Vivemos em um planeta que diariamente acorda com um bocejo no canto da boca. Mas não é falta de café — é excesso de rotina, notificações, planilhas e produtividade. É um cansaço que vem de tempos antigos: desde quando decidiram que saber era dissecar, que trabalhar era receber ordens e que viver era competir — e que felicidade era resultado do Produto Interno a ser Bruto (PIB).
E se a felicidade que nos venderam for importada e estiver fora do prazo? Num mundo que transformou a saúde mental em KPI (Key Performance Indicator, ou, em português, indicador-chave de desempenho) e o bem-estar em capital simbólico, talvez seja hora de desver para começar a enxergar — como diria Guimarães Rosa. E também de escutar: porque há outros modos de viver, de produzir e de liderar. Modos que foram silenciados pela história colonial — e que hoje podem nos ajudar a reencantar o trabalho, a gestão, a própria ideia de futuro.

Enquanto executivos falam de propósito em TED Talks e empresas disputam selos de “melhor lugar para trabalhar”, lideranças indígenas seguem pedindo que a gente pare de cavar o chão enquanto o céu desaba em chamas. Entre um e outro, a psicologia positiva tenta medir emoções, calcular satisfação, quantificar o bem-estar. Mas, quando nos sentimos orgulhosos em medir a felicidade em escalas numéricas, não seria o mesmo que tentar pesar um banho de rio ou embalar um abraço em ziplock?


