caxias, já estava parcialmente bloqueada pela Polícia Militar devido à segurança do evento. Mesmo assim, parte dos manifestantes, entre eles indígenas do Baixo Tapajós e jovens de movimentos sociais, conseguiu ultrapassar as barreiras e entrar no parque, entoando cânticos e realizando breves rituais tradicionais.
Ao se aproximarem da entrada da zona azul, os manifestantes encontraram cordões humanos formados por seguranças da UNFCCC, o órgão da ONU responsável pela organização da conferência. Eles tentaram passar pela área de credenciamento e houve momentos de empurra-empurra e correria. A segurança da ONU fechou as portas principais e criou barreiras humanas para retirar as pessoas da área. Após cerca de 15 minutos de tensão, o grupo foi retirado e a área foi isolada para inspeção. Segundo informações oficiais, quatro seguranças ficaram feridos e não houve registro de detidos.
Investigações e medidas adotadas
Um inquérito foi aberto pela Polícia Federal, a pedido da ONU, para apurar o caso. Imagens das câmeras de segurança internas e externas da zona azul foram requisitadas e estão sendo analisadas. O presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, não estava presente no momento do incidente. Após o ocorrido, autoridades federais e representantes da ONU se reuniram para avaliar o episódio e reforçar os protocolos de segurança.
As organizações responsáveis pela Marcha Global de Saúde e Clima divulgaram nota informando que não tiveram relação com a invasão, e que o ato principal foi pacífico e previamente comunicado às autoridades.
O que é a COP30?
A COP30 (Conferência das Partes) é um dos principais encontros internacionais sobre mudanças climáticas, promovido pela ONU. Reúne líderes de mais de 190 países, cientistas e representantes da sociedade civil para discutir medidas de combate ao aquecimento global.
O evento é dividido em duas áreas principais:
- Zona Azul: controlada pela ONU, é onde ocorrem as negociações oficiais e a presença é restrita a delegações credenciadas;
- Zona Verde: aberta ao público, com espaços para organizações sociais, universidades e exposições.
Dentro da zona azul, manifestações precisam de autorização prévia, o que explica a ação imediata da segurança quando o grupo entrou sem permissão.
Democracia e liberdade de protesto
Este é o primeiro ano, em três edições consecutivas, que a COP acontece em um país com liberdade plena de manifestação. As últimas conferências foram realizadas em países com restrições severas a protestos, como Egito, Emirados Árabes Unidos e Azerbaijão.
Por isso, integrantes do governo brasileiro e ambientalistas celebraram o fato de o Brasil sediar um evento onde a sociedade civil pode participar e se expressar livremente. Ainda assim, o episódio levantou debates sobre os limites entre segurança e liberdade de expressão dentro de áreas controladas pela ONU.
O governo federal decretou uma GLO (Garantia da Lei e da Ordem) para reforçar a segurança no entorno da conferência, com apoio das Forças Armadas. Um blindado militar chegou a ser posicionado próximo às barricadas, mas não houve prisões.
Protestos refletem tensões sobre o papel do Brasil
Os protestos na COP30 destacam as tensões entre o discurso ambiental do governo Lula e as críticas à exploração de petróleo na Amazônia. O Brasil tem buscado se apresentar como líder climático global, mas enfrenta resistência de grupos que veem contradição entre a defesa do meio ambiente e a expansão da indústria de combustíveis fósseis.
Para muitos manifestantes, o pedido para “taxar os bilionários” resume o sentimento de que os custos da crise climática não devem recair sobre as populações pobres, mas sim sobre os grandes responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa.