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Impressos voltam à moda: revistas femininas renascem com estratégia

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Nos últimos anos, a máxima de que o jornalismo impresso estava com os dias contados parecia incontestável. Com a migração da publicidade para o digital e a queda nas vendas de exemplares físicos, muitas publicações tradicionais encerraram suas edições em papel.

No entanto, em um movimento contraintuitivo, algumas revistas femininas estão ressurgindo no formato impresso com sucesso, provando que há, sim, espaço para o papel no mundo digital — desde que com estratégia.

Em um mundo dominado por telas, o toque e o cheiro do papel continuam exercendo seu encanto — e provam que, no jornalismo, a experiência sensorial ainda importa | Foto: Reprodução/Canva
Em um mundo dominado por telas, o toque e o cheiro do papel continuam exercendo seu encanto — e provam que, no jornalismo, a experiência sensorial ainda importa | Foto: Reprodução/Canva

Publicações icônicas como Elle, Capricho, Billboard Brasil e Manchete apostaram em edições físicas com edições limitadas, linguagem repaginada, qualidade premium e forte conexão emocional com seu público. O objetivo vai além de vender revistas: trata-se de consolidar a marca, criar desejo e gerar identificação.

O retorno da Elle: luxo, memória e conteúdo exclusivo

A Elle, símbolo da moda e do jornalismo feminista, voltou às bancas brasileiras em 2020, após ter sua circulação interrompida pela Editora Abril em 2018. Liderada por Susana Barbosa, que comanda o título há 25 anos, a nova fase da revista surgiu com uma proposta clara: não ser uma revista comum. “Criamos um produto para ser guardado, não jogado fora. Brinco que não é uma revista de banheiro, é de sala”, define a publisher.

Leia também: Tendências de marketing para o público feminino: o que esperar em 2025?

A Elle imprime apenas quatro edições por ano — em março, maio, setembro e dezembro — com material de alta qualidade e tiragens mais enxutas. Além disso, oferece um produto digital exclusivo para assinantes, o Elle View, com design de navegação própria. A marca aposta no impresso como item de luxo e forma de materializar sua robustez enquanto veículo independente.

Capricho: memória afetiva e nova linguagem

Outro exemplo de sucesso é o retorno da Capricho. Ícone entre adolescentes desde sua criação, em 1952, a revista deixou de circular em papel em 2015, mantendo-se apenas no digital. Mas em dezembro de 2024, após uma década, voltou às bancas com uma edição especial estrelada por Bianca Andrade. A resposta do público foi imediata: 80% da tiragem esgotou rapidamente.

“Até hoje, tem gente procurando a edição. E não são só os nostálgicos: os adolescentes de 15, 18 anos também pediam a volta do impresso”, conta Andréa Martinelli, editora-chefe da publicação. O sucesso da edição de dezembro levou à decisão de publicar duas revistas físicas por ano, em julho e dezembro.

Além da volta ao impresso, a Capricho passou por um rebranding com nova identidade visual e editorial. O slogan atual, “Manifeste, desobedeça, seja você”, reflete a postura mais direta e engajada da publicação. A proposta é continuar sendo referência entre os jovens, com conteúdo aprofundado, mas acessível.

Billboard e Manchete: tradição aliada à estratégia

A Billboard Brasil, relançada em 2023, também optou por um modelo híbrido. Com edições a cada 45 dias e capas duplas, a publicação investe em material sofisticado, pôsteres e layouts diferenciados. Camila Zana, CMO da revista, explica que a volta do impresso segue uma diretriz global da marca: “A revista é um objeto de desejo para fãs, com fotos exclusivas, entrevistas e um design que valoriza o artista e o público”.

Já a Manchete, relançada em março de 2025 após 25 anos fora de circulação, apostou em um formato quadrado, com 140 páginas de papel couchê fosco. A proposta, segundo Marcos Salles, idealizador do retorno, é transformar a revista em um retrato positivo do Rio de Janeiro e, ao mesmo tempo, manter viva a tradição do fotojornalismo que marcou a publicação. “A nova Manchete é multiplataforma. Está na TV, site, YouTube e redes sociais. O conteúdo pode ser lido, assistido ou ouvido”, reforça.

O impresso como extensão da marca

A principal lição desses relançamentos é que o impresso deixou de ser o centro do negócio e passou a ser uma extensão da identidade da marca. “Ter um escritório físico e voltar com o impresso ajudou a mostrar que era uma operação robusta, e não algo improvisado”, explica Susana Barbosa, da Elle.

Esse retorno só é possível graças a marcas consolidadas que têm uma base fiel de leitores. Para novas publicações, o caminho ainda é mais desafiador. Mas, para quem já tem história, o impresso se tornou um diferencial competitivo e emocional.

Além disso, a presença em múltiplas plataformas é essencial. Vídeos, podcasts, redes sociais e sites acompanham as edições impressas, criando uma rede de conteúdos complementares e ampliando o alcance. A Billboard, por exemplo, investe em programas originais, sessões acústicas e eventos presenciais para engajar seu público.

O papel ainda tem força — com inteligência

A volta das revistas femininas impressas mostra que o papel não está morto. Ele só mudou de função. Hoje, o impresso é símbolo de exclusividade, tradição e posicionamento de marca. E, mais importante: ele atende a um desejo real dos leitores, principalmente quando associado à nostalgia, qualidade e conteúdo relevante.

Se bem executada, a estratégia do impresso pode não só gerar receita, como também fortalecer o relacionamento com o público. Em um mundo dominado por telas, o toque e o cheiro do papel continuam exercendo seu encanto — e provam que, no jornalismo, a experiência sensorial ainda importa.

Sobre o autor Rafaella Ranulfo

Jornalista especializada em assessoria e gestão da comunicação. Pós-graduanda em psicologia positiva, felicidade e bem-estar. Além de suas contribuções online, é autora de dois livros e criadora de conteúdo

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