A volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, completando seus primeiros 100 dias de mandato nesta terça-feira, 29 de abril, está longe de passar despercebida. Em pouco mais de três meses, sua política externa agressiva, especialmente contra a China, reacendeu tensões comerciais e impactou diretamente os mercados financeiros ao redor do mundo.

Se na primeira passagem pela Casa Branca o republicano já havia adotado um tom combativo, nesta segunda gestão a estratégia de tarifas e confrontos econômicos se intensificou. A retórica de “morde e assopra” contra parceiros comerciais, com destaque para a segunda maior economia do mundo, gerou instabilidade e tirou o brilho de bolsas importantes — inclusive nos Estados Unidos.
EUA: quedas em série nas bolsas após os 100 dias de Trump
O mercado americano, normalmente visto como um porto seguro por investidores globais, tem vivido dias difíceis. Desde a posse de Trump, o índice Dow Jones caiu 6,81%, enquanto o S&P 500, que reúne as 500 maiores empresas listadas nas bolsas dos EUA, recuou 7,27%.
O destaque negativo, porém, ficou com a Nasdaq, que abriga gigantes da tecnologia como Apple, Google e Amazon. A queda foi de 11,05%, a segunda pior entre os principais índices do mundo. O desempenho reflete o aumento da aversão ao risco por parte dos investidores, especialmente diante da possibilidade de novos impostos sobre componentes eletrônicos e a tensão no setor de semicondutores.
Com esses resultados, os mercados americanos acumulam perdas bilionárias. Considerando a desvalorização em dólares, os investidores que aplicaram em fundos atrelados ao S&P 500 ou Nasdaq viram parte de seu capital derreter. Em reais, a perda para um investidor brasileiro pode passar de R$ 55 mil para cada R$ 500 mil investidos, dependendo da exposição e da taxa de câmbio.
China e Argentina: entre disputas e quedas
Alvo principal das tarifas norte-americanas, a China respondeu com medidas igualmente duras, criando um cenário de tensão comercial que trouxe volatilidade às bolsas do país. A bolsa de Xangai operou com perdas moderadas, mas com forte oscilação nos setores mais afetados pelas sanções.
Já a Argentina teve o pior desempenho entre os mercados acompanhados pela consultoria Elos Ayta. O S&P Merval, principal índice do país, despencou 23,53% no período, refletindo não apenas o cenário internacional, mas também a crise econômica interna, marcada por inflação alta, incertezas políticas e fuga de capitais.
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Europa e México surpreendem com ganhos
Na contramão das perdas americanas e argentinas, a Europa aparece como destaque positivo. A Espanha lidera o ranking das bolsas que mais subiram, com alta de 26,6% em dólares. O índice IBEX foi impulsionado por uma combinação de estabilidade política, recuperação econômica pós-pandemia e entrada de investimentos estrangeiros em busca de alternativas aos EUA e à China.
O México também brilhou: o índice IPyC valorizou 23%, refletindo a boa performance de empresas de energia, construção e exportação. A geografia estratégica do país e seu papel como elo de ligação comercial entre EUA e América Latina foram fatores que ajudaram a atrair capital externo.
A Itália, por sua vez, emplacou um avanço de 19,56% com o FTSE MIB, apoiada na recuperação da indústria e na melhora das perspectivas fiscais do governo italiano.
E o Brasil?
Embora não esteja entre os extremos do ranking, o Brasil também sentiu os efeitos do cenário global. A B3, bolsa de valores brasileira, operou com volatilidade e terminou o período com oscilação próxima da estabilidade. A incerteza externa, somada aos debates sobre política fiscal e à espera por cortes na taxa Selic, deixou os investidores mais cautelosos.
Para o investidor brasileiro, o momento é de atenção. Fundos de ações atrelados ao mercado americano ou global sofreram perdas, enquanto ETFs que acompanham bolsas europeias ou latino-americanas — como o BOVA11 ou XINA11 — podem ter oferecido uma proteção interessante, especialmente com a alta do dólar, que superou os R$ 5,30 em abril.
O que esperar dos próximos meses do governo de Trump?
A continuidade das tensões comerciais entre EUA e China, somada às críticas públicas de Trump ao presidente do Federal Reserve, pode manter o clima de incerteza nos mercados. Ao atacar as decisões do banco central, Trump gera ruído em um ambiente que já é sensível à política monetária americana.
Investidores devem acompanhar de perto não só os desdobramentos da guerra comercial, mas também os dados econômicos dos EUA e as decisões de juros por lá, que têm impacto direto sobre moedas, bolsas e títulos em países emergentes como o Brasil.
Para quem investe, o conselho é diversificar. Aplicações em diferentes geografias, setores e moedas ajudam a proteger o patrimônio em momentos turbulentos — e os primeiros 100 dias de Trump provaram que o mundo ainda está longe de voltar à calmaria.


