A Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) divulgou nesta quinta-feira, 22 de maio, em São Paulo, dados que indicam uma queda expressiva no consumo de café no país. De janeiro a abril de 2025, as vendas somaram 4.753.766 sacas de 60 quilos, uma retração de 5,13% em comparação ao mesmo período de 2024, quando foram comercializadas 5.010.580 sacas.

A diminuição foi mais acentuada em abril, quando o volume vendido caiu 15,96% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Segundo a Abic, os dados referem-se ao consumo no varejo, que representa entre 73% e 78% do consumo interno brasileiro.
O recuo ocorre em meio à forte alta dos preços: segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o café ficou 80% mais caro entre abril de 2024 e abril de 2025, configurando a maior inflação registrada para o produto nos últimos 30 anos.
Pressão sobre preços e retração no consumo
A elevação dos preços foi provocada por uma combinação de fatores. Eventos climáticos extremos, como secas e ondas de calor que afetam as lavouras há pelo menos quatro anos, prejudicaram a produção nacional e encareceram a matéria-prima em até 224% para a indústria. Para o consumidor, isso resultou em um aumento acumulado de 110% no preço do café desde o início deste ciclo climático adverso.
Além disso, a menor oferta global também pressionou os preços. Países tradicionalmente exportadores, como o Vietnã, sofreram quebras de safra decorrentes de problemas climáticos. O aumento do custo logístico, em razão de conflitos no Oriente Médio que encareceram o transporte internacional, também afetou negativamente os preços.
Outro fator citado pela Abic e por especialistas é o crescimento do consumo internacional, impulsionado, entre outros motivos, pela entrada da China no mercado global do café. O resultado é uma redução da oferta interna e, consequentemente, um impacto sobre os preços e o consumo no Brasil.
Ainda segundo o levantamento, os diferentes tipos de café foram impactados de forma desigual pela alta de preços. O café solúvel foi o que mais sofreu, com aumento de 85% em relação ao mesmo período de 2024. O café gourmet teve alta de 56%, seguido pelo tradicional e extraforte, ambos com elevação de 50%. Já o café especial apresentou incremento de 42,3% e o superior, de 29%.
Queda gradual culmina em retração histórica
Os dados mostram que, apesar de o quadrimestre ter começado com números positivos, com crescimento de 1,26% nas vendas em janeiro e de 0,89% em fevereiro, os sinais de queda surgiram já em março, quando as vendas recuaram 4,87% em relação ao mesmo mês de 2024.
Em abril, a retração se intensificou: o consumo despencou quase 16% frente ao mesmo período do ano passado, refletindo tanto o esgotamento do poder de compra do consumidor diante dos preços elevados quanto o completo repasse dos custos pela indústria.
De acordo com especialistas do setor, a volatilidade do mercado deve continuar afetando tanto produtores quanto consumidores nos próximos meses. A expectativa é que a oferta permaneça limitada, em razão da previsão de novos episódios climáticos extremos, como geadas, que podem comprometer ainda mais a próxima safra brasileira.
A Abic ressaltou ainda que o cenário internacional continuará influenciando o mercado interno. Com a demanda externa aquecida, sobretudo na Ásia, o Brasil deve seguir priorizando as exportações, o que pode manter a pressão sobre os preços domésticos e dificultar uma recuperação rápida do consumo interno.
Para o consumidor final, esse cenário representa a continuidade de preços elevados e um possível ajuste nos hábitos de consumo, com maior procura por alternativas mais acessíveis ou pela redução do volume adquirido. Já para os produtores e a indústria, o desafio será equilibrar a necessidade de manter a competitividade no mercado global com a preservação do mercado interno, historicamente um dos principais pilares da cafeicultura nacional.
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