Pela primeira vez desde o início da série histórica do IBGE, em 1991, o estado de São Paulo teve uma perda migratória, com mais pessoas saindo do que chegando de outras regiões do Brasil. Os dados fazem parte do Censo Demográfico 2022, divulgado na última sexta-feira, 27 de junho, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Entre os anos de 2017 e 2022, São Paulo registrou 825.958 saídas e 736.380 entradas, o que resultou em um saldo migratório negativo de 89.578 pessoas. Ou seja, o número de pessoas que foram embora do estado superou o número de quem chegou de outros estados, algo inédito desde o início da contagem.

Apesar de ainda ser o estado que mais recebe pessoas, o volume de saídas tem aumentado nos últimos anos, o que pode estar relacionado a fatores como custo de vida elevado, trânsito, violência e a busca por mais qualidade de vida em outras regiões do país.
Santa Catarina e Nordeste ganham mais moradores
Enquanto São Paulo teve mais saídas que entradas, outros estados apresentaram crescimento por migração interna. O principal destaque é Santa Catarina, que registrou 503.580 entradas e 149.230 saídas, com saldo positivo de 354 mil pessoas. Esse número representa um aumento de 4,66% na população do estado apenas por causa da migração.
Santa Catarina vem atraindo moradores por oferecer boa qualidade de vida, cidades organizadas e oportunidades de trabalho em polos industriais e tecnológicos. Além disso, o custo de vida pode ser mais acessível em comparação a capitais como São Paulo ou Rio de Janeiro.
Outro destaque foi a Paraíba, no Nordeste, que teve 119.695 entradas e 88.743 saídas, com saldo positivo de 31 mil pessoas — um crescimento de 0,78%. Os dados indicam que boa parte das pessoas que se mudaram para a Paraíba vieram de São Paulo (22,3%) e Rio de Janeiro (20%), além de Pernambuco (20,4%).
Esses fluxos sugerem um possível movimento de retorno às origens, especialmente por parte de famílias nordestinas que haviam migrado para o Sudeste décadas atrás e agora estão voltando, atraídas por condições de vida mais tranquilas, proximidade com parentes e até possibilidade de trabalho remoto.
Outros estados com perda migratória
Além de São Paulo, outros quatro estados apresentaram perda de população por migração entre 2017 e 2022:
- Rio de Janeiro: saldo negativo de 165.360 pessoas (a maior perda do país)
- Maranhão: menos 129.228 pessoas
- Distrito Federal: menos 99.593 pessoas
- Pará: menos 94.097 pessoas
O Rio de Janeiro, que também teve seu primeiro saldo migratório negativo desde 1991, teve como principais destinos dos migrantes os estados vizinhos: São Paulo (21,4%), Minas Gerais (17,7%) e Espírito Santo (7,3%).
No caso do Distrito Federal, quase metade dos que saíram se mudaram para o estado de Goiás (48,5%), especialmente para cidades do Entorno de Brasília, onde os custos com moradia são menores. Outros destinos foram Minas Gerais (7,5%) e Bahia (6,6%).
Esses dados reforçam a ideia de que a migração interna no Brasil está mudando. Grandes centros urbanos, antes vistos como polos de oportunidades, agora enfrentam a concorrência de cidades menores e estados que oferecem um equilíbrio melhor entre trabalho, moradia e qualidade de vida.
Fatores como avanço do trabalho remoto, crescimento de cidades médias, problemas estruturais em metrópoles e custo de vida alto estão entre as principais causas dessa mudança de comportamento.
O novo cenário migratório brasileiro deve impactar o planejamento urbano, as políticas públicas e a distribuição de investimentos nos próximos anos. Acompanhar esses movimentos será fundamental para entender como o país se reorganiza internamente em busca de melhores condições de vida.