Diante da ameaça de novas tarifas impostas pelo governo Trump, empresas e consumidores nos Estados Unidos estão correndo para garantir bons negócios antes que os preços disparem. A Tarptent, loja da Califórnia especializada em equipamentos para atividades ao ar livre, lançou uma promoção no fim do mês passado com o código “As tarifas são uma droga”, o que fez as vendas aumentarem em cerca de 25%.
A maior parte dos produtos da marca vem da China, alvo das tarifas que podem ultrapassar 100%. A ação serviu como alerta aos clientes de que os preços estavam prestes a subir, funcionando como um incentivo para comprar antes dos impactos das tarifas.

Esse cenário se repete em diversos setores da economia. Consumidores, preocupados com os aumentos, estão estocando itens que vão desde produtos de higiene até eletrônicos de ponta. Em Los Angeles, um advogado tem comprado grandes quantidades de desodorantes e pastas de dente e vem incentivando outras pessoas a fazerem o mesmo, diante da possibilidade de impacto direto das tarifas no cotidiano.
O mercado automotivo também foi movimentado pelo medo de aumento nos preços. Concessionárias registraram um crescimento no fluxo de clientes na última semana de março, especialmente nas marcas Toyota, Hyundai e Jeep. A Stellantis, fabricante da Jeep, respondeu oferecendo descontos em todas as suas marcas, enquanto a Hyundai garantiu manter os preços atuais até junho para tranquilizar os consumidores.
Nas lojas da Apple, o movimento cresceu, com clientes buscando garantir iPhones antes de eventuais aumentos. Segundo dados da Bloomberg Second Measure, as vendas da Apple aumentaram cerca de 6% em março, o melhor desempenho desde novembro, impulsionado pela preferência dos consumidores por modelos mais caros.
A varejista Best Buy também registrou crescimento, com um aumento de 8% nas vendas no último mês, o maior desde 2021.
A corrida não se limita aos consumidores americanos. Em Nova York, uma argentina decidiu investir em um iPhone após as notícias sobre as tarifas, motivada pela incerteza do cenário e pela oportunidade de pagar menos.
Como o tarifaço pode tornar iPhone nos EUA tão caro como no Brasil?
Embora a Apple ainda não tenha se pronunciado oficialmente, especialistas alertam: se o aumento for totalmente repassado ao consumidor, os preços dos aparelhos podem disparar, alcançando patamares próximos aos praticados no Brasil.
Os dispositivos da Apple são mundialmente reconhecidos como símbolos da inovação dos EUA, carregando orgulhosamente a frase “Designed in California” (Projetado na Califórnia). No entanto, a inscrição “Assembled in China” (Montado na China) revela uma dependência que desagrada profundamente a Trump. Apesar de projetados nos Estados Unidos, os aparelhos são majoritariamente produzidos em fábricas chinesas — e, por isso, entrarão na lista dos que sofrerão o impacto da nova tarifa.
Atualmente, o iPhone 16 mais básico custa US$ 799 (cerca de R$ 4.490) nas lojas da Apple nos EUA. Considerando o dólar na casa dos R$ 5,62, esse valor é cerca de 40% mais barato do que o preço praticado no Brasil, onde o mesmo modelo parte de R$ 7.799.
Mas essa vantagem pode diminuir drasticamente. Com o anúncio recente, Trump confirmou uma tarifa extra de 34% para todos os produtos vindos da China, que se soma à taxa de 20% já existente. Ou seja, os aparelhos montados no país asiático, como os iPhones, agora enfrentam um imposto de importação de 54%.
Na prática, quem paga essa conta é a empresa importadora — que, geralmente, acaba repassando os custos para o consumidor final. Se a Apple optar por transferir integralmente esse aumento para o preço dos seus produtos, o valor do iPhone pode subir mais de 50%. Assim, o preço do modelo básico nos EUA poderia saltar para aproximadamente US$ 1.230, o equivalente à cerca de R$ 6.912.
Com esse reajuste, a diferença de preço entre comprar o iPhone nos EUA ou no Brasil ficaria bem menos atrativa. Hoje, a economia na compra internacional gira em torno de 42%. Após a aplicação da nova tarifa, essa vantagem cairia para meros 11%. Ou seja, quem costuma trazer o aparelho de viagens aos Estados Unidos teria um benefício financeiro muito menor.
Além disso, vale lembrar que promoções locais, como as da Black Friday ou ofertas vinculadas a planos de operadoras, podem facilmente oferecer descontos de 10% ou mais no Brasil. Com a mudança, a compra no exterior perderia boa parte do seu apelo, levando muitos consumidores a repensarem a decisão de adquirir o smartphone fora do país.
Tarifas da União Europeia
As tarifas de 20% sobre produtos da União Europeia estão ameaçando o modelo de negócios da Gustiamo, empresa que importa alimentos autênticos da Itália para os Estados Unidos. Boa parte dos cerca de 300 itens do portfólio da Gustiamo não tem equivalente no mercado americano, como o mel da Sardenha, vendido por US$ 37,50 (R$ 221,25), e os tomates Piennolo, cultivados no Parque Nacional do Vesúvio e comercializados por US$ 13,50 (R$ 79,65).
A situação é especialmente crítica porque muitos dos fornecedores da Gustiamo são pequenos produtores, que operam com margens apertadas e não têm condições de absorver os custos adicionais das tarifas. A própria Gustiamo também não consegue arcar com esses valores, o que pode levar ao repasse dos custos para os clientes, elevando os preços dos produtos.
Donos de restaurantes também enfrentam desafios, como Dominick Purnomo, que administra diversos estabelecimentos no norte do estado de Nova York e depende de produtos importados da Europa. Apesar da intenção de estocar vinhos como o pinot grigio para se proteger das tarifas, ele não dispõe do capital necessário para antecipar as compras.
A incerteza permanece para os negócios que dependem das importações europeias, enquanto empresários seguem atentos à evolução das tensões comerciais, na esperança de que o cenário melhore antes que o impacto se aprofunde.
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