Após um ano e meio de restrições, a China anunciou o fim do embargo à importação de carne de frango produzida no Rio Grande do Sul. A decisão foi comunicada pelas autoridades chinesas na última sexta-feira, 16 de janeiro, e confirmada esta semana pelo Ministério da Agricultura e por entidades que representam o setor de proteína animal no Brasil.

À época, o governo gaúcho decretou emergência zoossanitária por cerca de três semanas, período em que medidas de controle e monitoramento foram adotadas para conter a disseminação da doença.
A retomada das importações foi oficializada em um comunicado conjunto da Administração-Geral das Alfândegas da China e do Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais do país asiático. O documento revoga um ato anterior que havia proibido a entrada do produto brasileiro com base em uma análise de risco sanitário.
Entenda por que o embargo foi imposto
A Doença de Newcastle é uma enfermidade viral que atinge aves e pode causar grandes prejuízos à produção avícola (focado na criação de aves, como frangos, codornas, perus, etc). Embora não represente risco direto ao consumo humano quando controlada, a presença do vírus em granjas comerciais costuma levar países importadores a suspender compras por precaução.
No caso do Rio Grande do Sul, o foco identificado em 2024 levou à interrupção imediata das exportações para a China, um dos mercados mais rigorosos do mundo em relação a questões sanitárias. Pouco tempo depois, em maio de 2025, o estado também registrou um caso de gripe aviária em uma granja no município de Montenegro. Após 28 dias sem novos registros, o Brasil foi novamente reconhecido como livre da doença.
Mesmo assim, em novembro de 2025, os chineses optaram por liberar as compras de carne de frango de outros estados brasileiros, mantendo a restrição apenas para o território gaúcho. A decisão prolongou o impacto econômico sobre produtores e frigoríficos locais.
Impacto direto nas exportações do estado
A ausência do mercado chinês teve reflexo imediato nos números do comércio exterior. Em 2024, o bloqueio contribuiu para uma queda aproximada de 1% nas exportações de carne de frango do Rio Grande do Sul. Antes do embargo, a China respondia por quase 6% dos embarques do estado, percentual considerado relevante para o equilíbrio das vendas externas.
Parte dessa perda foi compensada com o redirecionamento da produção para outros destinos, mas o setor admite que substituir completamente o mercado chinês não é simples. O país asiático é um dos maiores importadores de proteína animal do mundo e costuma absorver grandes volumes, o que ajuda a conferir estabilidade aos preços e ao fluxo de exportações.
Segundo o Ministério da Agricultura, a reabertura só foi possível após o envio de relatórios técnicos que comprovaram a adoção de todas as medidas exigidas pelos protocolos internacionais de saúde animal. Entre elas, ações de vigilância, rastreamento, controle sanitário e erradicação do foco identificado.
Retomada vista como sinal de confiança
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) avaliou a decisão como um passo importante para a normalização do comércio. Em nota, a entidade afirmou que o fim do embargo reforça a credibilidade do sistema sanitário brasileiro e demonstra o reconhecimento internacional da forma como o país lida com crises sanitárias na produção animal.
Segundo a associação, as negociações com a China envolveram diálogo contínuo ao longo dos últimos meses. Durante esse período, autoridades brasileiras e representantes do setor encaminharam informações detalhadas sobre as ações adotadas no estado, sempre alinhadas às regras definidas por organismos internacionais de saúde animal.
A expectativa agora é de uma retomada gradual dos embarques. Isso porque os sistemas de habilitação das plantas exportadoras precisam ser atualizados, e os certificados sanitários devem ser novamente liberados pelas autoridades chinesas. O processo tende a ocorrer de forma progressiva, sem uma normalização imediata de todo o volume exportado antes da suspensão.
Por que a China é um mercado estratégico?
A China ocupa posição central no comércio global de alimentos e é um dos principais destinos do frango brasileiro. Além do tamanho do mercado consumidor, o país tem papel relevante na formação de preços internacionais da proteína animal.
Para produtores do Rio Grande do Sul, a reabertura representa não apenas a recuperação de uma fatia importante das exportações, mas também maior previsibilidade para o planejamento da produção. Com o retorno do mercado chinês, o setor espera reduzir a dependência de destinos menores e equilibrar melhor a distribuição das vendas externas.
Entidades do agronegócio avaliam que a decisão também pode ter efeito positivo sobre a renda no campo e sobre a atividade industrial ligada à avicultura, cadeia que gera milhares de empregos diretos e indiretos no estado.


