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Investimentos travados: por que o brasileiro parou de aplicar?

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O mercado financeiro brasileiro parou de atrair novos investimentos em 2024, frustrando as expectativas de crescimento. Mesmo com um cenário de maior acesso à informação e ferramentas digitais, o número de pessoas que aplicam dinheiro em produtos financeiros se manteve estagnado, atingindo cerca de 59 milhões de brasileiros — o equivalente a 37% da população. Mais preocupante: 14 milhões desses investidores cogitam abandonar os aportes em 2025.

Seja você um investidor experiente ou alguém que ainda guarda dinheiro na poupança, a regra é a mesma: informação e planejamento são fundamentais | Foto: Reprodução/Canva investimento
Seja você um investidor experiente ou alguém que ainda guarda dinheiro na poupança, a regra é a mesma: informação e planejamento são fundamentais | Foto: Reprodução/Canva

Esses dados são da 8ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, pesquisa realizada pela Anbima em parceria com o Datafolha. O estudo aponta que, apesar da estabilidade, o cenário já pode ser considerado um avanço, considerando a conjuntura econômica atual: alta dos preços, perda do poder de compra e juros elevados.

Inflação, juros e o bolso apertado

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerrou 2024 com uma alta de 4,83%, ultrapassando o teto da meta de inflação estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional. Para conter o avanço dos preços, o Banco Central subiu a taxa Selic — medida que afeta diretamente o bolso do brasileiro.

De um lado, os juros mais altos beneficiam quem já investe, especialmente em renda fixa, que voltou a oferecer bons retornos. De outro, criam obstáculos para quem ainda está tentando formar uma reserva financeira. “O cenário atual favorece o patrimônio de quem já tem recursos aplicados, mas dificulta a entrada de novos investidores”, explica Felipe Carbonar, assessor da Monte Bravo Investimentos.

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Além disso, a Bolsa de Valores teve um desempenho negativo em 2024: o Ibovespa caiu 10,36% no acumulado do ano. Isso contribuiu para o desânimo de investidores iniciantes, que acabam vendo mais risco do que oportunidade.

Falta de inovação e desmotivação podem ser um dos pontos que impactou negativamente os investimentos

Outro ponto que impactou negativamente o mercado foi a ausência de novidades atrativas no setor financeiro. Produtos inovadores costumam movimentar o interesse do público, como ocorreu em 2021 com o lançamento do ETF de criptoativos HASH11. Em 2024, porém, não houve lançamentos de destaque.

“O investidor precisa ser provocado. Quando um produto novo chega, ele movimenta o mercado, gera discussão e atrai a atenção de quem ainda está de fora”, afirma Fernando Siqueira, head de Research da Eleven Financial.

A estrutura do mercado brasileiro também limita o crescimento. O número reduzido de empresas listadas na Bolsa e a baixa diversidade de produtos são apontados como entraves. “A combinação entre alta da Selic, cenário macroeconômico desafiador e um mercado restrito contribui para o ritmo lento de novos entrantes”, diz Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos.

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Barreiras comportamentais ainda são fortes

Mas os entraves vão além da economia. Há uma questão comportamental significativa. Muitos brasileiros, mesmo entre os mais ricos, têm dificuldade de se organizar financeiramente. “A organização é essencial para investir com segurança e regularidade. Sem isso, a pessoa se torna mais vulnerável a golpes ou promessas de retorno fácil”, explica Marcelo Billi, superintendente da Anbima.

A falta de metas claras também atrapalha. “Guardamos dinheiro sem saber exatamente por quê. Quando falta um objetivo concreto, qualquer imprevisto pode virar motivo para sacar os investimentos”, comenta Bruna Allemann, head da Mesa Internacional da Nomos.

Essa realidade é diferente da vivida por Melina Mayrink, profissional de Relações Internacionais de 26 anos, que começou a investir cedo, aos 20. “No início, optei por letras de crédito. Depois, fui diversificando. Só vi resultados reais quando passei a acompanhar de perto. Deixar o dinheiro parado é um erro. Investir nem sempre significa correr riscos grandes”, relata.

Caminhos possíveis: educação e acessibilidade

Apesar do cenário desafiador, os especialistas acreditam que o número de investidores pode voltar a crescer se houver incentivo à educação financeira e maior acessibilidade a produtos simples e rentáveis. O Tesouro Direto, por exemplo, é uma porta de entrada segura e democrática, acessível a partir de R$ 30.

Além disso, iniciativas públicas e privadas que tragam inovação ao mercado e simplifiquem o processo de investimento também são importantes. Quanto mais pessoas se sentirem seguras para investir, mais o país avança em termos de inclusão financeira.

Para 2025, a expectativa é de retomada, mas com cautela. Com a inflação sob controle e possível queda nos juros, o ambiente pode se tornar mais atrativo. Mas a confiança precisa ser recuperada — e isso leva tempo.

Seja você um investidor experiente ou alguém que ainda guarda dinheiro na poupança, a regra é a mesma: informação e planejamento são fundamentais. O Brasil ainda tem espaço para crescer no número de investidores, mas os obstáculos são reais — e vencê-los exige tanto mudanças econômicas quanto educacionais.

*Entrevistas concedidas ao Estadão.

Sobre o autor Rafaella Ranulfo

Jornalista especializada em assessoria e gestão da comunicação. Pós-graduanda em psicologia positiva, felicidade e bem-estar. Além de suas contribuções online, é autora de dois livros e criadora de conteúdo

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