Nos últimos meses, a indústria brasileira vem ocupando um espaço cada vez maior nas exportações para a China, o maior parceiro comercial do Brasil. Produtos como alimentos industrializados e celulose, usada na produção de papel, passaram a ter mais peso nas vendas externas. Segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), feito com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), esses itens já representam 20,8% de tudo o que o Brasil vendeu para os chineses entre janeiro e setembro deste ano.

No mesmo período do ano passado, essa participação era de 17,2%, o que mostra uma mudança importante na pauta de exportações brasileiras. Essa alta acontece num momento em que o país asiático, com mais de 1,4 bilhão de habitantes, busca diversificar suas importações e garantir o abastecimento de produtos de maior valor agregado.
Indústria de transformação ganha força nas exportações
A chamada indústria de transformação, que pega matérias-primas e as transforma em produtos prontos ou semiprontos, foi o destaque do período. Entre os principais produtos vendidos estão carne bovina processada, celulose e ferroligas, como ferroníquel e ferronióbio, usados em indústrias de tecnologia e energia.
Enquanto a indústria cresceu, o setor agropecuário manteve praticamente a mesma participação nas vendas ao país asiático, com 39,7% do total exportado. Já a indústria extrativa, responsável pela retirada de bens diretamente da natureza, como o minério de ferro e o petróleo, perdeu espaço, caindo de 43% para 39,4%.
Esse recuo está ligado à redução das exportações de minério e petróleo, dois produtos que sempre tiveram grande peso nas vendas brasileiras para a China. Com isso, abriu-se mais espaço para itens industrializados e produtos com algum tipo de processamento, o que é positivo para o mercado de trabalho e a arrecadação do país.
O crescimento das exportações de produtos processados também indica um avanço na agregação de valor, ou seja, o Brasil está deixando de vender apenas matéria-prima e passando a exportar bens com mais etapas de produção, o que geralmente significa preços melhores e mais empregos gerados internamente.
Queda nas exportações de carnes para a China
Mesmo com o bom desempenho da indústria de transformação, alguns produtos perderam espaço no mercado chinês. Um exemplo é a carne de frango, que deixou de ter a China como seu principal destino. No ano passado, o país asiático liderava as compras dessa proteína, mas agora caiu para o quarto lugar, ficando atrás de Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Japão.
O mesmo aconteceu com a carne suína, que também perdeu força. A China, que antes era o maior comprador, passou para a terceira posição, atrás das Filipinas e do Japão. Essa mudança tem relação com o aumento da produção local de carne e com o foco brasileiro em outros mercados, principalmente no Oriente Médio, onde o consumo vem crescendo rapidamente.
Mesmo assim, o país asiático continua sendo um dos maiores clientes da agropecuária nacional, especialmente na compra de soja e carne bovina, produtos que ainda ocupam boa parte das exportações.
Ferroligas e produtos industriais puxam crescimento
Outro destaque do levantamento do CEBC foi o aumento nas exportações de ferroligas, misturas de ferro com outros metais muito usadas na produção de aço, baterias e equipamentos eletrônicos. Esses itens tiveram alta de 49% nas vendas para a China no acumulado do ano, resultado de uma demanda maior do país por insumos ligados à indústria tecnológica e à transição energética, como carros elétricos e painéis solares.
Esse movimento reforça uma tendência de que a China está consumindo mais produtos industriais e tecnológicos, o que pode beneficiar o Brasil em áreas que vão além do agronegócio. Produtos como celulose, ferroligas e alimentos processados estão ajudando a ampliar a presença da indústria nacional no comércio com o gigante asiático.
China segue como principal parceira comercial do Brasil
Mesmo com pequenas variações nas vendas de um produto ou outro, a China segue sendo o maior comprador de produtos brasileiros. Entre janeiro e setembro, o Brasil exportou US$ 75,5 bilhões ao país (cerca de R$ 420 bilhões). Esse montante representa quase 30% de tudo o que o país vendeu ao exterior nesse período, praticamente o triplo da participação dos Estados Unidos, que ficaram em segundo lugar, com 11,3%.
Por outro lado, as importações vindas da China também cresceram, subindo 15,4% no mesmo intervalo. Hoje, cerca de um quarto de tudo o que o Brasil compra do exterior vem de lá, desde produtos eletrônicos e equipamentos industriais até roupas e itens de consumo diário.
Esse relacionamento comercial intenso mostra que a economia dos dois países está fortemente conectada. A diferença é que o Brasil, aos poucos, tem buscado vender produtos com mais valor agregado, o que ajuda a movimentar a indústria, gerar empregos e melhorar a renda das famílias.
Além de reforçar a importância da China para o comércio exterior brasileiro, o aumento da presença da indústria nas exportações indica que o país pode estar iniciando uma mudança positiva na estrutura de suas vendas externas, tornando-se menos dependente das matérias-primas e mais competitivo em produtos com tecnologia e processamento.