Diante da decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aplicar uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, o governo brasileiro cogita acionar a chamada Lei da Reciprocidade e elevar também suas taxas sobre produtos americanos. No entanto, essa resposta pode acabar agravando os efeitos econômicos para o próprio Brasil, de acordo com economistas, tributaristas e diplomatas.
A medida anunciada por Trump é a mais severa entre os 22 países notificados até agora e já provocou reações políticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que prometeu uma resposta à altura. Ainda assim, especialistas avaliam que o Brasil não possui moeda de troca suficiente e que a retaliação, em vez de resolver o impasse, pode ampliar os prejuízos econômicos, pressionando o Produto Interno Bruto (PIB), a inflação e os juros.

PIB pode cair mais com retaliação tarifária
Segundo Gabriel Barros, economista-chefe da gestora ARX Investimentos, se a tarifa americana de 50% for mantida sem reação brasileira, o impacto estimado seria de uma queda de 0,2 ponto percentual no PIB. Porém, caso o Brasil decida retaliar com tarifas próprias, o efeito seria ainda mais danoso: o PIB poderia cair 0,3 ponto percentual, além de pressionar o IPCA e forçar o Banco Central a elevar a taxa Selic em até 0,3 ponto percentual.
Hoje, a inflação oficial (IPCA) está em 5,35% ao ano e a Selic está em 15%, patamares já elevados. Qualquer movimento que gere pressão adicional nos preços, como o aumento de tarifas sobre produtos importados dos EUA, pode prejudicar ainda mais o cenário econômico e dificultar a retomada da atividade no segundo semestre.
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“Embora uma retaliação traga algum alívio comercial imediato, ela reduz investimentos e amplia a incerteza, o que é contraproducente. A medida pode piorar o ambiente de negócios e acentuar a desvalorização do real”, diz Barros.
Brasil depende mais dos EUA do que o contrário
Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, ficando atrás apenas da China. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços indicam que, entre janeiro e junho de 2025, 16% das importações brasileiras vieram dos EUA, totalizando cerca de R$ 20 bilhões.
No sentido contrário, o Brasil não ocupa posição de destaque na balança comercial americana: é apenas o nono maior importador de produtos dos EUA e o 18º maior exportador para o país norte-americano. Isso significa que o Brasil tem mais a perder com uma guerra tarifária, já que a dependência comercial é maior do lado brasileiro.
Risco de isolamento diplomático e político
Além dos impactos econômicos, diplomatas apontam o risco de isolamento do Brasil em negociações internacionais caso adote uma postura retaliatória. Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos, avalia que o atual governo deveria buscar o diálogo e reconstruir pontes diplomáticas.
“O Brasil não tem moeda de troca. Outros países estão negociando silenciosamente porque o mercado internacional hoje não opera mais por regras formais, mas por força política. A China, por exemplo, tem peso econômico para barganhar, mas o Brasil não”, afirma Barbosa.
Ele alerta ainda que a realocação de produtos para outros mercados é limitada. Exportações de commodities como petróleo e soja podem ser redirecionadas, mas bens industrializados, como autopeças, dependem de cadeias logísticas e acordos específicos, o que torna o processo mais complexo.
Carga tributária brasileira já é vista como hostil
Outro ponto crítico mencionado pelos especialistas é a alta carga tributária brasileira. Segundo Romero Tavares, sócio da PwC e especialista em tributação internacional, o Brasil já é considerado um país com um dos maiores níveis de tributação sobre importações do mundo.
Dados do Banco Mundial mostram que o Brasil tem uma tarifa média de 12,4% sobre produtos importados, enquanto os Estados Unidos, antes do tarifaço de Trump, tinham uma média de 2,7%. Isso coloca o Brasil entre os países mais protecionistas do G20.
Além disso, o Brasil vem impondo uma série de tributos sobre transações internacionais, como:
- Imposto de Renda sobre remessas, de 15% a 25%;
- CIDE-Remessas, que pode chegar a 10%;
- IOF sobre serviços e remessas internacionais, de 3,5%;
- Proposta de 10% de IR sobre dividendos internacionais.
Essas medidas, segundo Tavares, estão no radar do governo americano e já haviam motivado investigações comerciais contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA.
Solução passa por negociação e reformas internas
Diante desse cenário, tanto economistas quanto diplomatas convergem na recomendação de que o Brasil priorize o diálogo bilateral. A aposta em retaliações unilaterais pode isolar o país, afetar a confiança dos investidores e aumentar a pressão sobre a economia.
Especialistas destacam que o governo precisa trabalhar em reformas estruturais, como a reforma tributária, para tornar o país mais competitivo e confiável aos olhos do comércio internacional.
“O Brasil precisa enviar sinais positivos, inclusive narrativos, para não ampliar o caos. Um acordo comercial bem conduzido pode resultar em vantagens mútuas e abrir portas para investimentos”, conclui Tavares.
Se a retaliação tarifária vier, o custo pode ser alto. A economia brasileira, já pressionada por inflação elevada e juros altos, pode sofrer ainda mais com um embate comercial que pouco tem a oferecer em termos de ganhos reais.
*Entrevistas concedidas a CNN