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Centenários, idosos longevos ou superidosos?

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Quando lembro da imagem da belíssima atriz Claudia Ohana atravessando a Avenida Paulista — uma das mais importantes da maior cidade do país — carregando um cartaz com a frase: “Nós não estamos velhas aos 62”, me bate uma indignação sem precedentes.

Não gosto da palavra etarismo, nem do seu significado: práticas discriminatórias realizadas contra uma pessoa com base em sua idade, seja jovem ou idosa — no último caso, também conhecido como velhofobia.

Imaginar ter pânico de pessoas mais velhas… Gente, pelo amor de Deus! Apontar o dedo para quem envelhece é um grande defeito, chega a ser desumano. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), de cada seis idosos no planeta, um já sofreu discriminação. No Brasil, o Estatuto da Pessoa Idosa considera o etarismo crime.

Centenários, idosos, longevos ou superidosos - uma nova geração surgiu | Foto: Reprodução/Freepik
Centenários, idosos, longevos ou superidosos – uma nova geração surgiu | Foto: Reprodução/Freepik

Eu considero isso uma doença que se manifesta nas relações familiares, no mercado de trabalho e por aí vai. Alguém ser desqualificado ou desacreditado porque envelheceu é muito triste e pode causar consequências irreversíveis, como o dano psicológico.

A pesquisa da OMS também revelou que, até 2050, a população de idosos será de cerca de 2 bilhões de pessoas — o que significa arregaçar as mangas para impedir que o etarismo continue causando tantos males.

Envelhecer custa caro

“Quanto vale o homem, vale menos velho?”, o verso do poema Espelho, do genial Carlos Drummond de Andrade, foi utilizado por José Anísio Pitico no começo da nossa entrevista. O mestre em Serviço Social é especialista em Gerontologia com foco em gestão do envelhecimento.

Veio dele a informação de que o milenar desejo da humanidade de viver mais está em total sintonia com a realidade. Mas existe um porém: “A expectativa de vida aumentou, mas não estamos vivendo melhor como deveríamos. Pelo menos no Brasil, não há uma cultura robusta de atenção ao envelhecimento. Faltam políticas públicas e o compromisso da sociedade com seus idosos”, alertou.

No consultório, o especialista desenvolve um Plano de Envelhecimento que potencializa as habilidades do paciente, ajudando na realização pessoal, dando propósito e significado à vida. Não existe uma receita pronta, uma fórmula mágica nem um santo remédio que nos leve ao envelhecimento ideal — mas podemos nos ajudar nos prevenindo. Ele confessa: “Quanto antes começar a atividade física, melhor; cuidar da saúde mental, espiritual, ter uma alimentação de qualidade… Assim, ficamos de pé”.

A notícia ruim é que tudo isso custa caro. Hoje, o valor médio de um plano de saúde para pessoas com mais de 59 anos varia de R$ 901,10 a R$ 4.269,13. A justificativa para o valor exorbitante passa pelo alto custo da hospitalização, uso intensivo de tecnologia, mais cuidados médicos, um grande leque de doenças e utilização de medicação contínua. A lista é interminável.

A estimativa da Secretaria do Tesouro Nacional é que o envelhecimento da população brasileira eleve a pressão por recursos para os serviços de saúde em R$ 67,2 bilhões até 2034. Ainda há os gastos com dieta saudável, atividade física (que pode ser academia, dança, fisioterapia etc.).

Dito isso, faço das palavras de Pitico as minhas: “O Brasil foi pego com as calças na mão. Houve uma ‘geretrização’ da população, com a duplicação do número de cidadãos com 60+ em duas décadas. Hoje são quase 34 milhões de brasileiros”, sinaliza.

O que nos espera nos próximos anos? Qual o desafio da sociedade? Em primeiro lugar, envolver todos os setores para que políticas públicas sejam criadas; falar mais sobre o assunto, levando informações precisas a todas as classes sociais; e combater todos os preconceitos contra essa faixa etária que já deu — e continua dando — sua contribuição por um mundo melhor.

Superidosos

O gerontólogo prefere chamar essa nova geração de centenários ou idosos longevos, mas a ciência apelidou de Superidosos: uma galera que está fazendo história em várias partes do mundo por encarar a velhice como mais uma fase da vida — e não como sinônimo do fim.

O renomado pesquisador e médico americano Eric Topol, de 71 anos, fez durante seis anos o sequenciamento dos genomas de 1,4 mil octogenários sem problemas de saúde graves, mas não comprovou muita coisa.

Ele acredita que esses seres diferenciados têm um sistema imunológico intacto e, assim, se protegem de doenças cardiovasculares, neurodegenerativas e do câncer.

Topol defende a tese de que todos nós podemos obter esse resultado por meio de um estilo de vida saudável: uma dieta que não promova inflamação no corpo, sono de qualidade, relações sociais e, principalmente, a prática de exercícios físicos. Assim, nos tornamos Superidosos. Será?

Meu super-herói

Conheci Seu Josias Matias no parque onde faço caminhada. Aos 68 anos, ele corre todos os dias 10 km sem cansar. O comerciante aposentado mede 1,58 m, pesa 49 quilos e parece ter um foguete nos pés.

Quando consegui alcançá-lo, perguntei: o senhor é atleta? Ele respondeu: “Tenho uma boa alimentação, nenhum problema de saúde, paz de espírito e apoio da minha família. Sim, sou um atleta” — e desapareceu como uma flecha. Um verdadeiro Superidoso.

O superidoso Josias Matias, 68 anos, que corre 10km todo dia | Foto: Reprodução/arquivo pessoal
O superidoso Josias Matias, 68 anos, que corre 10km todo dia | Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

É sempre tempo de recomeçar

Uma vez questionada em um programa de TV de grande audiência nos Estados Unidos, Cher respondeu: “Eu acho envelhecer uma merda”.

Em outra ocasião, a atriz e cantora disse: “Simplesmente eu não sei como aceitar isso. Na realidade, eu não quero aceitar, porque eu não saberia como fazê-lo. Me olho no espelho e vejo uma senhora velha. Não tenho nem ideia de onde ela saiu. Se eu tivesse que colocar 70 velas no meu bolo, eu explodiria”. Ela está com 79 anos — e não explodiu.

Sobre o autor Livia Calmon

Jornalista com passagens pelas redações da TV Globo — São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Minas Gerais e Bahia —, da TV Record SP, Band SP e revista IstoÉ Gente. Produtora de Conteúdo de Campanhas Políticas e estudiosa da área da saúde

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