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Megaoperação no Rio de Janeiro escancara o custo bilionário da violência no estado

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Nesta terça-feira, 28 de outubro, o Rio de Janeiro acordou pela manhã com uma megaoperação policial que mobilizou cerca de 2.500 agentes das forças de segurança do estado. A Operação Contenção, como foi nomeada a ação das polícias, foi realizada nos complexos do Alemão e da Penha, e resultou em 64 mortes, sendo 60 delas de suspeitos e 4 de policiais, além de 9 feridos, segundo os dados divulgados pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro. Até o momento desta publicação, 81 pessoas foram presas, 75 fuzis apreendidos e mais de 200 quilos de drogas retirados de circulação.

Custo da violência no Rio de Janiero vai além do humano
O secretário de Segurança Pública, Victor Santos, informou que cerca de 280 mil pessoas vivem nas áreas atingidas pela operação, dimensionando o impacto social de ações desse tipo | Foto: Reprodução / Wikimedia

A ação, considerada a mais letal da história fluminense, tinha como alvo o núcleo financeiro do Comando Vermelho (CV), que, segundo a investigação conduzida pela Delegacia de Roubos e Furtos (DRF) e pelo Departamento-Geral de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (DGCOR-LD), movimentava R$ 6 bilhões por ano. O bloqueio desses valores é o maior já solicitado pela Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro.

Rotina interrompida e efeitos imediatos

A operação teve reflexos diretos na rotina da cidade. A Secretaria Municipal de Educação informou o fechamento temporário de 46 escolas públicas, sendo 29 delas no Complexo do Alemão e 17 na Penha. A Secretaria Municipal de Saúde suspendeu o funcionamento de seis unidades básicas de atendimento, enquanto outras quatro mantiveram apenas serviços internos, sem visitas domiciliares.

Nas ruas, o Centro de Operações Rio (COR) decretou o “estágio 2” de alerta. Essa classificação é usada pela prefeitura para informar que há risco de ocorrências graves na cidade, como tiroteios ou bloqueios de vias, notificando a população de que deve evitar circular nas regiões afetadas.

O trânsito foi parcialmente interditado, inclusive na Avenida Brasil, uma das principais vias da capital da cidade. Mais de 100 linhas de ônibus e corredores do BRT tiveram os trajetos alterados.

Segundo o prefeito Eduardo Paes, o maior problema foi o medo de empresas e motoristas de ônibus de colocarem os veículos nas ruas, por risco de incêndios ou ataques.

O custo direto da violência

Os prejuízos provocados pela violência no Rio de Janeiro não se limitam à segurança pública: eles também atingem a economia, o emprego e o orçamento das famílias. Um levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC, 2024) calcula que os crimes violentos geram perdas anuais entre R$ 10,76 bilhões e R$ 11,48 bilhões para o estado, o equivalente a 0,9% do Produto Interno Bruto (PIB) fluminense.

PIB é o valor total de todos os bens e serviços produzidos em uma região. Quando o PIB cai ou cresce menos, isso significa menos empregos, renda e consumo.

Outro estudo, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID, 2023), estima que o custo social da criminalidade no Brasil é de R$ 372,9 bilhões por ano, e que o impacto sobre o Rio de Janeiro chega a R$ 32 bilhões. Considerando apenas os efeitos diretos da violência, como gastos médicos, danos a propriedades e perdas produtivas, o impacto anual seria de R$ 13 bilhões.

Esses valores refletem o fechamento de comércios durante tiroteios, a queda na produtividade, o aumento do custo de seguros e a fuga de investidores. Para o trabalhador comum, isso se traduz em menos oportunidades de emprego e preços mais altos de bens e serviços.

As perdas nas comunidades

A violência nas favelas tem um preço elevado, principalmente para quem vive e trabalha nesses territórios. Uma pesquisa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC, 2023), chamada “Favelas na Mira do Tiro”, calculou que as operações policiais nos complexos da Penha e de Manguinhos geram prejuízo anual de R$ 14 milhões.

Conforme o levantamento, 60,4% dos moradores com emprego ou trabalho autônomo ficaram impedidos de exercer suas atividades ao longo de um ano, devido a confrontos. Em média, cada morador perdeu 7,5 dias de trabalho, o equivalente a 2,8% do ano útil.

Com renda média mensal de R$ 1.652, o total de trabalho perdido somou R$ 9,4 milhões em perdas. Além disso, o valor gasto em reposição de bens danificados e mercadorias destruídas chegou a R$ 4,7 milhões anuais.

O estudo também mostrou que metade dos comércios locais precisou fechar temporariamente em algum momento, e 18,7% dos comerciantes relataram danos diretos a seus estabelecimentos. As perdas com queda nas vendas e reposição de estoque chegaram a R$ 2,5 milhões por ano, o equivalente a 34% do faturamento total desses empreendimentos.

O custo fiscal da segurança

O estudo “O Funil de Investimento da Segurança Pública e Sistema Prisional” da organização Justa (2024) aponta que o Rio de Janeiro foi o estado que mais gastou com polícias em 2023, destinando R$ 10 bilhões para a área — o equivalente a 10,6% do orçamento estadual. Esse valor foi superior ao gasto com educação, que ficou em R$ 9,9 bilhões.

Do total aplicado em segurança, R$ 7,9 bilhões (79%) foram direcionados à Polícia Militar e R$ 2,1 bilhões (21%) à Polícia Civil. Esses recursos cobrem salários, manutenção de viaturas, munições, equipamentos e treinamento.

O custo fiscal da violência é o dinheiro gasto pelo governo para lidar com as consequências da criminalidade — operações, prisões, hospitais, indenizações e reposição de materiais.

Custo da violência no Rio de Janiero vai além do humano
Insegurança impacta diretamente o funcionamento do transporte público e a circulação de trabalhadores e estudantes | Foto: Reprodução / Wikimedia

O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP, 2025) informou que o governo federal repassou R$ 1,16 bilhão do Fundo Nacional de Segurança Pública para os estados neste ano, parte destinado ao Rio. Esse valor cobre ações de policiamento, infraestrutura penitenciária e integração das forças estaduais e federais.

As megaoperações e o custo humano

Um relatório do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF, 2023) mapeou 629 operações com chacinas no Rio de Janeiro entre 2007 e 2022, somando 2.554 mortos. Dessas, 27 foram classificadas como “mega-chacinas”, com oito ou mais mortos. Apenas duas resultaram em denúncia do Ministério Público, e nenhuma foi julgada.

O estudo mostra que a letalidade policial aumentou de 9,5% das mortes violentas em 2013 para 35,4% entre 2020 e 2022. Isso significa que mais de um terço das mortes violentas na região metropolitana foi provocada em ações de segurança.

Além das vidas perdidas, há custos indiretos: indenizações às famílias, destruição de infraestrutura urbana e desvalorização de imóveis nas áreas afetadas.

O peso da violência no crescimento e no custo de vida

Empresas evitam investir em regiões consideradas de alto risco: comércios locais perdem movimento e os moradores passam a gastar mais com segurança privada, transporte alternativo e seguros, o que aumenta o custo de vida.

Pesquisas do Banco Interamericano de Desenvolvimento e da CNC mostram que esse ciclo de insegurança reduz o potencial de crescimento do PIB e prejudica a criação de empregos formais. Para o trabalhador, isso se reflete em salários mais baixos, preços mais altos e menor estabilidade no mercado de trabalho.

Ainda segundo a pesquisa, a criminalidade “atua como um imposto invisível”, pois obriga empresas e pessoas a gastarem mais apenas para se proteger, diminuindo a quantidade de dinheiro que poderia ser investida em consumo, investimento ou educação.

Sobre o autor Saara Paiva

Jornalista, exploradora de eventos culturais e entusiasta da prática de esportes. Escreve sobre finanças sem palavras difíceis e com temas relevantes para quem vive a realidade brasileira.

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