A Geração Z, composta por jovens nascidos entre 1995 e 2010, está moldando uma nova realidade no mercado de trabalho brasileiro: o politrabalho. Essa tendência, que consiste em manter dois ou mais empregos simultaneamente, cresce de forma acelerada com o avanço do trabalho remoto e levanta debates sobre limites legais, produtividade, ética e saúde mental.
Uma pesquisa da consultoria Paychex divulgada em 2023 revelou que 93% dos jovens da Geração Z já conciliam mais de um emprego ao mesmo tempo, número muito superior ao de outras faixas etárias.

Como é o cenário de politrabalho no Brasil?
No Brasil, embora não haja um levantamento nacional específico para 2025, os sinais desse movimento são claros, especialmente entre freelancers, profissionais de tecnologia, design e marketing digital.
Em um país com desemprego ainda elevado entre jovens, a taxa de desocupação de pessoas entre 18 e 24 anos chegou a 17,2% no primeiro trimestre de 2025, segundo o IBGE, muitos buscam múltiplas fontes de renda para garantir estabilidade financeira, quitar dívidas ou até investir. O fenômeno também está ligado ao alto custo de vida. O IPCA acumulado nos últimos 12 meses, até maio de 2025, foi de 4,9%, mas itens como alimentação fora de casa e transporte urbano registraram altas acima de 6%, o que pressiona os orçamentos domésticos.
Em termos de renda, a multiplicação de empregos pode significar um salto importante. Profissionais de tecnologia, por exemplo, relatam ganhos acima de R$ 30 mil mensais ao dividirem sua carga horária entre três ou quatro projetos distintos.
Plataformas como LinkedIn, Freelancer e Workana mostram crescimento na oferta e busca por vagas que permitem atuação remota e flexível. Só em junho de 2025, houve um aumento de 18% nos cadastros de perfis com múltiplas funções simultâneas no LinkedIn, segundo a própria plataforma.
Contudo, o politrabalho não vem sem consequências. Empresas brasileiras começam a expressar preocupações sobre produtividade e conflitos de interesse. “O desafio está em manter a entrega de qualidade, respeitar cláusulas contratuais e não comprometer o desempenho nas funções principais”, afirma Camila Souza, advogada trabalhista do escritório Veiga & Marques em entrevista ao Infomoney. A maioria dos contratos de trabalho em tempo integral exige exclusividade, mesmo que essa cláusula não seja aplicada com rigor. Em caso de descumprimento, o empregado pode ser demitido por justa causa.
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O que diz a legislação?
A legislação brasileira permite múltiplos vínculos empregatícios, desde que não haja sobreposição de horários e que o contrato não proíba expressamente a prática, o problema surge quando há conflito de interesse ou uso indevido de informações entre as empresas contratantes.
As empresas, por sua vez, tentam se adaptar com políticas mais claras. Algumas já incluem cláusulas de não concorrência e exigem declaração prévia sobre outros vínculos. Há também quem adote modelos híbridos com maior flexibilidade, oferecendo bônus de produtividade e planos de carreira para reter talentos.
Do ponto de vista do trabalhador, os riscos não se limitam ao campo legal. Estudos da Universidade de São Paulo (USP) e da Fundação Dom Cabral mostram que a multiplicidade de empregos pode aumentar em até 30% os níveis de exaustão mental e emocional, especialmente quando não há planejamento adequado ou gestão eficiente do tempo. Há ainda o risco de burnout, perda de foco e impacto negativo em relações interpessoais.
Mesmo assim, o politrabalho parece ter vindo para ficar. Pesquisa da MindMiners realizada em abril de 2025 indica que 61% dos jovens brasileiros consideram positivo ter mais de um emprego, mesmo que informal. Para eles, essa é uma forma de acelerar conquistas pessoais, como a compra de um imóvel, viagens ou a formação de uma reserva de emergência.
Essa nova configuração de trabalho também revela uma mudança de valores. A Geração Z prioriza autonomia, propósito e flexibilidade. Não por acaso, cresce a busca por cursos de gestão de tempo, produtividade e finanças pessoais. A educação financeira, aliás, se torna essencial para que os ganhos múltiplos não virem armadilhas de endividamento. Segundo dados do Serasa, 39,7% dos jovens de até 29 anos estavam inadimplentes em maio de 2025.
Para especialistas, o politrabalho exige um novo pacto entre empresas e empregados. “É preciso construir relações baseadas na transparência e em resultados. A exclusividade só faz sentido se houver contrapartida em remuneração e plano de crescimento”, afirma a consultora de RH Marina Ribeiro em entrevista ao Infomoney.
A tendência coloca desafios também para a legislação trabalhista. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), criada em 1943, está defasada frente à nova realidade digital e à multiplicidade de vínculos. Debates sobre jornadas flexíveis, tributação de freelancers e direitos de trabalhadores multiprojetos devem ganhar força nos próximos anos.
Enquanto isso, a recomendação dos especialistas é clara: tanto empregados quanto empregadores devem conversar abertamente sobre acordos paralelos, evitar conflitos de interesse e adotar ferramentas para monitorar produtividade sem invadir a privacidade. No fim, a chave está em equilíbrio, clareza e planejamento.
O politrabalho é, ao mesmo tempo, uma resposta às pressões econômicas e um retrato das novas aspirações profissionais. E a Geração Z parece determinada a fazer dele uma ferramenta de liberdade, ainda que com todos os riscos e dilemas que essa escolha traz.


