A Starbucks anunciou nesta semana que passará a exigir de seus funcionários corporativos uma frequência presencial mínima de quatro dias por semana a partir de 29 de setembro. A decisão marca mais um movimento entre grandes empresas globais rumo à retomada do trabalho no escritório, após anos de flexibilização provocada pela pandemia.
A mudança afeta os chamados “centros de suporte” localizados em Seattle, nos Estados Unidos, e Toronto, no Canadá, além de outros escritórios regionais da companhia na América do Norte. Atualmente, o modelo vigente permite o trabalho presencial por três dias por semana.

A nova diretriz foi comunicada pelo CEO da empresa, Brian Niccol, em mensagem publicada no portal interno da companhia na última segunda-feira, 14 de julho. Segundo ele, a medida faz parte de uma estratégia mais ampla para recuperar a performance do negócio e reforçar a cultura organizacional da Starbucks.
Retorno gradual e cultura empresarial do Starbucks
“A presença física fortalece nossas conexões, promove colaboração e acelera decisões importantes para o negócio”, afirmou Niccol, que está há quase um ano à frente da companhia. “Queremos líderes e gestores próximos de suas equipes.”
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Em fevereiro de 2025, a empresa já havia solicitado que os executivos de nível vice-presidente que atuavam remotamente se mudassem para Seattle ou Toronto. Agora, essa exigência será estendida a todos os líderes dos centros de suporte, que deverão se transferir para essas cidades no prazo de até 12 meses.
Esse movimento acompanha uma tendência global. Gigantes como Amazon, Dell e Meta também têm exigido retorno mais frequente ao escritório, muitas vezes vinculando a presença física a critérios de desempenho, bônus e promoções. Em alguns casos, como o da Dell, a exigência é de cinco dias presenciais por semana.
Impacto nos trabalhadores e no mercado
Segundo pesquisa da empresa de recrutamento Robert Half, divulgada em junho de 2025, 41% dos brasileiros trocariam de emprego se fossem obrigados a trabalhar mais dias presencialmente. Ainda assim, 68% dos empregadores no Brasil afirmaram que pretendem aumentar a exigência de presença no escritório nos próximos seis meses.
Isso sugere uma possível tensão no mercado de trabalho entre a preferência dos profissionais por flexibilidade e a tentativa das empresas de reverter modelos híbridos. A mesma pesquisa aponta que os principais fatores que levam à resistência dos trabalhadores são o tempo de deslocamento, custos com transporte e alimentação, e impacto no equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
Em São Paulo, por exemplo, a média de tempo gasto no deslocamento casa-trabalho é de 1h40 por dia, segundo a pesquisa Origem-Destino do Metrô (2023). Com o aumento da frequência no escritório, esse custo de tempo e dinheiro volta a pesar no orçamento dos trabalhadores. Considerando um gasto médio de R$ 20 por dia com transporte e alimentação, o aumento de um dia presencial por semana representa um acréscimo mensal de R$ 80 no orçamento do colaborador ou R$ 960 por ano.
Desempenho financeiro e estratégia da empresa
A Starbucks tem acelerado mudanças operacionais para melhorar os resultados financeiros, que sofreram impactos nos últimos trimestres. A inflação nos Estados Unidos acumulou alta de 3,3% nos 12 meses encerrados em maio de 2025, o que afetou tanto os custos operacionais quanto o consumo nos pontos de venda da rede.
Além disso, a companhia quer fortalecer a experiência nas lojas físicas e reduzir a dependência de pedidos por aplicativo ou para viagem. A meta é aumentar o engajamento dos clientes e estimular um modelo mais personalizado de atendimento. Isso requer, segundo a liderança da empresa, mais interação entre os times corporativos e operacionais.
De acordo com o último balanço trimestral da Starbucks, publicado em maio, a receita global da empresa foi de US$ 8,6 bilhões (cerca de R$ 46,2 bilhões), com lucro líquido de US$ 1,1 bilhão (aproximadamente R$ 5,9 bilhões). Ainda assim, houve uma leve queda de 3% nas vendas na América do Norte em relação ao mesmo período do ano anterior.
Tendência de flexibilização em xeque
Embora o home office continue sendo valorizado por muitos trabalhadores, o movimento de grandes empresas para ampliar a presença física dos colaboradores tem ganhado força. Para especialistas em gestão de pessoas, o desafio está em encontrar um equilíbrio entre produtividade, bem-estar e cultura organizacional.
A consultora norte-americana Gallup estima que colaboradores engajados e satisfeitos são 23% mais produtivos. No entanto, o mesmo estudo aponta que esse engajamento é mais alto quando as pessoas têm alguma flexibilidade no modelo de trabalho, com liberdade para organizar seus dias de home office e escritório.
O que esperar a partir de setembro
Com a nova política da Starbucks entrando em vigor em setembro, será possível observar mais claramente os efeitos dessa decisão no desempenho da empresa, na satisfação dos colaboradores e na cultura interna. O caso servirá como termômetro para outras corporações que avaliam mudanças semelhantes.
O movimento da gigante do café mostra que, apesar dos avanços da tecnologia e do trabalho remoto, o modelo tradicional ainda tem defensores fortes, especialmente em tempos de pressão por resultados.
*Entrevista concedida a Forbes.


