A educação antirracista está ganhando força nas escolas públicas do Rio de Janeiro com a chegada do Programa de Educação Antirracista, promovido pela ONG Parceiros da Educação Rio. A iniciativa começa pelas escolas municipais São Tomás de Aquino, no Leme, e Pedro Ernesto, na Lagoa, e deve beneficiar, já neste mês, cerca de 50 professores e 295 alunos com ações práticas, oficinas culturais e rodas de conversa voltadas à valorização das culturas negra e indígena.

A proposta, que faz parte do projeto Lá Vem História, busca transformar a visão de educadores sobre a equidade racial e mostrar como a diversidade pode ser uma ferramenta essencial para a transformação social dentro e fora da escola. Com apoio da Secretaria Municipal de Educação, o programa vai levar um acervo de livros, oficinas culturais e visitas a locais históricos de importância afro-indígena.
Formação com arte, dança e literatura
O ponto central do programa é a formação de professores da rede municipal por meio de atividades que estimulam o contato com saberes diversos. Oficinas de jongo, capoeira, samba e danças indígenas estão entre as ações previstas. Além disso, os docentes participarão de atividades de mediação de leitura que incentivam o uso de literatura oral e escrita como instrumento de aprendizagem.
A iniciativa também prevê a doação de acervos com dez livros por escola, com obras de autoras como Djamila Ribeiro, Bell Hooks, Sônia Rosa e Bárbara Carine — nomes fundamentais na produção intelectual sobre raça e identidade.
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Com isso, as escolas parceiras passam a contar com bibliotecas antirracistas que contribuem para ampliar a representatividade no material didático. O investimento cultural equivale à cerca de R$ 5 mil por escola, totalizando R$ 100 mil em materiais, considerando as 20 instituições participantes.
Leis já obrigam o ensino da cultura afro e indígena
A coordenadora do projeto Lá Vem História, Lêda Fonseca, lembra que a educação antirracista está prevista em lei. A Lei nº 10.639/2003 tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira em todas as escolas públicas e privadas do país. A Lei nº 11.645, de 2008, complementou essa diretriz ao incluir o ensino da cultura indígena.
“A maioria dos professores foi formada sob uma perspectiva eurocêntrica. Trabalhar essas temáticas amplia o repertório dos educadores e reconhece a origem dos próprios alunos, em sua maioria negros e pardos”, explica Lêda. De fato, dados do IBGE indicam que mais de 56% da população brasileira se autodeclara negra ou parda.
Cultura como caminho para consciência
O programa começa com duas ações abertas ao público escolar. No dia 20 de maio, a Escola Municipal São Tomás de Aquino recebe a artista Ana Bispo, que fará uma apresentação sobre o legado de grandes compositores negros como Gilberto Gil, Cartola e Dona Ivone Lara para cerca de 245 crianças.
Já no dia 24, a Escola Municipal Pedro Ernesto sediará a mesa de abertura do programa para 50 professores. Participam do encontro Joana Oscar, da Gerência de Relações Étnico-Raciais da Secretaria de Educação, Maíra Santos, diretora da primeira escola afro-brasileira do país, e a educadora e socióloga Thaiana Rodrigues, que mediará o debate sobre práticas pedagógicas decoloniais.
Visitas e vivências para ampliar o repertório
Além das atividades nas escolas, o programa prevê visitas a locais históricos e culturais fundamentais para a construção da identidade afro-indígena brasileira. O roteiro inclui o Cais do Valongo, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade, e a Aldeia Maracanã, além de outros centros culturais cariocas.
As ações têm como objetivo não apenas cumprir a legislação, mas promover experiências significativas que inspirem os professores a desenvolverem práticas mais inclusivas. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, a expectativa é que mais de 1.000 alunos sejam impactados direta ou indiretamente pela formação dos docentes.
Parceiros da Educação: impacto e transparência
Fundada em 2009, a ONG Parceiros da Educação Rio já capacitou mais de 1.700 profissionais e impactou 40 mil alunos em todo o estado. A organização trabalha com doações e programas de apoio focados em infraestrutura escolar, formação docente e combate à evasão escolar.
Com reconhecimento nacional, a ONG já venceu duas vezes o prêmio “100 Melhores ONGs do Brasil” (em 2022 e 2024), recebeu o selo A+ do Instituto Doar e, em 2024, foi homenageada com a Medalha de Mérito Pedro Ernesto pela Câmara de Vereadores do Rio.
“O projeto Lá Vem História tem transformado a vida dos alunos ao levar cultura e arte às escolas da rede municipal. Ele promove a reflexão sobre diversidade e inclusão e forma uma geração mais consciente”, afirma o secretário municipal de Educação, Renan Ferreirinha.


