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Por que preço do café é o maior já registrado?

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O preço dos grãos de café arábica, que representa a maior parte da produção global, ultrapassou a marca de US$ 3,44 por libra (cerca de 0,45 kg), um aumento superior a 80% no valor desde o início do ano. Enquanto isso, o preço dos grãos de robusta alcançou seu pico em setembro.

Preço do café atinge o maior valor já registrado no mercado.
Preço do café bate recorde com alta de mais de 80% em 2024, impulsionado por secas, chuvas extremas e alta demanda global  |Foto: Reprodução/Freepik

Esse aumento nos preços ocorre devido a uma combinação de fatores, especialmente a expectativa de uma queda nas safras, após os dois maiores produtores mundiais de café, Brasil e Vietnã, terem sido fortemente afetados por fenômenos climáticos extremos, como secas prolongadas e inundações devastadoras.

Esses eventos climáticos prejudicaram a produção e, consequentemente, afetaram a oferta global de café, ao mesmo tempo em que a demanda pela bebida continua a crescer de forma constante em várias partes do mundo.

Embora, nos últimos anos, as grandes indústrias processadoras de café, como Nestlé e JDE Peet, tenham conseguido absorver os aumentos de preços da matéria-prima, sem repassar esses custos aos consumidores para manter a lealdade de seus clientes e sua participação de mercado, essa estratégia parece estar prestes a mudar.

De acordo com Vinh Nguyen, presidente-executivo da Tuan Loc Commodities, essas grandes marcas estão se aproximando de um ponto crítico, onde a sustentabilidade de manter os preços estáveis será insustentável por mais tempo.

“Marcas como JDE Peet, Nestlé e outras, até agora, conseguiram absorver o impacto do aumento nos preços do café”, afirmou Nguyen. “No entanto, elas estão prestes a chegar a um ponto de inflexão. Muitas delas estão considerando um aumento nos preços nos supermercados, possivelmente no primeiro trimestre de 2025.”

Em um evento para investidores realizado em novembro, David Rennie, chefe das marcas de café da Nestlé, reconheceu a pressão crescente sobre a indústria.

Ele afirmou que a empresa enfrentaria “tempos difíceis”, admitindo que seria necessário ajustar tanto os preços quanto os tamanhos das embalagens para compensar os aumentos no custo da matéria-prima. “Não somos imunes ao aumento do preço do café, muito pelo contrário”, declarou Rennie, destacando a dificuldade de manter a competitividade em um cenário de custos elevados.

Seca e chuva forte

O último recorde de alta nos preços do café aconteceu em 1977, após uma geada fora do comum que causou grandes danos às plantações de café no Brasil, resultando em uma escassez significativa da commodity.

No cenário atual, um fator semelhante está impulsionando o aumento nos preços do café: as preocupações com a safra de 2025 no Brasil.

Segundo Ole Hansen, chefe de estratégia de commodities do Saxo Bank, esse é o principal motivo por trás do recente aumento nos preços. A situação se agravou ainda mais devido às condições climáticas extremas enfrentadas pelo Brasil.

Em agosto e setembro de 2024, o país sofreu sua pior seca em 70 anos, seguida por fortes chuvas em outubro.

Esses eventos climáticos extremos têm gerado grandes incertezas sobre o impacto na safra de café, especialmente porque as condições desfavoráveis podem comprometer a qualidade e a quantidade da produção, aumentando o temor de que a colheita do próximo ano não seja bem-sucedida.

Além das plantações de café arábica, que predominam no Brasil, o mercado de café robusta também está sendo afetado.

O Vietnã, maior produtor mundial dessa variedade, também enfrentou uma combinação de seca severa e chuvas intensas, o que resultou em danos às plantações de robusta. Isso agrava ainda mais as preocupações sobre a oferta global da commodity.

O café é a segunda commodity mais negociada do mundo, ficando atrás apenas do petróleo bruto. A demanda por café, que já era alta, tem crescido ainda mais, especialmente em mercados como o chinês, onde o consumo mais que dobrou na última década. Isso tem pressionado os preços para cima, à medida que a procura continua a superar a oferta.

Fernanda Okada, analista de preços de café da S&P Global Commodity Insights, destaca que a demanda pela commodity segue elevada, enquanto os estoques mantidos pelos produtores e pelas empresas de processamento estão em níveis baixos, o que agrava ainda mais a situação.

Dado o cenário de oferta reduzida e demanda crescente, a tendência de alta nos preços do café deve continuar por um período prolongado, refletindo as dificuldades do setor em atender ao mercado global.

Análise sobre os impactos do aumento

Gil Barabach, consultor de Safras & Mercado para café, afirmou que os principais estados produtores, São Paulo e Minas Gerais, foram fortemente impactados pela seca, o que afetou a cadeia de produção do café arábica.

Ele explicou que a seca prejudicou severamente a safra atual e também a próxima colheita, no ano seguinte.

Esse cenário, combinado com a escassez de café robusta, especialmente proveniente da Ásia, fez com que os preços disparassem. Ele ressaltou que a redução na produção levou o mercado a reagir à falta de café proveniente do Brasil.

Além disso, o arábica e o robusta, embora diferentes, são intercambiáveis até certo ponto, o que significa que uma maior disponibilidade de robusta poderia amenizar a escassez de arábica.

No entanto, esse aumento nos preços pode ser vantajoso para o Brasil, mas também traz desafios, já que a situação é como uma “faca de dois gumes” para o país.

Denis Medina, economista e professor da Faculdade do Comércio, explicou que a alta nos preços e a falta de oferta no cenário mundial são fatores positivos para os exportadores brasileiros.

Ele destacou que o Brasil continua sendo o maior produtor mundial de café, com exportações recordes, mas a produtividade mundial não tem sido capaz de acompanhar a demanda, o que impulsiona os preços. Esse problema se agrava ainda mais com o aumento do consumo de café na China.

Em novembro, a Luckin Coffee, a maior rede de cafeterias da China, assinou um termo de compromisso para comprar 240 mil toneladas de café brasileiro entre 2025 e 2029.

No lado das exportações, o Brasil exportou 4,926 milhões de sacas de 60 quilos de café em outubro deste ano, de acordo com o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).

Medina também destacou que os produtores que já haviam fechado contratos futuros de commodities estão enfrentando dificuldades para comprar o café necessário para cumprir os compromissos, devido à alta nos preços. Ele prevê que, nos próximos três meses, o cenário de alta de preços deve continuar.

A redução na previsão da safra do próximo ano, a possível falta de grãos nos principais países produtores e a atual volatilidade do mercado estão puxando os preços para os níveis mais altos em 47 anos.

Embora o aumento dos preços possa gerar maiores retornos para os agricultores, Barabach explicou que ele representa um obstáculo para as indústrias e comerciantes, que precisam repassar os custos ao consumidor final.

Ele observou que as indústrias já estão aumentando os preços internos e repassando esses aumentos aos consumidores, e que ainda há espaço para mais aumentos, já que os estoques das indústrias são de curto prazo.

Sobre o autor Thaline Silva

Natural de Belém do Pará, formada em Geografia pela UFPA, graduanda em Jornalismo pela Estácio e roteirista com pós-graduação em Cinema

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