Há uma frase que circula há anos no universo corporativo, que diz mais ou menos assim: “trabalhe enquanto eles dormem”. Por trás dela, existe um culto à produtividade que aplaude jornadas intermináveis, glorifica noites mal dormidas e transforma o descanso em sinônimo de fraqueza. Mas até onde isso nos leva?
Se olharmos de perto, o preço desse modelo é alto. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já classificou o burnout como uma síndrome ocupacional grave. Pesquisas recentes da consultoria Deloitte apontam que 77% dos profissionais já experimentaram burnout em algum momento da carreira. Ou seja: não estamos falando de exceção, estamos falando da regra.

Essa lógica pesa ainda mais sobre as mulheres. Além da pressão profissional, enfrentamos uma jornada tripla: trabalho, casa e cuidados — um peso culturalmente naturalizado. Segundo dados da Fundação Seade, em São Paulo, as mulheres dedicam em média 21 horas semanais a mais do que os homens em tarefas domésticas e cuidados com familiares. Isso significa menos tempo para descanso, estudo e lazer. É como se a conta nunca fechasse — e, no fundo, quem paga somos nós, com a própria saúde.
A Sociedade 5.0, o conceito surgido no Japão, no qual a tecnologia tem como foco trazer benefícios diretos à sociedade, melhorando a qualidade de vida das pessoas, propõe a tecnologia a serviço da vida. E, no entanto, seguimos insistindo em uma lógica em que pessoas são tratadas como máquinas. O descanso vira “tempo perdido”, ansiedade, frustração, quando deveria ser entendido como investimento em longevidade, foco e cooperação.
Como mulher e comunicadora, já vivi essa cobrança — externa e interna. O tal “sempre posso fazer mais” parecia inevitável. Mas aprendi que o verdadeiro salto está em questionar essa narrativa. Descanso não é luxo: é condição para sustentar qualquer transformação real.
De que adianta grandes potências falarem de inovação, ESG ou impacto social se continuam normalizando jornadas exaustivas e ignorando a saúde mental de seus times? Impacto não se mede apenas em resultados financeiros, mas também na forma como cuidamos de quem está construindo esse futuro.
Talvez o movimento mais revolucionário do nosso tempo seja reabilitar o descanso como ferramenta estratégica. Respeitar os limites humanos como parte do progresso. Trocar a lógica de “trabalhar enquanto eles dormem” por uma nova: reabilitar o descanso como a fundação para a inovação real.
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