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O que o Brasil pode aprender com cidades felizes?

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Ano após ano, o World Happiness Report, publicação da ONU baseada em dados do Gallup World Poll, aponta que os países nórdicos, como Finlândia, Dinamarca e Islândia, lideram os rankings de felicidade mundial. A edição de 2024 manteve essa tendência, com Helsinque, Copenhague e Zurique entre as cidades mais bem avaliadas. O relatório considera fatores como renda, apoio social, expectativa de vida saudável, liberdade, generosidade e ausência de corrupção. Mas, na prática, o que essas cidades fazem de diferente? E o que o Brasil pode aprender com elas?

A resposta passa por uma combinação de planejamento urbano inteligente, políticas públicas inclusivas, serviços eficientes e cultura de bem-estar. Esses elementos criam ambientes que promovem qualidade de vida de forma acessível e sustentável, uma lição relevante para cidades brasileiras que enfrentam desigualdade, infraestrutura precária e serviços sobrecarregados.

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Ao adaptar essas boas práticas à realidade brasileira, é possível avançar rumo a cidades mais justas, saudáveis e felizes para todos | Foto: Reprodução/Canva
Ao adaptar boas práticas à realidade brasileira, é possível avançar rumo a cidades mais justas, saudáveis e felizes para todos | Foto: Reprodução/Canva

Urbanismo centrado nas pessoas

Em Copenhague, na Dinamarca, 62% da população se desloca diariamente de bicicleta. Isso é possível porque a cidade investiu pesadamente em infraestrutura cicloviária segura e integrada, além de limitar o uso de carros em áreas centrais. O resultado vai além da mobilidade: melhora a saúde da população, reduz a poluição e estimula a convivência urbana.

No Brasil, cidades como São Paulo e Recife vêm avançando em infraestrutura para bicicletas, mas ainda enfrentam desafios ligados à segurança viária e à falta de integração com transporte público. A expansão de ciclovias e o incentivo ao transporte ativo podem contribuir não só para a saúde dos cidadãos, como também para a redução dos custos com saúde pública. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o sedentarismo gera um custo estimado de R$ 14 bilhões anuais ao SUS.

Lazer acessível e bem distribuído

Helsinque, na Finlândia, prioriza o acesso igualitário a espaços de lazer. Parques, bibliotecas públicas modernas e centros comunitários estão distribuídos de forma equilibrada pelos bairros, promovendo bem-estar e conexão social.

No Brasil, ainda há um abismo entre regiões centrais e periferias em termos de acesso a áreas verdes e espaços culturais. De acordo com a pesquisa “Bem-estar nas Cidades”, do Instituto Cidades Sustentáveis, bairros periféricos de grandes cidades como Salvador, Manaus e Belém têm menos de 3 m² de área verde por habitante, número muito abaixo dos 9 m² recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Investir em lazer e cultura pública acessível impacta diretamente a saúde mental da população. A OMS estima que a depressão custa R$ 77 bilhões por ano à economia brasileira em produtividade perdida e tratamento.

Serviços públicos de qualidade

Zurique, na Suíça, oferece transporte público eficiente, coleta seletiva obrigatória e saúde de alta qualidade acessível à maioria da população. Tudo isso é financiado por um sistema tributário progressivo, com forte controle social sobre a aplicação dos recursos.

No Brasil, a desigualdade no acesso a serviços públicos básicos ainda é um entrave. Segundo dados de 2023 do IBGE, cerca de 30% da população ainda não tem acesso a saneamento básico, por exemplo. Além disso, a fila de espera por atendimento especializado no SUS ultrapassa 1,3 milhão de pessoas em diversas regiões.

A criação de sistemas de gestão pública mais transparentes e participativos, como orçamentos participativos e aplicativos de fiscalização cidadã, pode ajudar a melhorar a alocação de recursos e a confiança da população nos serviços do Estado.

Políticas inclusivas e confiança social

As cidades mais felizes do mundo se destacam também por suas políticas de inclusão social e igualdade de oportunidades. Na Islândia, por exemplo, políticas voltadas para equidade de gênero, apoio à parentalidade e combate à discriminação são integradas à vida cotidiana.

No Brasil, avanços como o marco legal da primeira infância e o Bolsa Família são importantes, mas ainda insuficientes para reduzir as desigualdades estruturais. Segundo o IBGE, em 2024, o rendimento médio da população branca foi 73% maior que o da população preta ou parda. A promoção de políticas públicas voltadas à equidade racial, de gênero e territorial é essencial para melhorar o bem-estar coletivo.

Além disso, a confiança entre cidadãos e entre estes e as instituições é um fator-chave. O World Happiness Report mostra que populações que confiam mais em seus vizinhos e governos relatam níveis mais altos de satisfação com a vida.

O caminho para cidades mais felizes no Brasil

Não existe fórmula mágica, mas o exemplo das cidades mais felizes do mundo aponta caminhos viáveis: investir em mobilidade urbana sustentável, democratizar o acesso à cultura e ao lazer, fortalecer os serviços públicos, promover inclusão e construir confiança social.

Implementar essas transformações exige vontade política, articulação entre esferas de governo e participação ativa da sociedade civil. Ao adaptar essas boas práticas à realidade brasileira, é possível avançar rumo a cidades mais justas, saudáveis e felizes para todos.

Sobre o autor Rafaella Ranulfo

Jornalista especializada em assessoria e gestão da comunicação. Pós-graduanda em psicologia positiva, felicidade e bem-estar. Além de suas contribuções online, é autora de dois livros e criadora de conteúdo

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