A operação deflagrada pela Polícia Federal e a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central colocaram o Banco Master no centro das atenções em todo o país. É um dos episódios mais relevantes do setor financeiro brasileiro nos últimos anos, reunindo denúncias de fraudes, prisões, bloqueios bilionários e consequências diretas para milhões de correntistas.
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Operação Compliance Zero e início das investigações
A Polícia Federal iniciou a Operação Compliance Zero na terça-feira, 18 de novembro, investigando a emissão de títulos de crédito falsos por instituições financeiras. A apuração, aberta em 2024 por requisição do Ministério Público Federal, apontou a possível fabricação de carteiras de crédito sem lastro, vendidas a outras instituições e posteriormente substituídas por diferentes ativos sem avaliação técnica adequada.
Segundo a PF, foram cumpridos cinco mandados de prisão preventiva, dois de prisão temporária e 25 de busca e apreensão nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e no Distrito Federal. Houve ainda bloqueio judicial de R$ 12,2 bilhões, além da apreensão de carros de luxo, obras de arte e relógios.
Entre os presos está Augusto Lima, ex-sócio e ex-CEO do Banco Master, encontrado com R$ 1,7 milhão em espécie. A PF também cumpriu mandado de busca contra o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, afastado junto a três diretores.
Prisão de Daniel Vorcaro e situação financeira do banco
Na noite de 17 de novembro, o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foi preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos antes de embarcar para Dubai. A PF antecipou a prisão para impedir uma possível fuga.
Dados do Banco Central atualizados em março de 2025 mostram que o Banco Master registrava patrimônio líquido de R$ 3,214 bilhões, R$ 86,4 bilhões em ativos e R$ 83,2 bilhões em passivos. Em 2024, a instituição tinha patrimônio líquido de R$ 4,7 bilhões e lucro líquido de R$ 1 bilhão, o dobro de 2023, segundo a DRE do próprio banco.
Defesa e tentativas de venda da instituição
A defesa de Vorcaro afirmou que a viagem aos Emirados Árabes Unidos estava relacionada à venda do banco. Em nota enviada à imprensa, argumentou que o empresário havia anunciado a venda da instituição e se disponibilizado a colaborar com autoridades.
Ao longo do ano, o Master buscou compradores. O BRB (Banco de Brasília) chegou a aprovar a compra de 58 por cento do capital total, correspondentes a R$ 23 bilhões em ativos, porém o Banco Central rejeitou a operação devido ao risco de sucessão, que poderia transferir ao BRB responsabilidades e passivos do Master não previstos na transação.
Na noite de segunda-feira, a Fictor Holding Financeira anunciou a compra do banco, mas o negócio foi suspenso após a liquidação extrajudicial. Técnicos em Brasília afirmaram à CNN Brasil que o suposto interesse poderia ter funcionado como manobra para dar tempo a Vorcaro para tentar deixar o país.
Liquidação extrajudicial e impactos para clientes
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de sua corretora de câmbio. A decisão foi assinada pelo presidente da instituição, Gabriel Galípolo. Com o ato, os bens dos controladores e ex-administradores ficam indisponíveis.
Segundo o BC, a liquidação é aplicada em casos de insolvência irrecuperável ou infrações graves às normas do Sistema Financeiro Nacional. A partir da determinação, as operações do banco são encerradas de forma organizada e passam ao controle de um liquidante.
Atuação do Fundo Garantidor de Crédito
O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) confirmou que iniciará o pagamento das garantias a partir do envio da base de dados pelo liquidante. O FGC garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ e até R$ 1,6 milhão por pessoa em um período de quatro anos, caso haja quebras de mais de uma instituição nesse intervalo.
A operação será a maior já realizada pelo fundo, superando o caso Bamerindus. O FGC estima 1,6 milhão de credores com depósitos e investimentos elegíveis, somando aproximadamente R$ 41 bilhões.
Históricos semelhantes: Bamerindus, Santos e Cruzeiro do Sul
O Bamerindus entrou em intervenção em 1997 com patrimônio negativo de R$ 4,2 bilhões, sendo posteriormente adquirido pelo banco HSBC. O espólio foi comprado pelo BTG Pactual em 2013 por R$ 418 milhões, após desembolso extra do FGC de R$ 3,5 bilhões.
O Banco Santos foi liquidado em 2007 após a identificação de fraudes que elevaram o rombo para R$ 2,236 bilhões. Já o Cruzeiro do Sul teve liquidação decretada em 2012 após constatação de créditos fictícios que geraram prejuízo de R$ 1,3 bilhão.
Reações do governo e efeitos para a União
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que o governo dará suporte ao Banco Central no processo. Estima-se que a liquidação do Master não gere prejuízo para a União nem afete o gerenciamento da dívida pública.