Um levantamento divulgado pela Starbem, empresa focada em saúde mental corporativa, indica que a saúde mental dos trabalhadores brasileiros tende a piorar conforme o porte das empresas aumenta. A análise avaliou 5.900 colaboradores de 89 companhias de diferentes setores e tamanhos e revelou que o problema central não está, necessariamente, no excesso de tarefas, mas na forma como o trabalho interfere na vida pessoal e emocional dos profissionais.
O estudo analisou riscos psicossociais no ambiente corporativo, conceito que reúne fatores relacionados à organização do trabalho, relações interpessoais, liderança, autonomia e equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Segundo os dados, o risco psicossocial médio identificado foi de 38% em empresas de pequeno porte, subiu para 40,6% nas médias e chegou a 46% nas grandes corporações.
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Volume de tarefas não é o principal fator de risco
Um dos pontos que mais chamaram atenção no levantamento foi o fato de que a sobrecarga de tarefas não apareceu como o principal fator de adoecimento emocional. Os indicadores de carga cognitiva, que medem excesso de demandas e acúmulo de funções, permaneceram relativamente baixos em empresas pequenas e médias, variando entre 9% e 25%.
Esse dado reforça a conclusão de que o desgaste emocional não está diretamente ligado apenas à quantidade de trabalho, mas à maneira como ele se organiza e impacta a rotina fora do expediente. A interferência constante do trabalho na vida pessoal aparece como elemento mais relevante do que o volume de atividades em si.
Dificuldade de conciliar trabalho e vida pessoal
Entre todas as dimensões avaliadas, a conciliação entre trabalho e família foi a que apresentou os piores indicadores. Nas empresas médias, o risco psicossocial associado a esse fator chegou a 73,1%, o maior índice registrado no estudo. Isso significa que, mesmo sem excesso de tarefas, a rotina profissional tem se sobreposto às necessidades pessoais e familiares dos trabalhadores.
Nas grandes empresas, esse desafio também se mostrou presente, ainda que com percentuais ligeiramente menores do que nas médias. A dificuldade de estabelecer limites claros entre horários de trabalho e vida privada aparece como um problema recorrente em estruturas mais complexas, com múltiplos níveis hierárquicos e maior formalização de processos.
Relação com a liderança aparece como gargalo
O levantamento também aponta a relação entre colaboradores e liderança como um dos principais pontos de atenção no ambiente corporativo. Em grandes empresas, o risco associado ao suporte social e à gestão varia entre 52% e 56%. Esses números indicam distanciamento entre líderes e equipes, baixa percepção de reconhecimento e falhas na comunicação interna.
Em empresas menores, embora os índices sejam menos elevados, a sensação de valorização insuficiente também aparece nos relatos analisados. A falta de feedback estruturado, de clareza sobre expectativas e de canais de diálogo consistentes contribui para o aumento do desgaste emocional.
Ansiedade e depressão atingem trabalhadores de todos os portes
A ansiedade surge no estudo como um problema transversal, presente em empresas de todos os tamanhos. Nas pequenas, 30% dos trabalhadores apresentam alta propensão ao transtorno. Nas médias, o índice médio é de 28%, podendo chegar a quatro em cada dez colaboradores em determinadas áreas. Já nas grandes empresas, 25,5% dos profissionais estão em nível elevado de risco para ansiedade.
Os dados relacionados à depressão seguem tendência semelhante. Em empresas de pequeno porte, 11,3% dos colaboradores apresentam risco elevado. Nas médias, o percentual sobe para 14%, enquanto nas grandes fica em 13%. Os números mostram que o adoecimento emocional não está restrito a um único tipo de organização, ainda que os fatores que contribuem para isso variem conforme a estrutura empresarial.
Complexidade organizacional amplia riscos psicossociais
Outro aspecto analisado foi a relação entre complexidade organizacional e risco psicossocial. Empresas pequenas apresentaram índices que variam entre 25% e 34%. Nas médias, os percentuais ficaram entre 29% e 48%. Já nas grandes corporações, o risco oscilou entre 45% e 52%, classificação considerada médio-alta pelos critérios do estudo.
Segundo a Starbem, ambientes altamente estruturados, mas com baixo nível de conexão entre áreas, líderes e equipes, tendem a ampliar o desgaste emocional. Processos rígidos, comunicação fragmentada e pouca previsibilidade da rotina contribuem para a sensação de falta de controle e pertencimento.
Saúde mental como tema estratégico nas empresas
A empresa responsável pelo levantamento destaca que os dados apontam uma mudança importante na compreensão sobre o adoecimento no trabalho. O desgaste emocional não decorre exclusivamente de metas agressivas ou da busca por produtividade, mas da qualidade das interações, da clareza dos processos internos e da previsibilidade da rotina profissional.
O estudo também relaciona a saúde mental a fatores estratégicos das organizações, como retenção de talentos, engajamento das equipes e sustentabilidade operacional. Ambientes que não conseguem equilibrar demandas profissionais com necessidades individuais tendem a enfrentar maiores índices de rotatividade e queda de desempenho.
Impacto da saúde mental nas finanças
Problemas de saúde mental afetam a produtividade do trabalhador, seja por afastamentos, seja pela queda de rendimento durante a jornada. Quando isso acontece em larga escala, o reflexo aparece no desempenho das empresas e, por consequência, no crescimento da economia. O Produto Interno Bruto, conhecido como PIB (Produto Interno Bruto) e calculado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), depende diretamente da capacidade de produção de bens e serviços. Ambientes de trabalho com altos níveis de risco psicossocial tendem a produzir menos, mesmo mantendo o mesmo número de empregados.
Aumento de custos para empresas
Do ponto de vista financeiro, empresas com maior incidência de ansiedade e depressão enfrentam custos mais elevados com afastamentos, rotatividade e processos de recrutamento. A substituição de um funcionário envolve gastos com rescisão, seleção e treinamento, além da perda de conhecimento acumulado. Esses custos não aparecem imediatamente no balanço, mas reduzem a margem de lucro ao longo do tempo e afetam a capacidade de investimento.
Pressão sobre o sistema de saúde
O adoecimento mental relacionado ao trabalho também impacta as contas públicas. Aumento de afastamentos e licenças médicas eleva os gastos da Previdência Social, ligada ao Instituto Nacional do Seguro Social, o INSS. Benefícios como auxílio-doença representam desembolsos diretos do orçamento público. Esse movimento pressiona as finanças do governo e pode influenciar decisões fiscais e orçamentárias.
Renda, consumo e finanças pessoais
Para o trabalhador, problemas de saúde mental afetam a renda disponível. Afastamentos prolongados ou redução da capacidade de trabalho podem diminuir ganhos mensais, o que impacta o consumo. Em um cenário de inflação ainda relevante, como acompanha o Banco Central do Brasil, queda de renda significa menor poder de compra.
Mercado de trabalho e competitividade
Empresas com ambientes mais saudáveis tendem a reter talentos e operar com maior eficiência. Já aquelas com altos níveis de desgaste emocional enfrentam dificuldades para atrair profissionais qualificados, o que reduz competitividade. Em setores estratégicos, essa perda de eficiência pode afetar cadeias inteiras da economia, influenciando preços, prazos e qualidade de serviços.
Reflexos macroeconômicos
Em escala nacional, a soma desses fatores influencia indicadores como crescimento econômico, nível de emprego e arrecadação de impostos. Menor produtividade e maior afastamento reduzem a base de arrecadação, enquanto aumentam despesas sociais. O resultado é um impacto indireto sobre políticas públicas, juros e investimentos, temas centrais da política econômica.
Assim, a saúde mental no ambiente corporativo deixa de ser apenas uma questão de bem-estar individual e passa a integrar o debate econômico e financeiro, com efeitos que se estendem do orçamento das famílias às contas das empresas e do Estado.


