O desejo de empreender, especialmente entre os jovens, está se consolidando como um dos principais desafios para a atração e retenção de mão de obra na indústria paulista. Esse é o cenário revelado por uma pesquisa do Instituto Locomotiva, encomendada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e pelo Senai-SP. O estudo ouviu 1,5 mil trabalhadores de 18 a 59 anos do Estado de São Paulo entre os dias 23 e 30 de abril, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais.

Segundo o levantamento, apenas 11% dos entrevistados expressaram o desejo de ser empregado da indústria, enquanto mais da metade — 58% — prefere trabalhar por conta própria. Esse número expressivo evidencia como o empreendedorismo no Brasil vem ganhando espaço, principalmente diante de um mercado de trabalho aquecido, mas que enfrenta escassez de profissionais em setores tradicionais.
A pesquisa também revelou que 63% dos trabalhadores paulistas apontam ter um negócio próprio como seu maior sonho profissional. O dado mostra um novo perfil do trabalhador brasileiro, que busca cada vez mais independência, autonomia e qualidade de vida, mesmo diante dos riscos e desafios que empreender pode oferecer.
Flexibilidade e autonomia como principais motivações
De acordo com o estudo, 64% dos entrevistados afirmaram que o empreendedorismo representa uma oportunidade de conquistar mais autonomia e melhorar a qualidade de vida. Entre os principais atrativos do trabalho por conta própria estão a flexibilidade de horários e um menor nível de pressão e estresse, fatores que contrastam com a rigidez e as cobranças do emprego formal.
O levantamento também apontou que apenas 27% dos entrevistados se sentem plenamente realizados com o trabalho atual. Para a maioria, trabalhar como empreendedor ou autônomo pode ser um caminho para alcançar maior satisfação pessoal e profissional.
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Contudo, os trabalhadores também reconhecem as desvantagens dessa escolha. Muitos demonstraram preocupação com a falta de segurança e proteção social em casos de doença, acidente ou outros imprevistos, aspectos tradicionalmente garantidos pela formalidade do emprego com carteira assinada.
Influência das redes sociais no novo perfil profissional de empreendedorismo
Além da busca por mais flexibilidade e autonomia, os pesquisadores destacam outro fator determinante para a mudança na percepção sobre o trabalho: a influência das redes sociais e o crescimento de influenciadores digitais. Para muitos, a possibilidade de ascensão rápida e a chance de ganhar em dólar ou euro, convertendo para reais, são extremamente atrativas.
Por exemplo, enquanto um influenciador pode faturar facilmente de US$ 1 mil a US$ 10 mil por post (valores que variam de R$ 5,20 mil a R$ 52 mil, considerando o câmbio médio de R$ 5,20), um trabalhador da indústria pode levar anos para alcançar salários semelhantes, mesmo com estabilidade e benefícios garantidos.
Esse contraste alimenta o discurso empreendedor, que segundo o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, “não para de crescer”. Durante a apresentação do estudo na sede da Fiesp, Meirelles alertou: “Hoje temos um problema de contratação de mão de obra. Temos que começar a nos preocupar também com a retenção”, referindo-se ao risco de que mesmo os trabalhadores já empregados optem por deixar seus cargos em busca do sonho de empreender.
Desafios para a indústria paulista
O estudo foi conduzido justamente para entender melhor as razões por trás da crescente escassez de mão de obra na indústria paulista. A percepção entre os entrevistados é que a geração anterior — de seus pais — tinha um desejo maior de trabalhar em setores como indústria, comércio, serviços ou construção civil.
Hoje, essa perspectiva mudou: o trabalho formal, com carteira assinada e estabilidade, perdeu espaço para o ideal do negócio próprio, que oferece não apenas a possibilidade de ganhos maiores, mas também mais liberdade e controle sobre o tempo.
Esse movimento representa um desafio para as empresas, que precisam repensar suas estratégias de atração e retenção de talentos. Além de oferecer salários competitivos — por exemplo, o salário médio na indústria paulista gira em torno de R$ 3,5 mil — será necessário incluir benefícios que atendam ao desejo dos trabalhadores por mais autonomia, como modelos híbridos, jornadas flexíveis e programas de intraempreendedorismo.
Tendência nacional
Embora o estudo tenha foco no Estado de São Paulo, especialistas afirmam que o cenário é semelhante em outras partes do Brasil. Dados do Sebrae indicam que, atualmente, o país conta com mais de 14 milhões de microempreendedores individuais (MEIs). Esse número vem crescendo nos últimos anos, impulsionado principalmente pelas facilidades tecnológicas e pela maior disseminação de conteúdos sobre empreendedorismo nas redes sociais.
O movimento também acompanha tendências globais: segundo relatório da Global Entrepreneurship Monitor (GEM), o Brasil é um dos países com maior taxa de empreendedorismo inicial do mundo, com cerca de 30% da população adulta envolvida na criação ou gestão de novos negócios.
O estudo da Fiesp reforça a necessidade de o setor industrial repensar suas estratégias para atrair e reter profissionais, diante de um cenário em que o sonho de empreender se sobrepõe ao desejo pelo emprego tradicional. Ao mesmo tempo, evidencia a importância de políticas públicas e iniciativas privadas que possam oferecer suporte aos novos empreendedores, garantindo que a busca por autonomia e qualidade de vida não venha acompanhada de precarização e falta de proteção social.


