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Primeiro dia da COP30 tem metas climáticas, ausência dos EUA, protestos indígenas e chuva forte em Belém

A COP30, Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, começou nesta segunda-feira, 10 de novembro, em Belém (PA). O encontro, organizado pela Organização das Nações Unidas (ONU), vai até 21 de novembro. Durante esses dias, governos, cientistas, organizações ambientais, povos indígenas e movimentos sociais discutem medidas para reduzir o aquecimento global.

Preços dos alimentos na COP30 chamam a atenção no início do evento
É a primeira vez que o Brasil recebe uma cúpula do clima desde a ECO-92, no Rio de Janeiro / Foto: Reproduçao / Divulgacao / COP30

Também é a primeira edição realizada dentro da Amazônia, região que convive com queimadas, desmatamento, calor extremo e enchentes.

Abertura oficial tem eleição do presidente da COP e apresentações culturais

A cerimônia de abertura reuniu representantes de dezenas de países. O diplomata brasileiro André Corrêa do Lago foi escolhido presidente da conferência por aclamação, quando os países aprovam o nome sem votação. Depois do anúncio, ele foi aplaudido e cumprimentou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que discursou na abertura da conferência.

Lula discursa na COP30
O presidente encerrou convidando visitantes a conhecer a cultura paraense, citando pratos típicos como a maniçoba / Foto: Reproduçao / Divulgacao / COP30

Sem citar países diretamente, Lula criticou líderes que não compareceram à COP30 e afirmou que “os homens que fazem guerra” gastam mais com conflitos armados do que o mundo investe para combater a crise climática. Ele mencionou que, no ano passado, os gastos militares chegaram a cerca de US$ 2,7 trilhões (aproximadamente R$ 13,5 trilhões), enquanto o financiamento climático global continua distante da meta anual de US$ 1,7 trilhão (cerca de R$ 8,5 trilhões).

Lula também defendeu a escolha de Belém como sede da conferência por estar na Amazônia e disse que realizar a COP na região prova que é possível organizar um evento mundial mesmo enfrentando desafios estruturais.

A abertura também teve música. A ministra da Cultura, Margareth Menezes, cantou ao lado da paraense Fafá de Belém, que apresentou a canção “Amazônia”, acompanhada por imagens da floresta.

A plateia se levantou para aplaudir as artistas | Foto: Reprodução/Divulgacão/COP30

Na noite anterior, o Theatro da Paz recebeu a estreia mundial da ópera “I-Juca-Pirama”, com libreto de Paulo Coelho e música de Gilberto Gil e Aldo Brizzi. O espetáculo mistura canto lírico com referências à história indígena e aos impactos ambientais. Integrantes do povo huni kuin participaram da montagem e da plateia, onde incentivaram os artistas com cantos tradicionais.

Entrega das metas climáticas atinge 110 países

Um dos primeiros números divulgados na COP30 foi a atualização das NDCs, sigla em inglês para Nationally Determined Contributions, que significa Contribuições Nacionalmente Determinadas.

Esses documentos são enviados à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), órgão da ONU responsável pelas negociações climáticas. Nas NDCs, cada governo explica como pretende diminuir a emissão de gases de efeito estufa, como dióxido de carbono e metano.

Esses gases aprisionam calor na atmosfera e aumentam a temperatura do planeta, causando secas, enchentes e ondas de calor mais intensas. As metas fazem parte do Acordo de Paris, assinado em 2015, que obriga todos os países a atualizar seus compromissos a cada cinco anos.

Com as novas entregas, a lista chegou a 110 NDCs registradas, o que corresponde a 71% de toda a poluição mundial. O aumento aconteceu principalmente porque os 27 integrantes da União Europeia registraram suas cópias individuais, além do documento conjunto do bloco.

Apesar do avanço, muitos governos continuam fora da lista. O prazo oficial para envio era fevereiro, foi estendido para setembro, e mesmo assim 87 NDCs seguem pendentes. Entre os dez maiores emissores do planeta, três não apresentaram seus compromissos: Índia, Irã e Arábia Saudita, países que têm economias fortemente ligadas ao petróleo e ao gás natural.

Compromissos continuam abaixo do necessário para conter o aquecimento

A UNFCCC divulgou um relatório analisando os documentos recebidos. Segundo o estudo, se todas as metas forem cumpridas, a poluição global deve cair 12% até 2035, em comparação com os níveis de 2019.

No entanto, pesquisadores apontam que essa queda ainda é pequena. Para impedir que a temperatura da Terra suba além de 1,5 °C, limite considerado seguro, seria preciso uma redução de pelo menos 60%. Ou seja, os compromissos atuais ajudam a frear o pior cenário, mas ainda estão longe do necessário.

Mesmo assim, o relatório considera que houve progresso. Antes do Acordo de Paris, a previsão era de aumento da poluição global até 2035. Com as metas já registradas, a tendência é que as emissões parem de crescer e iniciem uma queda lenta. Esse ponto é chamado de “pico de emissões”: quando a curva deixa de subir e começa a descer.

A distância entre as metas e o que a ciência exige deve gerar discussões nas próximas rodadas de negociação. O bloco dos pequenos países insulares, formado por nações ameaçadas pelo aumento do nível do mar, pediu que essa diferença seja tratada oficialmente na COP. A decisão sobre incluir ou não o tema deve sair até quarta-feira (12).

Ausência dos Estados Unidos marca a abertura

Durante a plenária, um detalhe chamou atenção: a cadeira reservada aos Estados Unidos ficou vazia. O país não enviou delegação e manteve o boicote às negociações climáticas. O presidente Lula havia pedido publicamente a presença dos EUA, mas não houve resposta.

A ausência foi vista como um gesto político importante, já que os Estados Unidos são o segundo maior emissor de gases de efeito estufa do planeta. Sem o país, acordos globais perdem parte da força diplomática.

Fora dos pavilhões: protestos, flotilha indígena e chuva forte

Enquanto os debates ocorriam dentro do Parque da Cidade, o lado de fora também movimentou o primeiro dia. Pela manhã, um grupo da Caravana Sul-Americana, formado por povos indígenas de vários países, protestou na entrada principal da conferência. Com faixas e cantos de guerra, eles pediram mais participação nas negociações. Alguns ativistas deitaram no chão simulando corpos, representando indígenas mortos em conflitos ligados ao desmatamento e à exploração da floresta.

Protesto na COP30
O protesto chamou a atenção de quem chegava ao local | Foto: Reprodução / Laís Nunes / TV Liberal

Outro grupo indígena chegou a Belém após uma longa viagem. A flotilha Yaku Mama, expressão que significa “mãe água” em uma língua ancestral, navegou mais de 3.000 quilômetros pelo rio Amazonas. Participaram representantes do Equador, Peru, Colômbia, Guatemala, Indonésia e Brasil. Segundo o grupo, a viagem simboliza a defesa dos rios e mostra que os povos da floresta estão entre os primeiros atingidos pela crise climática.

No início da tarde, uma chuva intensa provocou alagamentos dentro da conferência. A Zona Azul, que reúne pavilhões de países e áreas de alimentação, ficou com trechos inundados. Parte do acesso aos ônibus precisou ser bloqueada. Algumas pessoas não conseguiram circular até a água diminuir.

Mesmo nas áreas cobertas, o barulho da chuva era tão forte que atrapalhou entrevistas e coletivas de imprensa. O alto comissário da Agência da ONU para Refugiados (Acnur), Filippo Grandi, disse que não conseguia ouvir as perguntas dos jornalistas.

Além da tempestade, a Polícia Federal divulgou um balanço sobre segurança. Nos dias 6 e 7 de novembro, antes da abertura oficial, foram detectadas 237 aeronaves não tripuladas, conhecidas como drones, sobrevoando áreas próximas ao evento. Desse total, 27 foram bloqueadas para evitar riscos às delegações e ao público.

Novas iniciativas marcam o início da conferência

O primeiro dia também teve anúncios que envolvem recursos, tecnologia e recuperação ambiental. Uma das novidades foi a doação da Suíça ao Fundo Amazônia, instrumento que financia projetos de combate ao desmatamento e iniciativas sociais na região. O país destinou 5 milhões de francos suíços, cerca de R$ 33 milhões, em uma cerimônia com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, e embaixadores.

Também foi apresentada a iniciativa internacional RAIZ, ligada ao Ministério da Agricultura e Pecuária do Brasil. O nome vem da sigla em inglês Resilient Agriculture Investment for Net Zero Land Degradation, traduzida como “Investimento em Agricultura Resiliente para Degradação Zero”. O objetivo é recuperar terras agrícolas destruídas por erosão, queimadas e uso inadequado do solo.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) estima que 2 bilhões de hectares estejam degradados no planeta, o que afeta 3,2 bilhões de pessoas e ameaça a produção de alimentos.

Outro destaque foi o lançamento do Macaozinho, ferramenta de inteligência artificial criada para funcionar durante a COP30. A plataforma pode responder perguntas em mais de 50 idiomas e foi treinada com documentos oficiais da ONU, como relatórios científicos e textos de acordos internacionais. O projeto busca facilitar o entendimento do público e evitar a circulação de informações falsas.

Ao longo do dia, a Zona Azul também recebeu encontros entre governos, bancos públicos e organizações internacionais. As conversas trataram de financiamento para adaptação climática, combate à fome, tecnologias digitais e futuras metas globais.

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