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Futebol feminino: a construção de um mercado sustentável e o impacto da Copa do Mundo no Brasil

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O futebol feminino brasileiro vive um momento raro e precioso, desses que podem mudar a história de uma modalidade inteira. O crescimento da audiência, o aumento de investimentos e a valorização cada vez maior das atletas desenham um cenário promissor. Mas, para que essa evolução não seja apenas uma maré passageira, o desafio é construir bases sólidas que sustentem esse crescimento no longo prazo.

Futebol feminino no Brasil e o impacto da Copa de 2027
União e determinação marcam a trajetória da Seleção Brasileira de Futebol Feminino | Foto: Reprodução/Gazeta Press

A confirmação do Brasil como sede da Copa do Mundo Feminina de 2027 adiciona um novo capítulo a essa história. Mais do que um evento esportivo, a Copa é uma vitrine de possibilidades, capaz de atrair investimentos, despertar o interesse de novas marcas e consolidar o futebol feminino como parte essencial da indústria esportiva brasileira.

Para entender as oportunidades e os obstáculos desse caminho, ouvimos Nina Brandão, Head Comercial de Futebol Feminino na LiveMode, e Anderson Santos, professor e pesquisador da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Ao longo desse texto, conectamos suas reflexões aos números, contextos e estratégias que ajudam a construir um panorama completo do presente e do futuro do futebol feminino no Brasil.

O crescimento da audiência e o potencial de mercado

Os números falam por si: o futebol feminino vem conquistando um espaço cada vez maior no coração e na rotina dos torcedores. A Copa do Mundo Feminina de 2023 alcançou a impressionante marca de 2 bilhões de espectadores globais, superando todas as expectativas da FIFA. No Brasil, a Seleção Brasileira atraiu uma audiência média de 8 milhões de espectadores por jogo na TV Globo, com a final registrando recordes históricos.

Mas não é só na TV que esse movimento acontece. Nas redes sociais, a competição ultrapassou 200 milhões de interações, mostrando que a conexão entre torcedores e futebol feminino é cada vez mais digital e imediata.

Esse novo público também tem um perfil diferente. Levantamentos da Nielsen indicam que os torcedores do futebol feminino são, em grande parte, jovens, digitalmente conectados e atentos às marcas que se associam ao esporte que eles consomem. Para a Geração Z, o futebol feminino é mais do que uma modalidade: é um símbolo de diversidade, inclusão e novas narrativas.

Esse novo contexto é, para Nina Brandão, uma peça-chave na transformação do mercado:

“As marcas perceberam que o futebol feminino conecta com valores sociais importantes, como igualdade de gênero e inclusão. Esse alinhamento gera engajamento genuíno com o público e impacta diretamente no retorno dos investimentos.”

Investimentos e modelos de negócio: como a indústria está se transformando?

O interesse crescente das marcas e o aumento da visibilidade criaram um ambiente favorável para novos investimentos. Clubes como o Barcelona e o Chelsea Feminino ultrapassaram a marca de 10 milhões de euros em faturamento anual. No Brasil, clubes como Corinthians e Palmeiras criaram departamentos dedicados exclusivamente ao futebol feminino, o que vem impulsionando receitas de patrocínio e direitos de transmissão.

Entre esses ativos financeiros, os direitos de transmissão ocupam um papel central. Em 2023, a FIFA tomou uma decisão estratégica: vender os direitos da Copa do Mundo Feminina separadamente, garantindo um crescimento expressivo da receita. No Brasil, a LiveMode é uma das principais articuladoras dessa nova fase, negociando acordos estratégicos para ampliar a visibilidade da modalidade.

Para Anderson Santos, essa mudança de postura é fundamental para garantir a sustentabilidade do futebol feminino:

“O futebol feminino precisa se desvincular da dependência do masculino e criar seu próprio modelo de negócios. Isso significa estabelecer contratos sólidos de transmissão, diversificar as fontes de receita e construir uma base de torcedores fiéis.”

Nina Brandão reforça esse olhar, destacando que o amadurecimento do mercado passa necessariamente pela construção de parcerias consistentes: “Estamos vendo um interesse crescente das empresas em investir na modalidade. O desafio agora é transformar esse interesse em parcerias de longo prazo, garantindo previsibilidade financeira para os clubes e jogadoras.”

A Copa do Mundo Feminina de 2027 e o impacto no Brasil

Com a confirmação do Brasil como sede da Copa do Mundo Feminina de 2027, o futebol feminino nacional ganha uma vitrine de proporções inéditas. Além da movimentação bilionária prevista em infraestrutura, turismo e consumo, o evento tem o potencial de posicionar o Brasil como um dos centros globais da modalidade.

Mas, para Anderson Santos, o maior impacto talvez nem esteja nos dias de competição:

“O legado da Copa pode transformar o futebol feminino brasileiro, desde a estruturação de um calendário mais forte até o desenvolvimento de categorias de base mais robustas. O desafio é garantir que os investimentos não sejam apenas pontuais, mas gerem um impacto duradouro.”

Para Nina Brandão, essa movimentação já começou — e quem quer estar na Copa, precisa entrar em campo desde já.

“As marcas que querem estar na Copa de 2027 já estão se posicionando agora. Isso cria um ambiente de crescimento sustentável, onde o futebol feminino deixa de ser apenas uma aposta e se torna um investimento estratégico.”

Desafios e estratégias para a consolidação do futebol feminino

Mesmo com tantos avanços, a modalidade ainda carrega desafios estruturais importantes no Brasil. Entre eles, três pontos merecem atenção especial:

  • Formação de base: apenas 40% dos clubes brasileiros têm equipes de base femininas, o que limita o surgimento de novas gerações de jogadoras.
  • Desigualdade salarial: enquanto algumas atletas da elite já possuem contratos competitivos, a maior parte das jogadoras brasileiras ainda vive uma realidade de baixos salários e pouca segurança contratual.
  • Infraestrutura: muitas equipes enfrentam dificuldades para ter acesso a campos, centros de treinamento e condições mínimas para o desenvolvimento profissional.
Futebol feminino no Brasil e o impacto da Copa de 2027
A formação de base é essencial para o futuro do futebol feminino no Brasil | Foto: Reprodução/ Silvana Rust

Para Anderson Santos, a chave para superar esses desafios está na governança e na profissionalização da gestão esportiva.

“Precisamos de mais profissionalização na gestão do futebol feminino. Isso envolve um plano estratégico de longo prazo, maior transparência nos investimentos e a criação de uma estrutura sólida de competições.”

Nina Brandão complementa, lembrando que o público também é peça-chave nessa construção.

“A torcida tem um papel fundamental nesse processo. Quanto mais pessoas assistirem aos jogos, comprarem ingressos e consumirem produtos ligados ao futebol feminino, mais sustentável será esse mercado.”

O futebol feminino como ativo econômico

Mais do que um movimento esportivo, o futebol feminino é um mercado em expansão, com potencial para movimentar bilhões de reais nos próximos anos. O crescimento da audiência, o interesse de grandes marcas e a realização da Copa do Mundo de 2027 consolidam a modalidade como um ativo estratégico — para empresas, investidores e, claro, para o próprio Brasil.

A grande missão é transformar esse momento de ascensão em um ciclo contínuo de crescimento. Isso passa pela diversificação de receitas, ampliação do calendário de competições e investimento constante em infraestrutura e formação de talentos.

Futebol feminino no Brasil e o impacto da Copa de 2027
O crescimento do futebol feminino no Brasil impulsiona a paixão e o engajamento das torcedoras | Foto: Reprodução/Midia Ninja

O caminho está claro. E cada torcedor, cada patrocinador e cada gestora ou gestor que acredita no futuro do futebol feminino tem, nas mãos, a chance de escrever essa história. Porque o futuro da modalidade não será obra do acaso — ele será construído, passo a passo, por todos que acreditam que o futebol feminino é, sim, um dos ativos mais promissores do Brasil.



Sobre o autor Ana Paula Garcez

Força impulsionadora para comunicação e relacionamentos no esporte. Jornalista, Produtora de grandes eventos. Filha de mineiro com baiana, nascida em São Paulo e vive pelo mundo.

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