Vivemos em um planeta que diariamente acorda com um bocejo no canto da boca. Mas não é falta de café — é excesso de rotina, notificações, planilhas e produtividade. É um cansaço que vem de tempos antigos: desde quando decidiram que saber era dissecar, que trabalhar era receber ordens e que viver era competir — e que felicidade era resultado do Produto Interno a ser Bruto (PIB).
E se a felicidade que nos venderam for importada e estiver fora do prazo? Num mundo que transformou a saúde mental em KPI (Key Performance Indicator, ou, em português, indicador-chave de desempenho) e o bem-estar em capital simbólico, talvez seja hora de desver para começar a enxergar — como diria Guimarães Rosa. E também de escutar: porque há outros modos de viver, de produzir e de liderar. Modos que foram silenciados pela história colonial — e que hoje podem nos ajudar a reencantar o trabalho, a gestão, a própria ideia de futuro.

Enquanto executivos falam de propósito em TED Talks e empresas disputam selos de “melhor lugar para trabalhar”, lideranças indígenas seguem pedindo que a gente pare de cavar o chão enquanto o céu desaba em chamas. Entre um e outro, a psicologia positiva tenta medir emoções, calcular satisfação, quantificar o bem-estar. Mas, quando nos sentimos orgulhosos em medir a felicidade em escalas numéricas, não seria o mesmo que tentar pesar um banho de rio ou embalar um abraço em ziplock?
A cegueira do conhecimento fragmentado
A felicidade que cabe nesses estudos ainda tem CEP: branca, ocidental, liberal, de classe média, com diploma na parede. Aquele que acorda às 5h, medita, toma smoothie de couve, bate meta e agradece ao universo em inglês. Nada contra o otimismo — mas onde ficam os saberes que dançam?
Edgar Morin — esse filósofo francês com alma de griô — nos convida a despertar uma consciência ética, estética, afetiva e espiritual. Não uma consciência binária, do tipo on/off, mas uma que saiba sentir, errar, se contradizer e cair do cavalo. Para ele, o problema da humanidade é a cegueira do conhecimento fragmentado e, talvez por isso, tanta gente confunda saúde mental com mindfulness às 14h45 entre duas reuniões no Zoom.
Mas o buraco é mais embaixo. O que Aníbal Quijano chamou de colonialidade do poder ainda estrutura quem manda, quem serve, quem vale e quem não vale. Walter Mignolo falou da colonialidade do saber — que despreza a sabedoria do pajé, da avó, da benzedeira. Já Boaventura de Sousa Santos propõe uma ecologia de saberes: o conhecimento precisa parar de andar em fila indiana e começar a dançar em roda. E a felicidade, claro, também precisa sair do cabresto.
Felicidade fora do cabresto
Entre os povos iorubás, felicidade tem a ver com axé, equilíbrio ancestral, dança, natureza e tempo circular. Para os bantus, é ubuntu: “eu sou porque nós somos”. Para os indígenas, é não se separar da montanha, do leito do rio e do pé de manacá. Em todos esses caminhos, felicidade não se conjuga no singular.
Nas organizações, no entanto, seguimos confundindo compliance com compaixão. Celebramos a diversidade nos relatórios, mas evitamos o desconforto da escuta. Criamos metas ESG, mas esmagamos a espiritualidade com a racionalidade crua — onde não há espaço para o afeto, a lágrima e a vulnerabilidade.
Políticas de bem-estar no ambiente de trabalho precisam passar pelo filtro da descolonização e exigem questionar: quem define o que é um ambiente saudável? Por que seguimos achando que felicidade pode ser gerenciada como um processo? Será possível falar em sustentabilidade sem reencantar a relação com a Terra? Sem permitir que a liderança aprenda a silenciar, a escutar e a rever a rota?
Talvez a virada que tanto buscamos não venha de planilhas, mas de poesia. Não se meça em indicadores trimestrais, mas em vínculos. Não será obra apenas de CEOs de mindset ágil, mas pastoras de mãos dadas com iyalorixás, cozinheiras ao lado dos grandes nomes do agronegócio, líderes periféricos e cientistas que escrevem com humor e escutam o tambor do mundo — como Miguel Nicolelis, que entende de sinapses e de sonho.
Despertar a consciência, como propõe Morin, é mais que um ato cognitivo. É um ato de coragem. Um rompimento com a lógica da separação. Um abraço no caos. Uma aceitação da beleza trágica que é estar vivo com outros, neste planeta.
Descolonizar a felicidade, portanto, é aceitar que há muita sabedoria fora das universidades – e que a ciência da felicidade mora, sim, em diversos saberes que não estão em livros, bibliotecas ou laboratórios. Que o mundo não cabe na razão. Que o bem-estar talvez esteja mais numa ciranda do que num kickoff ou summit entre líderes. Que a vida é mais bonita quando pode ser múltipla, espiritual, comum e alegre.
Se quiser que vire política pública, já temos o fundamento. Se quiser que vire cultura organizacional, já temos o caminho. Se quiser que isso vire uma música, já temos o arranjo. Agora só falta quem tope se reencantar.


