O reconhecimento do trabalho doméstico, especialmente aquele realizado por mulheres e mães, emerge como uma questão central para a compreensão e a reestruturação de nossas economias. Por um longo período negligenciado pelas métricas tradicionais, esse trabalho — que abrange desde os cuidados com a casa, da pia à mesa, passando pelo cuidado de todos os ambientes, até o pilar de sustentação emocional da família como um todo — constitui um eixo primordial para o bem-estar social e a produtividade econômica.

A análise do trabalho doméstico revela conexões urgentes que unem questões raciais e sociais — e disso, os números não mentem. Dados históricos e contemporâneos demonstram que mulheres negras e de baixa renda são desproporcionalmente responsáveis por essa esfera de atividades, frequentemente acumulando-a com trabalhos remunerados precários.
De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), em 2020, mulheres dedicavam, em média, 21,4 horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidados, enquanto homens dedicavam apenas 11 horas. A diferença que se percebe é ainda maior quando observada a distribuição racial e de classe, com mulheres negras gastando significativamente mais tempo nessas atividades. Aqui temos um fato: a sobrecarga de trabalho impacta nas suas oportunidades de educação, emprego e ascensão social, perpetuando ciclos de desigualdade. Ou, em resumo: não fazem porque não o querem, e sim porque não têm tempo.
A internalização do trabalho doméstico como uma questão de política pública é fundamental para promover a equidade de gênero e o desenvolvimento social. É chamar para si a responsabilidade e apontar caminhos para que se implementem ações que vão desde a elaboração de políticas de licença parental equitativas à expansão de serviços públicos de cuidado infantil e de idosos, até a criação de mecanismos de reconhecimento e valorização econômica desse trabalho.
Experiências internacionais demonstram que políticas de apoio ao cuidado, como a ampliação dos horários de funcionamento de creches e a implementação de sistemas de cuidado de longa duração, demonstram impactos positivos na participação feminina no mercado de trabalho e na redução das desigualdades.
Incorporar esse trabalho — que, para muitos, é jogado para escanteio nas agendas de políticas públicas — não é apenas uma questão de justiça social, mas uma necessidade econômica.
Reconhecer, mensurar e valorizar essas atividades essenciais pode levar a uma compreensão mais completa da dinâmica econômica, à implementação de políticas mais eficazes para a promoção da igualdade e ao desenvolvimento de um sistema de bem-estar social mais robusto e inclusivo. A invisibilidade histórica desse trabalho precisa ser superada para que se possa construir uma sociedade mais justa e equitativa para todos.
Não é mesmo, mãe?


